24 de novembro de 2018, 16h37

Raphael Silva Fagundes: Aos recém-alfabetizados políticos que permaneceram ignorantes

O seguidor cego de Bolsonaro deve entender que a esquerda não é contra o presidente eleito de uma forma pessoal, ou por uma  questão de orgulho, mas contra as medidas políticas que ele pretende realizar.

Dancinha do Bolsonaro. Foto: Reprodução

Existe um grupo de pessoas, aquelas que acreditam fielmente no presidente eleito, que acha que as manifestações contrárias à Bolsonaro, provenientes da esquerda, são birras, que não importa o que o presidente faça, a esquerda sempre irá criticá-lo. Percebe-se que esses indivíduos não têm a mínima ideia do que é política, o que é oposição.

Primeiramente, é muito difícil uma pessoa explanar uma ideia tão insensata sem fazer o mesmo de forma inconsciente. Esse tipo de gente diz que tudo que há de ruim foi o PT que fez. São viciados em dizer que o PT é a causa de tudo que há de mau na Terra. Esboçando um comportamento, em muitos casos, psicótico.

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Segundo que não é uma questão pessoal. Se (o presidente eleito) desenvolveu essa relação de ódio com a esquerda, não quer dizer que todos os estudiosos de política tem o mesmo comportamento. Um analista não odeia o objeto analisado.

A esquerda democrática, de um modo geral, é contra a privatização, cortes de gastos em educação e saúde, preza pela liberdade de expressão e religiosa, defende medidas que possam desencadear uma maior distribuição de renda, de terra, respeito as diferenças etc.. O seguidor cego de Bolsonaro deve entender que a esquerda não é contra o presidente eleito de uma forma pessoal, ou por uma  questão de orgulho, mas contra as medidas políticas que ele pretende realizar. Se ele mudar seu posicionamento político, afirmando que irá investir (materialmente) na educação, na saúde, com dinheiro, obras, recursos e não com essa palhaçada de ideologia, duvido que algum esquerdista seria contra ele. Eu seria o primeiro a apoiá-lo.

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Não é birra. Não é  como um botafoguense, por exemplo, que, vendo o time do Flamengo indo bem na Libertadores da América (coisa que não acontece há algum tempo), ainda assim insistiria em dizer que o time rubro-negro é uma mulambada. As pessoas levam as suas formas tradicionais de conduzir um conflito em âmbito público para o campo político e acham que é assim que a banda toca. Mas não é.

Bolsonaro fez da aparência verdade. Fez do modelo que adotou na campanha para ganhar votos um modo de pensar político. Deu ao seus eleitores uma alfabetização política estúpida e emburrecedora. Ou melhor, aproveitou-se das maneiras tradicionais de conflitos públicos e aplicou. Foi uma estratégia sábia e o mais sábio (politicamente falando) ganha as eleições.

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Mas o que é política? Para Hannah Arendt política é a administração das diferenças. Constitui-se através da livre palavra, sem a liberdade de fala, não há política. Foi isso, segundo a filósofa, que os gregos nos ensinaram.

Política são as estratégias argumentativas usadas para fazer com que o dominado obedeça o dominador por meio de uma razão que para ele faça sentido. Mas ele deve ser persuadido a tal ideia, não por ameaça ou porque foi pago para tal.

Política lida com o porvir, como acredita Bourdieu. É uma luta de interesses de classes para Marx e Engels. Além disso, a crítica política não é pautada em uma filosofia ou ideologia, mas, como nos ensinou Gramsci sobre Maquiavel, nas coisas que foram “aplicadas pelos maiores homens da História”.

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Para o francês Pierre Rosanvallon, observar uma perspectiva conceitual do político é apreender “os sistemas de representações que comandam a maneira pela qual uma época, um país ou grupos sociais conduzem sua ação para encarar seu futuro”.

O poder, por seu turno, só se torna político quando atinge a uma sociedade global, porque o político, como entende o historiador René Remond, é “o lugar de gestão da sociedade global, ele dirige em parte as outras atividades”. Isso devido ao fato de que é no político que se cria as leis, onde se proíbe ou se legaliza.

A tendência em observar o Estado como uma expressão das relações de força no lugar de vê-lo como um instrumento da classe dominante, realmente condiz com a realidade?

O fato é que nos dias de hoje, depois de uma enfraquecida no tema político, depois que a ideia de classe saiu dos temas de discussão, abrindo espaço para outras mobilizações sociais, poderíamos ter nos deparado com uma sofisticação da política a partir do momento em que ela retorna, principalmente assumindo a denominação de “o político”. Contudo, o que vimos foi uma apropriação destas inúmeras mobilizações, tanto pela esquerda – que visa o progresso das relações de gênero, família etc. -, quanto pela direita conservadora – que visa a manutenção das relações tradicionais -, pelo político, esquecendo, por completo, os interesses econômicos que interessa, em última instância, as pessoas.

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O governo que assumirá a partir de 2019 não terá nenhum outro objetivo que não seja acabar com a esquerda. Não fará nada por educação, saúde ou para acabar com a corrupção. Não buscará gerar emprego ou assinar acordos internacionais que favoreçam o Brasil. O projeto de poder, projeto de nação, adotado pelo novo governo é o de desmoralizar e aniquilar qualquer espécie de confiança que a população teve um dia à esquerda.

O governo Trump tem um propósito: fechar os EUA, enfrentar o globalismo etc.. Olham por esse aspecto, nosso governo nada tem que ver com o projeto de poder de Trump. Lá não se propôs acabar com os democratas, a não ser em âmbito retórico. Uma retórica que não foi tão bem sucedida assim. Tanto que tiveram a maioria agora em novembro para a Câmara dos Deputados. Aqui o projeto de poder é acabar com a esquerda. E não há medida, não há nenhum limite para isso. Se for preciso afundar o país é isso que será feito. Aparelha-se o Estado e os órgãos midiáticos com esse propósito. Mas isso mata a fome de alguém? Isso gera emprego?

No Brasil criou-se uma estrutura imaginária para se dizer que “tudo que a esquerda fez nós somos contra”. “Vamos fazer tudo que ela não faria”. E as pessoas estão comprando esse discurso sem levar em conta o que ele realmente quer dizer. Justamente porque estão presos nestas pautas sociais que se constituíram de forma a-econômica. Não se há uma proposta clara sobre educação e saúde, sobre economia, é só dizer que se está fazendo o contrário do que a esquerda fez.

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A esquerda precisa agora mostrar que não se resume ao PT. Que, inclusive, este partido traiu toda a esquerda ao fechar acordo com banqueiros e empresários. É preciso mostrar o que é ser esquerda. Que não se trata de defender a invasão de terra, mas a agricultura familiar; que não se trata de ser contra o empresário, mas de investir no microempreendedor, facilitando os procedimentos e dar subsídios para quem quer abrir um negócio no seu bairro. É isso que gera emprego no campo e na cidade.

Não se trata de virar as costas para as minorias, mas mostrar soluções viáveis para o cidadão que tem fome, que quer hospitais e emprego. É evidenciar que o racismo que uma diarista sofre todos os dias ao pegar um ônibus ou um trem lotado não é o mesmo que o que uma modelo negra sofre. É necessário reconstruir uma visão política a partir de baixo. Uma que jogue luz sobre as necessidades materiais e sobre as sensibilidades da periferia.

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