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17 de agosto de 2012, 09h39

Resenha de “Manuscrito encontrado em Accra”, de Paulo Coelho (com um adendo)

Na esteira da polêmica acerca das declarações de Paulo Coelho sobre Ulysses, a Folha de São Paulo me convidou a resenhar o último livro do Mago, Manuscrito encontrado em Accra. Aceitei o convite. Segue abaixo o texto da resenha e, logo depois, um adendo que elabora um pouco mais um tema que não coube no […]

Na esteira da polêmica acerca das declarações de Paulo Coelho sobre Ulysses, a Folha de São Paulo me convidou a resenhar o último livro do Mago, Manuscrito encontrado em Accra. Aceitei o convite. Segue abaixo o texto da resenha e, logo depois, um adendo que elabora um pouco mais um tema que não coube no exíguo espaço dos 2.500 caracteres que eu tinha.

Nos últimos dias, dois acontecimentos envolveram o nome de Paulo Coelho com muita repercussão. Depois de sua declaração à Folha, de que Ulysses fez mal à literatura e cabia em um tuíte, Coelho foi violentamente atacado. As reações não vinham da cultura erudita entrincherando-se na autodefesa, mas de comentaristas que rendiam culto a um monumento como forma imaginária de comunhão com ele. Curiosamente, a insistência no valor de Ulysses e na falta de valor de Coelho era contraditória com a própria obra de Joyce que, apesar de eruditíssimo, nunca escondeu seu gosto pela cultura popular. Em seguida, coerente com o que defende, Coelho deu apoio ao blog “Livros de Humanas,” processado pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos por compartilhar PDFs de livros, muitos já esgotados.

Os episódios são relevantes à luz do novo livro do Mago, Manuscrito encontrado em Accra. De certa forma, o livro é sobre o que estava em jogo nas polêmicas sobre Joyce e o compartilhamento de PDFs: como se erigem os monumentos? Quem tem direito de reproduzir o quê? Um manuscrito do século XIV, encontrado em Accra no século XX, traz as respostas de um copta do século XI a perguntas ouvidas em Jerusalém, às vésperas da invasão cruzada.

A captura de Jerusalém pelos cruzados em julho de 1099 seria acompanhada do massacre de quase toda sua população judaica e muçulmana. No mesmo átrio em que, um milênio antes, Pôncio Pilatos havia entregue Jesus, o copta reúne concidadãos para dissertar sobre o futuro, o amor e a derrota.

O jornalismo e a crítica têm se dedicado com mais frequência a achincalhar Coelho do que a cumprir o seu papel, que é entender o objeto. A versão mais comum para o sucesso de Coelho (é “autoajuda barata”), ainda que fosse verdadeira, não explicaria nada. De inúmeros escritores poder-se-ia dizer o mesmo, mas só Coelho fala a milhões. Por quê?

Manuscrito encontrado em Accra oferece uma explicação: Coelho traduz, para a literatura comercial moderna, o gênero da parábola. De larga tradição, dos Evangelhos à contística didática medieval, a parábola não se reduz à autoajuda porque nela opera o discurso ficcional, desestabilizando a aparente univocidade do ensinamento. Daí o fascínio de tantos leitores: simples e compreensível, a parábola preserva uma dose de mistério. A fresta que se abre entre a alegoria e seu sentido fundamenta uma das lições do copta: a circulação infinita dos relatos, negada tanto pelos defensores das hierarquias culturais como pelos guardiões da propriedade privada sobre os textos.

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Adendo: A quem quiser se dedicar a entender o porquê do grande sucesso de Paulo Coelho para além dos clichês “ah, vende mundo porque é autoajuda barata” (como se não se pudesse dizer isso de pilhas de escritores que não atingiram 0,1% do sucesso do Mago), eu sugeriria que se aprofundassem na questão formal que a resenha só teve espaço de mencionar brevemente: a operação da parábola. Mais conhecida entre nós pela sua presença nos Evangelhos, a parábola (do grego: lançado ao lado) tem larga tradição na literatura ocidental. Floresceu à toda na literatura medieval e particularmente, no caso da literatura hispânica, em um gênero, a contística didática. El conde Lucanor, de Don Juan Manuel, talvez seja o espécime mais ilustre desse corpus.

Vários estudiosos da contística didática medieval – penso aqui nos ótimos trabalhos de María Rosa Menocal, por exemplo – têm demonstrado algo bem interessante nos últimos anos. A aparente univocidade do ensinamento transmitido pela parábola (e, no caso d’ El conde Lucanor, essa aparente univocidade é ainda mais destacada que em Paulo Coelho, posto que a moral da história está separada do texto, em itálicos) é poderosamente desestabilizada pelo discurso ficcional, que introduz uma fresta de ambiguidade, quando não de contradição, ali onde só se vislumbraria, à primeira vista, um conto exemplar acompanhado de seu ensinamento. Ah, mas El conde Lucanor é uma grande obra do cânone ocidental, e Paulo Coelho escreve “autoajuda barata”, retrucará o crente na naturalidade, na estabilidade e na imortalidade das hierarquias culturais, cegado até mesmo para o óbvio parentesco entre as textos.

O que esse crente não percebe é que os eixemplos d’El Conde Lucanor eram o Paulo Coelho de sua época, assim como Shakespeare, Dostoiévski e Stevenson também foram cultura do populacho em seu momento. Só depois, muito depois, na maioria dos casos, eles se transformaram em monumentos eruditos. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não depende, portanto, de alguma característica própria, essencial, imanente dos textos. Ela se ancora nos mecanismos de produção, circulação, reprodução e consumo das obras – mecanismos que, evidentemente, se transformam com o tempo. Já está demonstrado, por exemplo, com sólida pesquisa etnográfica, que a miríade de distinções que realizam os ouvintes de música popular não é menos complexa, multifacetada e rigorosa do que aquelas que realizam os consumidores do corpus de peças musicais europeias dos séculos XVIII e XIX que viemos a conhecer, umas poucas décadas atrás, como “música clássica”. Quem quiser saber um pouco mais sobre como eu vejo esses processos de valoração em estética, pode consultar a longuíssima peroração sobre o assunto que publiquei na Revista Brasileira de Literatura Comparada.

Em outras palavras, se quiser invocar a aparente naturalidade de alguma hierarquia estética para desqualificar Paulo Coelho, fique à vontade, mas não imagine que, com isso, você estará entendendo alguma coisa, porque essas hierarquias não são tão naturais como podem lhe parecer à primeira vista.