COMPRE JÁ
09 de Março de 2018, 15h57

Racismo na FGV: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!”

O agressor é o aluno Gustavo Metropolo (na foto à direita), que após a repercussão de sua postagem retirou todas as suas redes do ar

A postagem racista à esquerda e o autor à direita. Foto: Reprodução

Um aluno da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Centro de São Paulo, tirou uma foto de outro estudante da mesma instituição e compartilhou em um grupo de Whatsapp com a frase: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!”. A vítima registrou boletim de ocorrência por injúria racial e o autor da foto foi suspenso da faculdade por 3 meses.

O boletim de ocorrência com o nome de Gustavo Metropolo

O agressor, de acordo com o boletim de ocorrência, é Gustavo Metropolo que, logo após a mensagem se espalhar pelas redes internas, retirou todos os seus perfis das redes sociais.

A Fórum tentou entrar em contato através do seu celular, mas ele não atendeu.

Em um grupo da GV no Facebook, a vítima conta que foi chamada pela Coordenação de Administração Pública na terça-feira (6) e informada que um aluno do 4º semestre do curso de Administração de Empresas compartilhou a foto com a frase.

No post, a vítima diz que o colega teve atitude “covarde”. “Tão perto de mim…porque não foi falar na minha cara? Mas você optou pela atitude covarde de tirar uma foto minha e jogar no grupo dos amiguinhos. Se seu intuito foi fazer uma piada, definitivamente você não tem esse dom. Acha que aqui não é lugar de preto? Saiba que muito antes de você pensar em prestar FGV eu já caminhava por esses corredores. Se você me conhecesse, não teria se atrevido. O que você fez além de imoral é crime! As providências legais já foram tomadas e você pagará pelos seus atos”, diz post publicado em grupo da faculdade no Facebook.

“Não descansarei até você ser expulso dessa faculdade. Pessoas como você não devem e nem podem ter um diploma da Fundação Getulio Vargas. A mensagem é curta e direta. Mas serve para qualquer outrx racista da Fundação. Não passará!”

O boletim por injúria racial foi registrado no 4º Distrito Policial da Consolação, na região central da cidade, nesta quinta-feira (8).

Em nota, a FGV afirma que ante “possível conotação racista da ofensa” “aplicou severa punição ao ofensor, que foi suspenso por três meses”.

“O comentário ofensivo foi feito em grupo privado do qual o ofensor fazia parte, sem qualquer participação, ainda que indireta, da FGV. Ante a possível conotação racista da ofensa, firme em sua postura de repúdio a toda forma de discriminação e preconceito, a FGV, tão logo tomou conhecimento dos fatos, tal qual prevê seu Código de Ética e Disciplina, de imediato aplicou severa punição ao ofensor, que foi suspenso de suas atividades curriculares por três meses, estando impedido de frequentar a escola, sem ressalva da adoção de medidas complementares, a partir da apuração dos fatos pelas autoridades competentes”, diz o texto.

O Diretório Acadêmico Getúlio Vargas disse, por meio de nota, que uma carta de denúncia será apresentada à Congregação, órgão colegiado capaz de deliberar a respeito da expulsão do aluno.

“Reiteramos, ainda, nosso profundo repúdio ao ocorrido. Nossa gestão assumiu o DAGV com o compromisso de trabalhar junto aos coletivos por uma faculdade mais inclusiva e democrática, e por um ambiente universitário verdadeiramente acolhedor a todos e todas que nele estão”, diz a nota.

O coletivo negro 20 de Novembro FGV também se manifestou e pediu “basta de preconceito”.

“Vivemos num país livre. Infelizmente essa liberdade muitas vezes é tão somente formal. As desigualdades de renda, classe, gênero e de cor nas terras de Machado de Assis, Dandara, Luís Gama, Carolina de Jesus, Joaquim Barbosa e Thais Araújo, nos dizem que indivíduos ainda são cerceados de ser quem realmente são. Negros e negras são minoria nas prestigiadas instituições de ensino superior. Homens negros são a maior parte da população carcerária do país. Mulheres negras sofrem duas vezes mais com o feminicídio do que mulheres brancas. Crianças negras são a grande maioria do corpo discente do péssimo ensino público. LGBTSs negros fazem parte de uma das populações mais vulneráveis para o desenvolvimento de doenças mentais. Sendo assim, o coletivo 20 de novembro se levanta e diz: Basta!”

Nota de Repúdio Cursinho FGV

Nós, do Cursinho FGV, expressamos nosso repúdio ao ato de racismocontra um dos alunos da Escola de Administração de Empresas (EAESP), denunciado terça-feira dia 06/03, dentro da Fundação, praticado por um ex-docente do Cursinho FGV. Tendo a situação chegado ao nosso conhecimento no dia 08/03 após ter sido divulgado em grupos da FGV.

Como entidade estudantil que visa promover a diversidade dentro da Fundação Getúlio Vargas e a promoção do acesso à educação de maneira geral, é com grande tristeza e revolta que enxergamos o ocorrido. Possuímos o ingresso de nossos alunos na Fundação Getúlio Vargas como objetivo e passamos a imagem da Fundação como um ambiente convidativo e enriquecedor, porém, diante episódios hostis como esse, nos sentimos desacreditados. Consideramos absolutamente inadmissível a perpetuação desses comportamentos dentro do ambiente acadêmico e, por essa razão, enfatizamos a importância de medidas que efetivamente combatam esse tipo de conduta.

Uma vez que o referido aluno não faz parte de nosso corpo docente desde outubro de 2017, gostaríamos de declarar aos atuais e antigos alunos do Cursinho FGV que a Fundação é um espaço nosso, e que vamos continuar o ocupando mesmo que isso gere incômodo e desconforto em um ambiente no qual os privilégios ainda são evidentes, mas que têm caído a cada dia.

O Cursinho FGV aguarda um posicionamento oficial da Escola de Administração de Empresas (EAESP) da Fundação Getúlio Vargas e da Congregação da Fundação Getúlio Vargas. Por fim, gostaríamos de oferecer nossos sentimentos e nosso apoio à vítima do ocorrido e ao Coletivo 20 de novembro.

Com informações do G1

 


#tags