Resposta ao Cocielo e seus tweets racistas, por Spartakus Santiago | Revista Fórum
02 de julho de 2018, 19h08

Resposta ao Cocielo e seus tweets racistas, por Spartakus Santiago

Eu espero que você faça um vídeo se retratando pra toda a população negra do Brasil que diariamente é perseguida ao entrar em lojas, é evitada nas calçadas à noite e é baleada por engano pela polícia

Foto: Reprodução/Facebook Spartacus

Por Spartakus Santiago*

Oi, Cocielo. Vamos conversar?

Pra quem não sabe, o Cocielo é um dos maiores youtubers do Brasil. Ele tem um canal chamado “Canal Canalha”, que tem quase 17 milhões de seguidores. Esse cara já apareceu em clipe da Mc Loma e estava na Rússia vendo a Copa do Mundo patrocinado pela Adidas, Submarino, Gillete e outras marcas. Esse cara é um daqueles youtubers que fazem vídeos engraçados, sabe? E por isso tem vários seguidores adolescentes e crianças. Esse cara publicou no dia 30 de junho para seus quase 8 milhões de seguidores no Twitter a seguinte coisa:

“mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein”.

Mbappé é um atacante negro francês, um cara que ganha 20 mil euros (90 mil reais) a cada jogo da copa e doa todo esse valor para caridade.

Mas isso não importa, porque ele é negro. E negro correndo no Brasil é bandido fazendo arrastão.

Pra muita gente, é só uma piada. Mas isso é só a expressão de um pensamento extremamente racista, que diz que nós somos sempre bandidos.

Nesse país, diariamente, negros são mortos por serem confundidos com assaltantes. Em 2015, por exemplo, cinco jovens negros estavam num carro em Costa Barros, uma parte pobre daqui do Rio de Janeiro, e foram confundidos com ladrões de carga. Eles foram fuzilados com 111 tiros, foram violentamente assassinados, porque o consciente coletivo diz que preto é automaticamente ladrão. E você, Cocielo, como grande influenciador e youtuber, está reforçando esse pensamento.

Há alguns meses eu, Spartakus, fiz um vídeo junto com AD Júnior e Edu Carvalho dando dicas de segurança pra população negra durante a intervenção militar. Uma das dicas que não entraram no vídeo é que não se deve correr, principalmente à noite, porque a polícia pode te confundir com um bandido e te matar. Em 2015 também, Alan de Souza Lima passou por isso. Estava conversando e filmando seus amigos quando a polícia apareceu de surpresa. Ele correu, e isso foi o bastante pra que achassem que ele fosse ladrão. Ele não só foi baleado, como também filmou a própria morte. Tudo porque viram um garoto negro correr e acharam que era um ladrão.

É esse tipo de pensamento reforçado por esse tweet.

Porque quando o jogador branco corre, ele tem talento pra ser atleta. Mas quando o negro corre, tem talento pra arrastão.

Algumas pessoas brancas acham esse posicionamento radical, pois julgam entender mais de racismo do que nós que sofremos isso na pele.

Outras estão dizendo que foi só um deslize, e que ele já pediu desculpa.

Então, eu quero apresentar aqui alguns outros tweets do Cocielo, este youtuber que atualmente representa as marcas Adidas, Gilette, Submarino e outras.

“O brasil seria mais lindo se não houvessem frescuras com piadas racistas. Mas já que é proibido, a única solução é exterminar os negros”.

“Gritei vai macaca pela janela e a vizinha negra bateu no portão de casa pra me dar bronca”.

“Nada contra os negros, tirando a melanina”.

“Eu queria ter gravado um vídeo sobre o dia da consciência negra, só que aí eu deixei quieto porque na cela não tem wi-fi”.

Esses tweets são de 2013. É complicado julgar alguém por tweets antigos, porque a pessoa pode já ter mudado, se desconstruído. Mas eles provam que não é só um deslize, pois ele errou há cinco anos e errou novamente agora.

Infelizmente, pra muita gente, isso tudo que ele falou é bobagem, afinal, esses são os comentários que ele está recebendo dos seus seguidores agora no Instagram:

“Cocielo, fica relaxado cara, estaremos com você”.

“Tô contigo e não abro”.

”Coe mano, se eu fosse tu mandava esse politicamente correto pra casa do caralho, vomo beber”.

”Vc é top! Povo faz mimimi do caramba”.

Essas pessoas que estão apoiando esses tweets do Cocielo são basicamente adolescentes que ainda não entendem nada sobre questões raciais e acham que todas essas reclamações são mimimi. São crianças que entram no Youtube pra dar risada, no Twitter pra ler posts engraçados e acabam apoiando automaticamente tudo que recebem dos seus influenciadores favoritos. Pais, irmãos, tios, recomendo que vocês avaliem melhor o conteúdo que seus filhos consomem na internet, porque são essas referências que estão formando o caráter deles. Esses influenciadores são para as novas gerações o que a Xuxa era pra gente. Marcas, publicitários e agências, pensem duas vezes antes de associar uma multinacional a um influenciador só porque ele tem milhões de seguidores. Quantidade não é qualidade, e os milhões que verão sua ação publicitária também verão sua marca ser destruída ao ser associada a esse tipo de comportamento.

E Cocielo, cara. Eu sei que seu canal é de humor. Mas nem tudo é engraçado. Humor que deprecia minorias não tem mais graça em 2018. É por isso que o “Choque de Cultura” hoje tem relevância e o “Pânico”, não. Pode continuar fazendo seu conteúdo, mas saiba que nem tudo vale a pena por likes e visualizações. Eu espero que você faça um vídeo se retratando pra toda a população negra do Brasil que, diariamente, é perseguida ao entrar em lojas, é evitada nas calçadas à noite e é baleada por engano pela polícia. Toda a população que é afetada por esse tipo de pensamento racista que você propagou, conscientemente ou não.

*Spartakus Santiago é publicitário, youtuber e ativista