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05 de agosto de 2013, 22h13

Resenha desmonta livro de repórter da Veja contra Zé Dirceu

Biografia não autorizada de Otavio Cabral traz erros históricos crassos, além de realçar aspectos pessoais em detrimento dos políticos

Biografia não autorizada de Otávio Cabral traz erros históricos crassos, além de realçar aspectos pessoais em detrimento dos políticos

Da Redação

Livro traz barbaridades e invencionices, segundo Mario Sergio Conti

O jornalista Mario Sergio Conti publicou na revista Piauí uma resenha (Chutes para todo lado) sobre a biografia não autorizada de José Dirceu. O livro “Dirceu – A biografia” foi lançado em junho deste ano pelo editor da revista Veja Otávio Cabral (Editora Record). Em duas semanas, a suposta biografia teria vendido 30 mil exemplares e chegou à lista dos mais vendidos de não ficção. No entanto, é assustador a quantidade de erros encontrados na obra, que não contou com sequer uma entrevista com o biografado e pessoas próximas a ele.

Conti fez o trabalho de relatar todas as inverdades encontradas em suas páginas, das menores às maiores, estas históricas. Ele lista vários equívocos só nas seis primeiras páginas do capítulo inicial. “E a sexta página se encerra com um abuso: Otávio Cabral afirma que José Dirceu apoiava Jango ‘mais para se opor ao pai do que por ideologia’. Nada autoriza o biógrafo a insinuar o melodrama edipiano. Ainda mais porque, dois parágrafos adiante, é transcrita uma declaração na qual José Dirceu afirma que, no dia mesmo do golpe, se opôs à ditadura por “um problema de classe”, completa.

Entre as “invencionices” do biógrafo Cabral, listadas por Conti, estão afirmações de que Dirceu teria trabalhado na TV Tupi, o que não confere. Diz ainda que o presidente do PT Rui Falcão foi colega de Dirceu na PUC, onde estudou jornalismo. A PUC sequer tinha curso de jornalismo e Falcão fez direito na Universidade de São Paulo. Afirma que uma das ações mais ousadas de Dirceu “foi a destruição do palanque do governador paulista, Abreu Sodré, no 1º de maio de 1968, na Praça da Sé. O ataque a Sodré foi feito por metalúrgicos de Osasco, liderados por José Ibrahim”.

O biógrafo afirma que em 1968 “a Guerra Fria encontrava-se no auge e a invasão dos Estados Unidos a Cuba era iminente”. Mario Sergio Conti corrige: “A invasão de Cuba fora eminente em 1961, quando a CIA organizou o desembarque na Baía dos Porcos, e no ano seguinte, durante a crise dos mísseis, e não seis anos depois. E 1968 não foi o ano do auge da Guerra Fria, e sim o da sua grande crise, que levou o capitalismo e o stalinismo a se darem as mãos”.

Segundo Conti, A Biografia tem dezenas de barbaridades. Uma das melhores é o trecho que diz: “Fernando Collor, na tentativa de se manter no Planalto durante a campanha pela sua destituição, conclamou o povo a ir às ruas com roupas pretas para defendê-lo, e todos foram de verde-amarelo”. Como todo mundo sabe, ocorreu o contrário. Collor incitou a população a se vestir de verde-amarelo e o Brasil foi tomado por manifestantes de preto.

O biógrafo ainda narra o jogo da Seleção Brasileira contra a do Haiti, em Porto Príncipe, em 2004, que recebeu uma comissão brasileira, com o ex-presidente Lula. Há um belo relato, porém Dirceu não foi para o Haiti naquela ocasião. “É torpe a maneira como Otávio Cabral trata as namoradas e esposas de José Dirceu. Ele escreve vulgaridades machistas como “loira alta e voluptuosa”, “encontrou a inesquecível lembrança deitada na cama”, “formas avantajadas”, “a bunduda do sindicato”. Dá nome, sobrenome e profissão de algumas das mulheres que amaram Dirceu. De outras, o primeiro nome ou só a ocupação. “Empresária”, por exemplo. Por quê? Talvez por incerteza. Talvez por covardia. O que sobressai é a alusão melíflua, e não a afirmação direta”, escreve Conti em sua resenha.

Ao comparar a chamada biografia com outras obras, Conti destaca que “Otávio Cabral envolve José Dirceu numa névoa de insinuações para melhor denegri-lo. Em títulos de capítulos, chama-o de ‘camaleão’, ‘bedel de luxo’, ‘o maior lobista do Brasil’ e ‘o maior vilão do Brasil’. Como Dirceu foi condenado e aguarda a prisão, o que Cabral faz é chutar um homem caído no chão. Mas comete tantos erros que acaba chutando a sua própria reputação profissional”.

E a resenha termina com a seguinte conclusão: “Em vez de trabalhar, Otávio Cabral preferiu a invencionice delirante”.