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20 de julho de 2018, 21h43

Quem é o monstro: Dr. Bumbum ou a Medicina capitalista?

Até que ponto o capitalismo deve mover os interesses da medicina? O Dr. Bumbum, mais do que uma ficha corrida, revela os caminhos tortuosos e equivocados que algumas áreas como a Saúde têm seguido a partir de decisões políticas em conluio com os conglomerados

Foto: Reprodução/Instagram

O Brasil acompanha o caso do médico cirurgião plástico Denis Furtado, que nas redes socais é conhecido como Dr. Bumbum, pois Furtado era famoso por suas operações de alteração estética do glúteo. E foi após uma dessas cirurgias que faleceu a bancária Lilian Calixto, que tinha 46 anos.

Além de toda a questão criminal que envolve Denis Furtado e sua mãe, Maria de Fátima Furtado (que, aliás, teve o seu CRM cassado por divulgar “promessas milagrosas” na internet), visto que ambos possuem uma longa ficha corrida que envolve até denúncia de homicídio, cabe refletirmos alguns aspectos éticos e sociais que envolvem essa história:

1 – Desde 2014, segundo levantamento feito pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil figura em segundo lugar no ranking mundial de intervenções estéticas sendo que, barriga, nariz, glúteo e pálpebras são os locais mais requisitados; este dado, que não é assim tão novidade e até inspirou o cineasta Almodóvar em seu filme “Pele que habito” (2011), que conta a história de um cirurgião plástico brasileiro, nos revela mais da sociedade do que imaginamos: pessoas em busca de um tipo de corpo se submetem a intervenções em locais desaconselhados ou até mesmo proibidos (por exemplo, operação na casa do profissional) para construir o corpo ideal;

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2 – Denis Furtado tinha quase um milhão de seguidores nas redes sociais; postava vídeos onde divulgava os seus serviços e segundo dados apresentados pela investigação em curso, Furtado realizou entre 8 e 9 mil intervenções cirúrgicas. Como notamos, não era um anônimo e seus serviços não eram oferecidos na calada da noite; se havia tantos erros e crimes em torno da figura do Dr. Bumbum, porque o Conselho Federal de Medicina (CFM) não atuou de forma rígida neste caso? Quanto outros “Dr. Bumbum” existem por aí sem a popularidade de Furtado ganhando milhares de reais com operações carniceiras?

3 – Além da intervenção junto dos poderes policiais, o papel do Conselho Federal de Medicina não seria, também a partir das redes socais, tratar da ética? Ainda mais em um país que realiza mais de 400 mil cirurgias estéticas por ano? Com um simples Google encontramos uma série de doutores bumbum oferecendo serviços do mesmo tipo… Até que ponto o capitalismo deve mover os interesses da medicina? Espanta que, durante a implantação do programa Mais Médicos o CFM e os conselhos locais foram ágeis em ir à imprensa denunciar o programa e organizar passeatas ao redor do Brasil. Mas silencia frente a esta questão.

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Por fim, o caso do Dr. Bumbum revela mais questões éticas e sociais do que criminais. Também nos mostra no que tem se transformado parte da medicina que, desde meados do século XX está mais preocupada com o individual do que o social, principalmente no Ocidente e, especificamente, no Brasil e EUA.

Não é à toa que o sistema Universal de Saúde (SUS) tem sido tão atacado nos últimos anos, pois, este privilegia a saúde do corpo social antes do individual e o caso “Dr Bumbum” também revela a prevalência de uma narrativa, que não é exclusiva da medicina, que privilegia o individual.

O Dr. Bumbum, mais do que uma ficha corrida, revela os caminhos tortuosos e equivocados que algumas áreas têm seguido a partir de decisões políticas em conluio com os conglomerados: saúde, educação e transporte, que deveriam ser tratados como direitos humanos e universais estão sendo completamente privatizados e da pior maneira possível.

O título deste texto é mais uma ironia do que uma afirmação, pois, tanto a medicina focada apenas no capital, como personagens tais qual o Dr. Bumbum são monstruosidades do capitalismo neoliberal, e a guerra entre os planos de saúde e o Supremo Tribunal Federal (STF) não nos deixa mentir.

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