09 de julho de 2018, 19h46

Rodrigo Abel: Somos todos um pouco Crivella

"O comportamento do prefeito Marcelo Crivella, ao oferecer para sua clientela um conjunto de benesses, é a genuína expressão de uma cultura que está presente em nosso meio e que reproduzimos em nosso dia a dia com enorme naturalidade"

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Por Rodrigo Abel*

Se você se incomodou com o título desse artigo, então comece a mudar seu comportamento hoje. Sabe por quê?

Porque o comportamento do prefeito Marcelo Crivella, que ao propor a sua clientela um conjunto de benesses, as quais a grande maioria da sociedade não teria acesso “preferencial” se não fosse evangélico e amigo de um dos 250 pastores presentes ao Palácio da Cidade na semana passada, revela algo que a mim, ao menos, não me surpreende em nada, pois é a genuína expressão de uma cultura que está presente em nosso meio e que reproduzimos em nosso dia a dia com enorme naturalidade.

Infelizmente, por exemplo, nos acostumamos a andar pelas ruas do Rio de Janeiro tomadas por mesas e cadeiras de bares, que alheios as crianças, gestantes ou idosos, invadem as calcadas nos obrigando a verdadeiros contorcionismos. Achamos por vezes engraçado aquelas cenas de empurra empurra e correria na busca por um assento no metro, chegando ao cúmulo da incivilidade de possuirmos vagões dedicados às mulheres – assédio e machismo que mata! Pobre daquele pediatra que não fornece seu celular para que possamos contatá-lo a hora e o momento que quisermos. Colocamos música alta a qualquer hora e lugar, como se todos estivessem a fim de curtir o momento que é somente nosso.

E sobre a famosa fila? Essa a gente odeia com toda força! Aqui a gente fica indignado com a fila de espera para subir o Cristo Redentor – em Florença se leva em média 3 horas de espera para entrar na Galeria Ufizzi. Fila para vagas em escolas, cirurgias ou emprego, parece que existem somente para tentarmos furá-las. É a tal maratona atrás de quem pode me ajudar. Ao fim, tudo isso produz uma sociedade cada vez mais anti democrática, onde o “eu” domina o mundo, enquanto o “nós” é cada vez mais uma simples preposição sem valor simbólico algum.

Espero, sinceramente, que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, seja rigorosamente punido, afinal de contas precisamos de bons exemplos dos de “cima”. Mas ao fim, de pouco adiantará puni-lo sem que façamos uma profunda reflexão dos nossos comportamentos diários, pois são das nossas ações que surgem e se proliferam tantos outros Crivella’s por aí.

*Rodrigo Abel é doutorando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa