Cinegnose

por Wilson Ferreira

26 de março de 2019, 06h00

Ressentimento de excluídos alimenta massacres dos zumbis na nova ordem global

O capitalismo criou um número cada vez mais crescente de excluídos: aposentados, idosos, desempregados, desalentados, biscates, refugiados, inválidos e toda sorte de “excremento social”

Fotos: Reprodução

“Incels” (Celibatários Involuntários), “Hominis Sanctus”, PUA (Pick-up Artists), formas violentas de socialização masculina (macho alpha etc.) e uma variedade de pseudociências e conspirações LGBTs e feministas contra os homens formam um ecossistema de informação de fóruns e chans da Internet e Deep Web que se transformaram em “exército psíquico de reserva” – usina de ressentimento e ódio que alimenta ataques e massacres como em Toronto, Realengo, Suzano e Nova Zelândia. Um exército de zumbis à espera de cripto-comandos, sejam presentes em videogames ou em discursos de extrema direita de um Trump ou de um Bolsonaro. Nova ordem global representada pela ascensão do nacionalismo de direita na qual o capitalismo precisa eliminar ou “reciclar” os excluídos (aqueles que nem para serem explorados servem mais). Os que não forem eliminados pelas políticas de redução populacional tornam-se doadores psíquicos de ressentimento que legitima o Estado policial e militar – aparelho repressivo necessário num cenário de pulverização de garantias e direitos sociais.

Nietzsche foi um curioso das manifestações humanas e se debruçou num dos grandes sofrimentos da alma: o ressentimento. O filósofo alemão entendeu a urgência em estudar um tipo de sentimento relacionado ao sofrimento de alguém que não consegue exteriorizá-lo.

Se Karl Marx destacou a opressão das relações de exploração econômica da luta de classes e a onipresença da ideologia da classe dominante que mascarava a realidade, Nietzsche foi por um outro caminho: buscar a raiz desse sofrimento da alma através da genealogia da moral – como os valores (principalmente religiosos) são criados através da história nas relações entre dominantes e dominados, senhores e escravos, forte e fracos.

Como o silêncio dos dominados, impotentes e covardes para lutar pelos seus sonhos, transforma-se em ressentimento, cuja principal característica é ruminar esta opressão e planejar, por um longo período, uma vingança. Mas principalmente a vingança em um bode expiatório, responsabilizado pelo seu próprio imobilismo.

Nietzsche: o filósofo do ressentimento

Certamente a direita compreendeu melhor essa filosofia do ressentimento do que a própria esquerda – enquanto os movimentos à esquerda tentaram arregimentar as massas com o discurso economicista, a direita sempre empregou a mais atual tecnologia de comunicação de cada momento (do rádio e cinema a dispositivos móveis e redes sociais) para catalisar esse ressentimento e transforma-lo num evento político e social.

Momento de inflexão

Hoje, o modo de produção capitalista vive um momento de inflexão: depois da implacável globalização e financeirização do capitalismo das últimas décadas (marcado pela precarização, desregulamentação do trabalho, salários miseráveis, relações de exploração invisíveis por trás de plataformas tecnológicas e misteriosas transações econômicas na sombra do espaço digital), o capitalismo criou um número cada vez mais crescente de excluídos: aposentados, idosos, desempregados, desalentados, biscates, refugiados, inválidos e toda sorte de “excremento social”, resto que foi expelido do sistema digestor no qual o lucro é privatizado através de complexas transações e lavagens de títulos e papéis em tempo real, enquanto o prejuízo é socializado – principalmente nos crashs, como na explosão da bolsa imobiliária de 2008.

Uma massa de excluídos ressentidos, porque se achavam os filhos preferidos de um futuro que prometia a bem-aventurança: a globalização como uma “estrada para o futuro” (Bill Gates”), na qual a tecnologia prometia a “inteligência coletiva”, o “capital do conhecimento” e outros messianismos. E tudo que foi entregue foi o chamado “capitalismo cognitivo” – treinamento para serviços comerciais e financeiros precarizados pelo uso da tecnologia digital, dentro de organizações flexíveis pós-fordista.

Chegamos a um ponto de Inflexão, porque agora chegou o momento de dar um destino a esse “excremento” (que nem para ser explorado serve mais), sob pena do risco de anomia ou ruptura da ordem política.

Um destino pela eliminação física pura e simples (redução populacional forçada através da promoção de guerras, violência e criminalidade mediante desregulamentação da posse e porte de armas, destruição da seguridade social ou envenenamento por transgênicos e agrotóxicos), ou pela “reciclagem”, tornando os excluídos mais uma vez funcionais ao sistema, só que de uma forma perversa.

Reciclagem do “excremento sócia”

Primeira forma de reciclagem: através da religião ou inúmeras associações de autoajuda (que, no final, são uma coisa só), transformar o ressentimento em sentimento de culpa. Culpar a si próprio pelo fracasso e procurar em Deus, na “Teologia da Prosperidade” neopentecostal ou no “pensamento positivo” da autoajuda a expiação da culpa como o ticket de entrada na terra do sucesso.

Segunda (e mais perversa) forma: direcionar a energia bruta do ressentimento para o acionamento de um exército de zumbis de apoio ao próximo salto do capitalismo globalizado: o populismo nacionalista de direita por trás da turnê de Steve Bannon na Europa, nos laboratórios de teste do Brexit e nas vitórias eleitorais de Trump e Bolsonaro, capazes de dar uma tradução política ao ressentimento dessa massa de excluídos ressentidos com a globalização.

Como Nietzsche apontava, o ressentido silenciosamente rumina a sua vingança. O linchamento virtual em redes sociais a cada voz de comando de Trump e Bolsonaro contra o bode expiatório da vez (liberais, marxistas culturais, Lei Rouanet, STF etc.) é um simples exemplo de atuação desses zumbis, cuja violência promete transbordar do virtual para o real – milícias são o principal esboço disso.

Porém os tiros e massacres de tragédias como em Suzano/SP, o massacre de 49 pessoas em duas mesquitas em Christchurch (Nova Zelândia), sem falar no ataque a uma mesquita na cidade de Quebec matando seis pessoas em 2017, apontam que está em marcha os zumbis de um exército de supremacistas – brancos com perfil sociopata, jovens “losers” sem perspectiva sociocultural , humilhados e ressentidos que reagem num planejamento de vinganças em uma realidade paralela – realidade na qual são vítimas de conspirações feministas, muçulmanos, LGBTs, globalização comandada pelo marxismo cultural etc.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.