02 de dezembro de 2018, 13h35

Reconectar-se com o povo é tarefa urgente do PT

"O PT deve ser capaz de compreender que quanto mais se afunda nas disputas internas, no jogo entre tendências, na lógica dos aparelhos como 'depósito de lideranças', teses que pouca gente lê, notas à imprensa cuja repercussão é estreita aos militantes mais afeitos ao dia-a-dia do partido, mais se afasta da sua base"

Reunião do Diretório Nacional do PT em Brasília, dia 30/11. (Foto: Lula Marques)

O Partido dos Trabalhadores realizou sua primeira reunião após o segundo turno das eleições de 2018. O encontro, em Brasília, marcou a possibilidade da feitura de um balanço do processo eleitoral e definição das táticas de resistência ao governo que começará a partir de janeiro de 2019.

Diante da importância do PT para a organização da esquerda brasileira, o enraizamento popular do partido e o papel de liderança na promoção de profundas transformações sociais no país ao longo de 13 anos, as decisões, diretrizes e iniciativas políticas e simbólicas direcionadas à base partidária e à sociedade em geral impactam no futuro da oposição e, consequentemente, dos milhões de brasileiros e brasileiras que disseram não ao presidente eleito, seja apoiando Haddad, se abstendo de participar da eleição ou indicando voto branco ou nulo.

Portanto, é salutar que os dirigentes partidários, parlamentares e figuras proeminentes do PT que estiveram reunidos por dois dias na capital federal tenham a compreensão da conjuntura complicadíssima e façam movimentos de abertura à sociedade, de reconexão com uma parcela da população que assimilou a narrativa anti-petista.

O argumento fácil da autocrítica que supostamente o PT deveria fazer, arregimentado pelos meios de comunicação tradicionais e setores do campo progressista, não pode ser o guia das ações partidárias. Afinal de contas, a base teórica destes acusadores é praticamente uma assunção de culpa não pelos excessos da sigla, e sim uma carta de desculpas por ter ousado governar o Brasil entre 2002 e 2016, como se nunca mais o PT pudesse almejar encabeçar um novo projeto político no país.

Contudo, determinadas condutas e opções políticas podem e precisam ser mudadas. A melhor autocrítica a fazer é na prática, identificando o esgotamento da burocracia petista e como anda pesada a máquina partidária. O PT deve ser capaz de compreender que quanto mais se afunda nas disputas internas, no jogo entre tendências, na lógica dos aparelhos como “depósito de lideranças”, teses que pouca gente lê, notas à imprensa cuja repercussão é estreita aos militantes mais afeitos ao dia-a-dia do partido, mais se afasta da sua base, daqueles que historicamente depositam suas esperanças naquilo que o partido apresenta para a sociedade sobre sua visão do Brasil e do mundo.

Esse período de desgaste das estruturas do PT, do gigantismo de sua máquina, é fruto do êxito em se consolidar como um partido de massas, de representação importante das frações mais necessitadas da presença do Estado e de políticas públicas, no entanto, reconhecer a urgência de mudanças é passo decisivo para reconectar com a população e romper as amarras do ódio cavadas pelo neofascismo representado na figura do presidente eleito, que interditou o debate e estabeleceu em parte do eleitorado uma rejeição brutal ao PT.

A disputa interna pela presidência nacional, instâncias estaduais, municipais e zonais, bem como a estrutura de espaços nas respectivas executivas e de acomodação das diversas tendências, não deve ser a prioridade no próximo momento. É necessário que lideranças de todos os grupos políticos sejam capazes de produzir mudanças estruturais e na medida do possível, consensuais, ampliando a participação social dos militantes além dos processos de eleição de dirigentes, por meio de plebiscitos internos e instâncias decisórias de base, estabelecendo tempo de mandato menor às gestões, abertura para movimentos sociais e lideranças de fora do PT estreitarem sua cooperação com o partido, adaptar as agendas, eventos públicos e fóruns de debate à realidade financeira atual e buscar sair de uma caixa hermética, uma realidade paralela interna incompreensível aos trabalhadores que o partido almeja representar.

O PT conta com quadros jovens dispostos e capazes de ocupar funções de destaque no partido e no Parlamento. Por que não nos inspirarmos no exemplo dos Estados Unidos, que viu duas muçulmanas, duas indígenas e a mulher mais jovem da história serem eleitas deputadas na eleição parlamentar deste mês? Se até o Partido Democrata, uma estrutura de quase 200 anos, percebeu a relevância simbólica de promover candidaturas fortes fora do status quo no período da presidência de um sujeito como Donald Trump, por que o Partido dos Trabalhadores não pode fazer o mesmo?

Além de notas e posicionamentos em coletivas, gestos são poderosos. Uma jornada de formação política voltada à militância a partir de 2019, por exemplo, poderia ser o início de uma onda de candidaturas de negras e negros, indígenas, mulheres e jovens já em 2020, na eleição que renovará as Câmaras Municipais e Prefeituras, emitindo um sinal inequívoco à população da vitalidade do PT, que o partido ainda é sim uma porta de entrada aqueles dispostos a mudar a realidade ao seu redor.

Por fim, é preciso tomar uma posição nítida sobre como será a defesa de Lula e a denúncia incansável da farsa judiciária e midiática em torno de sua condenação e da violação de seus Direitos Humanos. O segundo turno da campanha de Haddad deixou parte da militância desapontada com o suposto “esquecimento” e “abandono” do ex-presidente, como se sua imagem fosse danosa à possibilidade de êxito de Haddad chegar à Presidência. Defendo que o partido tenha a convicção de que Lula e PT são indissolúveis, e a história de um está umbilicalmente ligada ao outro.

A campanha Lula Livre deve estar no centro da atuação do partido e compreendida como parte importante da luta pela manutenção do Estado Democrático de Direito no Brasil, nesse cenário de dúvidas sobre como será o governo de Bolsonaro em relação às garantias fundamentais dos cidadãos, mas de uma forma diferente, não pelas frases feitas, discursos surrados e ações nas redes cujo impacto gera participação e engajamento apenas entre a “bolha” que é de esquerda e simpatizante de Lula e do PT, e sim pela base, de baixo pra cima, reativando os comitês locais em defesa do direito de Lula ser candidato, ainda antes da eleição, e dotando-os de autonomia para promover agendas, reuniões de bairro e contatos com a comunidade no sentido de espalhar a mensagem da urgência da soltura de Lula.

Nenhuma dessas tarefas é fácil e tranquila de realizar, mas nada foi fácil para a esquerda e aqueles que se organizam em torno do Partido dos Trabalhadores.


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