14 de novembro de 2018, 15h37

Quem mandou matar Marielle? A pergunta que “quer” ser calada!

Em novo artigo, Monica Benicio diz: “Ninguém vai soltar a mão de ninguém. Eu jamais soltarei a mão daquela que é o grande amor da minha vida. Marielle é atemporal”

Foto: Arquivo Pessoal

No caminho com Maiakovski

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Quatorze de março de 2018. O dia em que Marielle Franco foi executada a tiros no centro da cidade do Rio de Janeiro, junto com seu motorista Anderson Gomes. Perplexidade, dor, comoção, angústia e revolta marcavam o começo deste ano. O assassinato que chocou o mundo, que mobilizou tantas pessoas, frentes, redes e movimentos, deixou muitos de nós sem chão. Para os mais próximos, a dor de vê-la ser arrancada de nós, de nosso convívio. De saber que não teríamos mais suas gargalhadas, sua voz firme e contundente, seu olhar sempre expressivo e especialmente sua fome de vida, sua energia e vontade de ser e existir neste mundo, de amar e ser amada. Para outros, o vazio ao ver o projeto político alternativo que ela representava, a voz que ela dava às “minorias”, o corpo que ela emprestava cotidianamente para o enfrentamento e a luta que ela travava por uma vida mais justa e digna para todos e todas, ser atacado de forma tão cruel.

O que não imaginávamos é que nesses oito meses de sua morte, o chão se abriria ainda mais para nós. As perguntas iniciais de como puderam fazer isso? Como seguir? Cadê a solução do crime? Passaram a ser substituídas por como nos protegemos? Como enfrentamos o medo e resistimos? O que podemos fazer para que não nos calem / silenciem? Para dizer que não esqueceremos? Para gritar que “queremos saber quem mandou matar Marielle”?

O avanço do discurso de ódio, as ações de violência, os diversos golpes ao longo do processo eleitoral, as falas públicas de candidaturas que pregaram explicitamente nosso extermínio, ou seja, dos negros e negras, das feministas, da população LGBT, das minorias religiosas, dos defensores dos direitos humanos, tornaram o luto que tentávamos vivenciar ainda mais sofrido, com a concretude de um projeto fascista em curso no país e sua relação com a execução de Marielle.

Hoje temos que lidar com a vitória eleitoral deste projeto. Com a ascensão de figuras que simbolicamente e concretamente (quebrando a placa com seu nome, por exemplo) tripudiaram em cima de sua morte. Figuras que querem calar a pergunta – Quem matou Marielle? Que afirmam: “A investigação desse caso (Marielle) será tratada exatamente como qualquer outro caso”.

Ou seja, para as figuras políticas que representam o fascismo hoje no Brasil não interessa responder “Quem matou Marielle?”.  Por razões óbvias, são fascistas. É autoexplicativo. E para boa parte da sociedade brasileira, interessa? Querem encontrar os responsáveis? Querem se olhar no espelho e descobrir que quando vestiram camisa da seleção e bateram panela, quando comemoram o impeachment sem provas de uma presidenta e a prisão de Lula, quando gritaram mito, estavam integrando o rol de responsáveis pela morte dela? Querem lidar com o fato de que eleger estas figuras também é uma forma de matá-la? Parece que preferem calar a pergunta.

O que eles não sabem é que quando dizemos “nenhum dia de descanso e uma vida inteira de luta” estamos afirmando que não existe nenhuma forma de nos calar, de nos fazer desistir ou abrir mão de quem somos e de nosso projeto. Somos humanos, temos amigos, família, amores e gostamos de viver como Marielle gostava. Por isso, mesmo com medo, não deixaremos de seguir em defesa do que acreditamos. E fazemos isso porque o que nos move, o que nos dá sentido nessa vida, o que nos faz acordar todos os dias e agir são nossos sonhos e a convicção de sermos quem somos.

A derrota nas urnas dói e traz ameaças sérias a nossa existência. Mas ela não nos intimida, cala ou nos fará desaparecer. Quando nos “varrem”, voltamos; quando nos matam, renascemos; quando nos calam, encontramos novas vozes. E assim será. Não vai ter exílio, não vai ter ameaça velada ou explícita, não vai ter arrego nessa luta. Porque é pela nossa existência. Porque é por ela, por sua memória, pelo que ela gostaria que fizéssemos e pelo que ela faria se estivesse em meu lugar.

Não importa quanto tempo leve, nós vamos seguir perguntando quem matou Marielle e quem mandou matar. Mesmo quando houver a identificação dos responsáveis e a justiça for feita. Nós, a próxima geração e a próxima e a próxima. E sabe por quê? Porque ao respondê-la identificamos contra o quê e contra quem lutamos.  Porque assim mantemos viva sua memória e em nome de que projeto ela morreu lutando. Nós não esquecemos nossos mortos. Nós não abrimos mão de nossos ideais. Nós seguimos com amor porque, este sim, é um sentimento revolucionário. Ninguém vai soltar a mão de ninguém. Eu jamais soltarei a mão daquela que é o grande amor da minha vida. Marielle é atemporal.

“O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”.  José Saramago

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