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15 de fevereiro de 2019, 09h41

Renovação real da Câmara Federal foi de apenas 21%, diz estudo do Instituto Cultiva

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva - que elaborou o estudo -, essa pretensa renovação, que não houve, pode frustrar eleitorado e gerar uma crise de representação no País

Sessão plenária da Câmara dos Deputados (Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados)
Um estudo inédito, elaborado pelo Instituto Cultiva e antecipado com exclusividade pela Fórum, mostra que a pretensa renovação política buscada pela população foi frustrada com o resultado das eleições 2018, especialmente na Câmara Federal, onde os deputados reeleitos e recém eleitos fazem os primeiros movimentos sob o governo Jair Bolsonaro (PSL). Segundo o estudo, encomendado pelo Sindicato Nacional dos Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), entre os 513 deputados federal, o índice de renovação foi de apenas 21% – bem aquém dos 47% propalados na grande mídia. Dos 242 deputados federais eleitos que não estavam na legislatura passada, 130...

Um estudo inédito, elaborado pelo Instituto Cultiva e antecipado com exclusividade pela Fórum, mostra que a pretensa renovação política buscada pela população foi frustrada com o resultado das eleições 2018, especialmente na Câmara Federal, onde os deputados reeleitos e recém eleitos fazem os primeiros movimentos sob o governo Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo o estudo, encomendado pelo Sindicato Nacional dos Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), entre os 513 deputados federal, o índice de renovação foi de apenas 21% – bem aquém dos 47% propalados na grande mídia. Dos 242 deputados federais eleitos que não estavam na legislatura passada, 130 (53,7% do total de deputados federais considerados novos) já tinham mandato anterior como deputados estaduais, vereadores, prefeitos, governadores, vice-governadores.

O sociólogo Rudá Ricci (Arquivo)

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva, a inovação buscada pelo eleitorado não refletiu nos resultados da eleição. “O que eu gostaria de ressaltar é que o eleitorado vem procurando inovar radicalmente. Se você pegar as eleições municipais e agora em 2018, a intenção é clara. O que o eleitor não sabe é que votou em gente tradicional achando que era novo”.

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Quando analisados ainda o perfil dos que estão realmente em primeiro mandato, segundo o estudo, 20 novos deputados têm vínculos diretos com políticos tradicionais, assessorando ou fazendo parte de clãs políticos. Assim, os deputados federais sem vínculos passados com mandatos ou vinculados à interesses de políticos tradicionais são apenas 92, ou seja, um índice de renovação de apenas 17,93%.

“Se eu for citar um por um, tem empresário do setor de supermercados, do setor ótico, você tem presidente de redes de faculdades. Você tem pessoas como Hélio Fernando Lopes (o Hélio Negão), do PSL/RJ, que sempre defendeu Bolsonaro. Ou seja, o perfil dos novos “novos”, pende para a direita. E eles devem se vincular ao bloco tradicional que já foi reeleito ou que tem vínculos com clãs que estão mais à direita”, diz o sociólogo.

Nascidos na era Lula
Segundo Rudá, o eleitorado que deseja essa mudança nasceu na era Lula e quer essa renovação para retomar os benefícios que perdeu, especialmente no governo de Michel Temer (MDB). No entanto, apostar em Jair Bolsonaro (PSL), que se elegeu sob o manto do novo, mesmo estando há quase 3 décadas na política pode causar uma perigosa frustração.

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“Há uma instabilidade importante no Brasil, pois este eleitorado que nasceu no período Lula, num momento de consumo, ele quer de novo viajar de avião. E no último período, ele perdeu. Então, esse eleitorado conservador que quer inovação se ele perde o governo Bolsonaro, percebendo que é igual ao Temer – em termos de pauta econômica -, se ele perde o Congresso, que ele achou que é inovador e não vai ser, e se a esquerda não consegue se alterar para falar com ele, nós estamos num período de crise de representação. E é daqui a pouco, no segundo semestre”, diz Rudá.

Para o sociólogo, é o momento dos partidos do campo progressista mudarem o discurso para se alinharem aos temas que estão sendo debatidos nesse eleitorado que pode ficar órfão de representatividade em breve.

“Tem um deslocamento entre a representação institucional efetiva – que o eleitor queria que fosse nova e eu tô tentando provar que não é. Só 21% é que de fato são novos. E o eleitorado que continua procurando o novo por estar cansado de tudo que é tradicional. Se a esquerda conseguir casar com essa parte do eleitorado maioritária que quer inovação, ela vai precisar mudar também”.

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Segundo ele, a mudança tem que se dar não somente no discurso. “(É necessário) mudar o estilo, parar de priorizar o movimento sindical e movimentos sociais tradicionais, vai ter que entrar no discurso da segurança, do emprego, do sucesso individual”.

Assista a entrevista do sociólogo Rudá Ricci à Fórum.

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