Quilombo

por Dennis de Oliveira

23 de fevereiro de 2012, 08h05

Quem ganha com o vandalismo no samba?

O que aconteceu na apuração dos desfiles das escolas de samba de São Paulo foi lamentável, mas que sirva de alerta sobre o risco que o carnaval paulistano está tendo com a admissão das “torcidas organizadas” como escolas de samba.

Sou Vai-Vai desde criança, coisa de família. Saí muitas vezes pela Vai-Vai e, mesmo torcendo apaixonadamente pela escola do Bixiga, onde nasci, frequentei nos anos 1990, sem problemas, o saudoso botequim do Camisa Verde (pagode de qualidade aos sábados) e o Cantinho do Peruche aos domingos. Ia até aos ensaios de outras escolas em que muitos amigos e amigas minhas desfilavam. Sambas memoráveis da então maior rival da Vai-Vai, a Camisa Verde e Branco não me saem da memória como “Mareou, maré levou, indo afora a mostrar, voar, voei, cruzei o mar, eu sou cinema popular” (tetracampeonato da Camisa em 1974).

Ou ainda “Não é preconceito/Negro e branco tem direito/Nossa escola não faz distinção de cor (…) A nossa escola enaltece a negra gente/Que nunca ficou chorando/Sempre viveu cantando/Fingindo contente”. Neste ano, acho que foi 1982, o Camisa perdeu o carnaval para o Vai-Vai que saiu com o samba “É Orun/Orun-Ayê/O eterno amanhecer/E lá no alto quando o sol brilhou/Eu avistei a pedreira de XangÃ?”. Fiquei feliz com a vitória, mas lembro deste lindo samba do Camisa que saiu com uma batida diferente na bateria.

Ficava puto com as derrotas do Vai-Vai para o Camisa. Ficava feliz com as vitórias e tirava uma onda dos adversários – como o campeonato de 1976 em homenagem a Solano Trindade, música do saudoso Geraldo Filme: “Solano vento forte africano/nome que o menino recebeu/lá no Recife Pernambuco/cidade que o menino nasceu/moleque de rua/viu carnaval/o pregão da quituteira/e lapinhas no natal/ literatura de cordel/e firmou um ideal/levantar uma bandeira/pela arte popular/canta meu povo vamos cantar/em homenagem ao poeta popular/Vai-Vai é povo está na rua/Saudoso poeta a noite é sua”. Aprendi, com isto, a admirar o samba de qualidade.

O samba é uma das formas de manifestação e organização da população negra mais tradicional e importante do Brasil. É sintomático que uma população historicamente discriminada e explorada, desde os tempos da escravização de africanos e afrodescendentes, consiga manterem vivas organizações culturais por mais de 100 anos – em condições totalmente desfavoráveis. A existência das escolas de samba como a Vai-Vai, o Camisa Verde, o Nenê da Vila Matilde, a Lavapés, em São Paulo (só para citar algumas), ou Mangueira, Portela, Salgueiro, Vila Isabel, no Rio de Janeiro é produto da resistência tenaz da população negra contra o racismo. Esta resistência se dá pela manutenção de espaços de cultura negra. Espaços que projetaram figuras como o já citado Geraldo Filme, Pé Rachado, Pato N’água, Seu Nenê, Mestre Lagrila, Oswaldinho da Cuíca, só em São Paulo.

O samba paulistano se originou dos cordões, formados por negros e negras vindos do interior que vinham para a Capital tentar melhor sorte. O samba era perseguido e criminalizado, nem por isto deixou de resistir até ser reconhecido. Hoje, as estratégias das classes dominantes perante a esta cultura de resistência é diferente: ao invés de perseguir, há a tentativa de cooptar, tutelar, “branquear” e desmoralizar.

O que vem acontecendo no futebol, com os vândalos das organizadas afastando os torcedores comuns pode vir a ocorrer no samba. Tempos atrás, não obstante a disputa ser acirrada e haver a rivalidade entre as escolas de samba, a cada desfile de escola os sambas eram cantados pelos presentes. Por isto, uma das gírias comuns no carnaval é “este samba vai pegar” – que significa que o samba vai contagiar as arquibancadas, todos vão cantar e isto favorece o desfile da escola. E isto era um verdadeiro desafio para os compositores de sambas enredo nas escolas que quebravam a cabeça para fazer um samba que “pegasse”. Por isto, eu, um torcedor apaixonado da Vai-Vai, lembro de sambas memoráveis da Camisa Verde e Branco como o citado acima.

Hoje com a presença das organizadas, o comportamento nas arquibancadas vem mudando. Há um boicote pelo “silêncio” aos sambas das escolas que não são das torcidas organizadas. Perdeu-se o clima de participação na festa mesmo com a rivalidade existente entre as escolas. A intolerância das organizadas do futebol está refletindo no carnaval.

No sambódromo, durante a apuração, por questões de “segurança”, a PM permitiu a presença apenas dos torcedores da Gaviões da Fiel. Não foi suficiente para evitar o vandalismo.

Claro que os acontecimentos foram frutos de uma série de problemas: a troca em cima da hora dos jurados sem que a maioria das escolas fosse consultada, gerando já um clima de desconfiança no início das apurações, depois a atitude do membro da Imperador da Casa Verde que invadiu e rasgou as notas faltantes.

Mas o que se seguiu foi um festival de vandalismos típicos das arquibancadas dos estádios de futebol hegemonizados por estes grupos. Queimaram um carro alegórico da Pérola Negra, escola que nada tinha a ver com nada, foi até rebaixada, porque pensaram ser “da Dragões da Real, torcida do São Paulo”. Quase aconteceu um incêndio de graves proporções no sambódromo. Cercas, placas de metal foram destruídos. Destacamentos de policiais tiveram que ser mobilizados para conter o vandalismo – isto em uma cidade em que bairros periféricos sentem a falta de policiamento.

Pergunto: qual é a efetiva contribuição para o samba paulistano e/ou brasileiro que estas escolas de torcida tem trazido? Alguém sabe mencionar algum compositor, sambista, baterista, carnavalesco revelado por estas “escolas”? Vale a pena pagar este preço e este risco?

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