10 de setembro de 2018, 17h28

Restaurante da Zélia, na zona sul de São Paulo, muda nome para Lula Livre

Moradora da região há 40 anos, a pequena empreendedora diz que viu o movimento de todos os comércios caírem após o governo Lula. “No tempo dele os restaurantes estavam sempre cheios. O povo tinha dinheiro no bolso e comia bem"

Soraia Lima, para o Sindicato dos Químicos de São Paulo  

O restaurante da Zélia, Arroz com Feijão, mudou o nome para Restaurante Lula Livre. Nele, quem tem paga, mas quem não tem come também. A placa, ainda provisória, chama a atenção de quem passa em frente. O local não é exatamente um reduto petista. O restaurante fica numa movimentada avenida da região do Morumbi, em São Paulo, próximo da futura estação do metrô Vila Sônia, da linha Amarela. O estabelecimento tem perfil popular, mas o bairro ao seu redor é de classe média.

Zélia Eva Amorim, a dona Zélia, como carinhosamente é chamada pelos clientes, assumiu o estabelecimento há aproximadamente sete meses. Ela conta que tinha uma pousada na região, mas acabou falindo. “Entreguei o prédio porque não aguentava mais pagar o aluguel. Meu movimento caiu 90% nos últimos tempos. Tive que recomeçar e encontrei esse restaurante quase falido. O dono estava com tudo atrasado. Negociei com ele e resolvi recomeçar, mas estou aqui na base da força de vontade e da oração, lutando para me manter”, conta.

Moradora da região há 40 anos, a pequena empreendedora diz que viu o movimento de todos os comércios caírem após o governo Lula. “No tempo dele os restaurantes estavam sempre cheios. O povo tinha dinheiro no bolso e comia bem. Hoje eu luto dia a dia para conseguir pagar o aluguel no fim do mês. Há muita gente que não tem o que comer, por isso não nego comida para ninguém”, explica.

Desde que a comerciante colocou a placa informando que quem não tem como pagar pode comer também, o restaurante serve cerca de seis refeições grátis por dia. De acordo com dona Zélia, não existem abusos. “As pessoas que pedem são realmente necessitadas. Outro dia uma moça me chamou de lado, estava com fome e com vergonha de pedir. Caminhou o dia todo em busca de emprego, mas não havia conseguido nada. Eu disse para ela: ‘Não tenha vergonha, sente-se, sirva-se que vou te atender como qualquer outro cliente’”, relatou.

A comerciante lembra também de um senhor distinto que chegou brincando com ela e dizendo que ia comer de graça. Ele se serviu e na saída deixou seis almoços pagos. “As pessoas me respeitam. Só não paga quem realmente não tem”, sentencia.

Em tempos de polarização política e de campanha eleitoral, a reportagem questiona dona Zélia sobre a placa: “A senhora não teme represálias?”. Sorridente, ela responde: “Às vezes tem buzinaço aqui na porta. O pessoal coloca a mão para fora do carro, faz um sinal de joia e grita ‘Lula livre’. Eu acho que as pessoas já estão percebendo que a vida piorou muito”.

Dona Zélia tem orgulho da sua vida de trabalho, mas diz que nunca viveu momentos tão difíceis. “Já tive uma confecção com mais de 20 funcionários, mas na época do Collor quebrei. Recomecei com a pousada, que foi muito bem até o fim do governo Lula. Minha vida é trabalhar e ajudar os outros. Não desisto. Além da refeição grátis, se sobra comida, levo para os moradores de rua”, diz.