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14 de Fevereiro de 2018, 14h33

A revolta dos foliões: uma crítica sem proposta não constitui ameaça

Quando um desfile carnavalesco realiza uma crítica aberta ao governo, a esquerda se emociona e esbanja euforicamente seus elogios. Parece o início de uma luta revolucionária. No entanto, temos que encarar esse tipo de crítica de uma forma ainda mais crítica

Carnaval Rio 2018 - Desfile na Sapucaí - Paraíso do Tuiuti - Grupo Especial - Gabriel Nascimento | Riotur

Não é difícil de compreender que o ataque incisivo à esquerda nos últimos anos tenha o objetivo de deslegitimar a crítica proveniente da visão marxista. A crítica deve vir fraca, sem radicalismo, parecer apenas ideológica. Enfim, armou-se um circo (dos horrores) perfeito para impedir o radicalismo político, “realmente revolucionário”, no período em que as estruturas da sociedade burguesa se encontram frágeis, claudicantes.

Quando um desfile carnavalesco realiza uma crítica aberta ao governo, a esquerda se emociona e esbanja euforicamente seus elogios. Parece o início de uma luta revolucionária. No entanto, temos que encarar esse tipo de crítica de uma forma ainda mais crítica. Discordando do historiador Edward Thompson, que acredita na formação da consciência de classe através da vivência dos trabalhadores, das trocas simbólicas entre eles, prefiro pensar com Eric Hobsbawm, outro historiador marxista inglês, que defende a ideia de que a consciência de classe surge por meio da teoria revolucionária. A contestação pura, embora de valor inegável, não impulsiona a engrenagem da história.

Acredito que a festa é o “momento de verdade em que um grupo […] filtra metaforicamente todas as suas tensões”. No início do século XX, por exemplo, foliões cariocas “utilizaram-se do deboche, da paródia, da inversão, para tornarem explícita sua consciência da relatividade das verdades e das autoridades no poder”, nos explica Rachel Soihet.1 Mas a crítica no momento de crise não pode ser apenas uma paixão que desperta identificação. “Na luta contra este estado de coisas”, escreve Karl Marx, “a crítica não é paixão da cabeça, mas cabeça da paixão”. Estamos em um momento em que “a crítica já não necessita de imediato esclarecimento do seu objeto, porque já o entendeu”.2 Todos sabem o alvo, o inimigo, mas falta algo fundamental: a teoria revolucionária.

Lênin dizia que “sem uma teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário”.3 Por isso, a esquerda deve pensar para além da contestação, e trazer à tona a teoria marxista, única capaz de provocar um distúrbio definitivo na estrutura do sistema capitalista. A crítica da escola de samba do Rio de Janeiro, Paraíso do Tuiuti, foi fascinante. Tocou na luta de classes, levantou a questão do trabalho, falou dos empresários e da mídia que controlaram as manifestações que tiraram a presidenta eleita do poder, e no fim, no topo de um carro alegórico, vestiu um homem de vampiro, chamando-o de “vampiro neoliberalista”. Foi um discurso político claro em meio à folia que, por sua vez, certamente entrará para a história ao lado de tantos outros que abordaram o mesmo tema.

Mas está faltando a teoria capaz de unir todos em direção a um destino seguro após a destruição do inimigo. O golpe foi o maior exemplo disso. Sem uma teoria, as massas se lançaram em um aprofundamento da crise. Perry Anderson lembra que Gramsci dizia que “o movimento operário nunca poderia conseguir vitórias duradouras a menos que alcançasse uma ascendência no plano das ideias – o que chamou de uma hegemonia cultural – sobre a sociedade em seu conjunto, incluindo seus inimigos”.4 O mesmo historiador deixa claro que a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos não seriam nada se não fosse a cultura crítica do iluminismo, isto é, se não fosse as ideias filosóficas que as impulsionaram.

As classes dominantes sabem que o momento é delicado, mas deixam a crítica sobressair, deixam ela circular na internet, porque ainda não atingiram um nível capaz de atormentar o status quo. A ilusão de liberdade de expressão permite as falas que não são radicais e cala a formação de uma cultura crítica capaz de desvendar os mistérios da exploração. E, mais que isso, não existe um combate à crítica, mas às propostas de mudança, às alternativas estruturais. A crítica sem nada propor, sem uma ideia filosófica, não se constitui em ameaça. O sistema deixa a crítica soar contra ele mesmo, mas combaterá até o último suspiro àquele que propor um outro sistema, que, consequentemente, exigirá a aniquilação dos que controlam o estado atual das coisas.

O socialismo é a única alternativa viável ao capitalismo. Por isso ele deve ser execrado. Assim como fazem os governos socialistas em relação ao capitalismo. Cuba, por exemplo, recebe críticas fervorosas dos seus cidadãos. Quem nunca leu um livro de Leonardo Padura? O autor recebeu vários prêmios do próprio governo cubano. Contudo, ele não propõe o capitalismo como alternativa… É exatamente o que acontece com muitos atores brasileiros e americanos que se dizem de esquerda.

O socialismo é a melhor opção para quando a barbárie chegar. Quando o ódio e a revolta consumir as massas será preciso um pensamento claro e estruturado para conduzir a humanidade ao apogeu. No entanto, o socialismo não pode ser uma ideia que se esconde na penumbra da crítica. Ele precisa vir ao sol e revelar que sua teoria é a única alternativa capaz de orientar a prática revolucionária.

1 SOIHET, Rachel Festa da Penha: resistência e interpenetração cultural (1890-1920). CUNHA, Maria C. P. (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Campinas: EdUnicamp. 2002. p. 366.

2 MARX, K. Manuscritos econômicos-filosoficos. São Paulo: Martin Claret, 2005. P. 48.

3 Apud ANDERSON, Perry. As idéias e a ação política na mudança histórica. BORON, Atilio; AMADEO, Javier; GONZÁLEZ, Sabrina (orgs.). A teoria marxista hoje: problemas e perspectivas. Trad. Simone R. da Silva e Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. P. 366.

4 Id.