Quilombo

por Dennis de Oliveira

11 de abril de 2012, 08h20

Questões nebulosas sobre a presença da PM no campus da USP

A Universidade de São Paulo, desde o ano passado, vem passando por um intenso debate acerca da segurança, principalmente no campus Butantã. Após a tragédia que vitimou um estudante da FEA, vítima de latrocínio, o tema segurança passou a ser agendado na opinião pública como o maior problema da instituição.  Cerca de três meses após a entrada da PM no campus, a reitoria e o governo do estado “comemoraram” a queda de 92% nas ocorrências. A notícia não esconde o que tem sido prioridade na política de segurança na ótica conservadora: os índices que mais caíram e foram “comemorados” pelas autoridades foram a queda nos roubos e furtos de veículos, indicando a preocupação com a preservação do patrimônio.

O agendamento da opinião pública teve um caráter classista. Não obstante o caráter trágico da morte do estudante da FEA, os índices de violência na USP são muito inferiores a qualquer bairro periférico. Porem, o discurso midiático praticamente “naturalizou” a violência na periferia e “tornou trágica” qualquer ocorrência nos lugares onde a classe média e alta frequenta.

Por esta razão, passou quase que despercebido pela maior parte da mídia hegemônica a reportagem veiculada no Jornal da Band no início de abril que fala do envolvimento de policiais do 16º. Batalhão de Polícia Militar com a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).  Segundo a reportagem, elaborada pelo jornalista Sandro Barboza, investigações da Corregedoria e da Polícia Civil sobre o envolvimento de PMs com o crime organizado tem sido sistematicamente ignoradas pelo comando da corporação.

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Nos relatórios da investigação, constam suspeitas de envolvimento de policiais do 16º. Batalhão com o crime organizado e o tráfico de drogas que atua nas imediações do campus Butantã, principalmente na comunidade do Jardim São Remo. Entre as várias coincidências, o jovem que confessou ter matado o estudante da FEA é morador da São Remo e quando se entregou à polícia estava acompanhado de um advogado que tem um histórico de atuações em casos que há suspeitas de envolvimento do crime organizado. Ficou famosa a sua frase neste episódio de que “bandido profissional tem ética”.

Por isto, o episódio da presença da PM no campus tem questões mais nebulosas: por que os relatórios que investigam o envolvimento dos policiais com o crime organizado têm sido ignorados pelo comando da corporação? Quais são as ligações do PCC, tráfico na São Remo e o 16º. Batalhão? Estas informações são de grande relevância e trazem novos elementos para a discussão sobre a segurança e a presença da polícia no campus. Principalmente quando se observa uma tendência à radicalização da militarização da segurança no local com a contratação de um ex-coronel da PM para dirigir a segurança interna do campus.

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