21 de março de 2018, 17h58

Quem é perigoso? Cambridge Analytics ou o Facebook?

O Facebook vende um serviço que se chama lookalike, ou seja, você pode comprar uma amostra de usuários com as mesmas características dos melhores consumidores de um produto ou serviço. Essa prática é tão assustadora quanto a da Cambridge Analytics

Foto: Brand Equity

O escândalo da Cambridge Analytics é grave. Mostrou que uma empresa pode coletar bilhões de dados pessoais para montar perfis psicométricos e definir os tipos de personalidade de 50 milhões de norte-americanos. Sim, a Cambridge Analytics trabalhou pela vitória de Trump e pela saída da Grã-Bretanha da União Européia. A empresa é propriedade do bilionário conservador Robert Mercer.

Mas, o mais intrigante é que o Facebook está sendo acusado de vazar dados, mas não está sendo questionado sobre os dados que recolhe e armazena de cada um dos seus usuários. O mais curioso é que o Facebook não está sendo cobrado por vender amostras de perfis que pode fazer predições e modulações muito mais perigosas do que as realizadas pela Cambridge Analytics.

Segundo a Statista Digital Market Outlook, em 2016, 2,8 bilhões de pessoas utilizaram as redes sociais online, ou seja, um terço da população mundial. Só nos Estados Unidos foram 214 milhões de pessoas. No Brasil, atingimos 122 milhões de usuários dessas plataformas. A maior delas é o Facebook com 1 bilhão e 871 milhões de inscritos no planeta.

O Facebook, segundo a Statista, armazena mais de 300 milhões de gigabytes de dados dos seus usuários. Isso equivale a 126 livros digitais sobre cada usuário ativo. Por que? Para traçar com precisão o perfil de cada pessoa com a finalidade de compor amostras solicitadas por publicitários, empresas, governos e políticos.

O poder de análise do Facebook é muito maior do que a de qualquer governo, com exceção governo dos Estados Unidos. Nenhuma universidade, agência governamental ou portal no Brasil tem mais informações detalhadas sobre os brasileiros do que o Facebook. Sim, o Google tem mais informações sobre cada brasileiro do que o Facebook. Tanto Google e Facebook trabalham a mesma matéria-prima, os dados pessoais.

O Facebook vende um serviço que se chama lookalike, ou seja, você pode comprar uma amostra de usuários com as mesmas características dos melhores consumidores de um produto ou serviço. Essa prática é tão assustadora quanto a da Cambridge Analytics.

Por tudo isso, não consigo compreender o que motivou os deputados brasileiros aprovarem na lei eleitoral brasileira que, apesar de proibir a propaganda paga na Internet, o “impulsionamento” de conteúdos (Art. 57-C). Ou seja, é assegurada a compra de amostras de usuários do Facebook para visualizarem o conteúdo pago pelos candidatos. Além disso, a lei tomou a precaução de incluir “entre as formas de impulsionamento de conteúdo a priorização paga de conteúdos resultantes de aplicações de busca na internet” (Art.26.§2o).

Os deputados brasileiros legalizaram a campanha paga na Internet em duas plataformas estrangeiras, operadas por algoritmos fechados, opacos, e que mantém seus bancos de dados sob a jurisdição norte-americana. Depois consideram teoria da conspiração a interferência norte-americana na modulação da opinião pública no Brasil.