Rodrigo Vianna

Escrevinhador

Por Rodrigo Vianna

21 de setembro de 2018, 22h02

Cenários na reta final: Haddad, Bolsonaro e as operações para criar a “terceira via”

Ciro ainda está no jogo. Mas se o quadro PT x Bolsonaro se consolidar, teremos um segundo turno duríssimo. O Rio, dessa vez, deve se inclinar para o antipetismo, votando majoritariamente em Bolsonaro. Para vencer no segundo turno, Haddad vai precisar ganhar em Minas, ter uma votação no Nordeste superior à de Dilma em 2014, e "perder de pouco" em São Paulo (60% Bolsonaro x 40% Haddad já seria lucro para o petista).

por Rodrigo Vianna

A duas semanas da eleição, parece muito próxima de se cumprir a previsão que fizemos aqui, em agosto (quando Haddad tinha menos de 5% das intenções de voto e Bolsonaro ainda não havia furado o teto dos 20%): o segundo turno se dará entre os candidatos do PT e do PSL – quem tiver interesse, pode clicar aqui para entender melhor porque prevíamos que essa seria uma eleição sob o signo do “anti-sistema”.

Alckmin e os tucanos revelam desespero, e estão quase fora do jogo, mas podem cumprir o papel de desgastar um pouco Bolsonaro antes do segundo turno.

Ciro Gomes mostra uma resistência impressionante, ao manter-se na briga, mesmo sem contar com estrutura nem tempo na TV. Foi por isso que escrevi há alguns dias nas redes sociais que é preciso respeitar a candidatura de Ciro.  

Marina derreteu, e joga para cumprir tabela apenas. Não me espantaria se ela, na reta final, declarasse apoio a Ciro Gomes ou ao candidato do PSDB, se perceber que essa é a melhor forma de impedir o segundo turno entre o fascismo e o PT.

Mas qual o jogo do mercado (bancos), da mídia (Globo, principalmente) e do candidato deles (Alckmin/PSDB), nessa reta final do primeiro turno? Parecem operar com três variáveis:

  • desgastar Bolsonaro, expondo as maluquices do economista Paulo Guedes;
  • criar um clima que impeça a consolidação definitiva do cenário PT x Bolsonaro;
  • disseminar o “medo” do que o confronto PT x Bolsonaro poderia significar.

Alckmin tem muito tempo de TV, e vai usar a reta final para essa operação de desgaste de Bolsonaro. Nos últimos dois dias, surgiram sinais consistentes – também – de que parte dessa estratégia significa inflar Ciro Gomes. Com 12% a 15% dos votos, ele impediria Haddad de avançar ainda mais nas pesquisas.

Por outro lado, enganam-se aqueles que, na esquerda, preveem uma transferência total e abrupta dos votos lulistas para Haddad. Sim, pode ser que os institutos estejam operando na margem de erro. Mas é evidente – nos setores médios, e também entre a massa trabalhadora dos grandes centros – que existem milhões de eleitores ainda em dúvida sobre a melhor alternativa para enfrentar o candidato fascista no segundo turno: Haddad ou Ciro?

Essa dúvida não foi “inventada” pela Globo. É mérito de Ciro – que faz o debate de forma clara há mais de 1 ano. Ocupou espaços, apresentou propostas e tem um programa claro nacionalista e de centro esquerda. Ciro chama o golpe de golpe, chama Bolsonaro de fascista, compra briga com o mercado, diz que vai taxar bancos e cancelar a reforma trabalhista, bem como impedir a entrega da Embraer e do Pré-Sal.

Os institutos de pesquisa tampouco “inventaram” o fato de Ciro ter uma rejeição menor – o que teoricamente faz com que seja visto como alternativa mais segura para bater Bolsonaro num segundo turno.

A Globo, claro, está oportunisticamente utilizando a resistência de Ciro como um fator anti-Haddad. E Ciro tem jogado com essa variável.

Muita gente séria, à esquerda e à direita, trabalha com o seguinte cenário daqui até o dia 7:

  • Bolsonaro cai, sob o ataque cerrado de Alckmin; tucanos rezam para que seja uma queda abrupta o suficiente para colocar o PSDB de volta no páreo; este blogueiro acha que o mais provável é que Bolsonaro caia um pouco, mas se consolide com cerca de 25%;
  • Haddad sobe mais, e chega perto da eleição com algo entre 20% e 25%;
  • Ciro se mantem no páreo, e pode até crescer um pouco (se for reconhecido como “terceira via”), mas dificilmente terá força para furar o teto de 15% (se virar o candidato da Globo e do mercado, perde parte de seu eleitorado à esquerda);
  • Alckmin vai disputar com Ciro a prerrogativa de ser a “alternativa” à polarização; se a improvável operação der certo, promoveria uma virada espetacular na qual nem os tucanos acreditam; tende a terminar a eleição com cerca de 10%;
  • Marina definhou, mas pode influir decisivamente na reta final, se declarar voto em Ciro ou Alckmin, alterando assim o quadro acima descrito;
  • Amoedo, Alvaro Dias e Meireles podem ter os votos drenados para Alckmin ou Bolsonaro – a depender do que aconteça nos próximos dias;
  • Boulos joga para o futuro, e cumpre o papel digno de defender princípios claros nos debates.

As duas semanas finais podem nos reservar também surpresas em duas frentes:

  • operações midiáticas de última hora contra o PT;
  • modificações no quadro de saúde de Bolsonaro.

 

SEGUNDO TURNO

Se o quadro PT x Bolsonaro se consolidar, teremos um segundo turno duríssimo.

O Brasil tem um eleitorado regionalmente consolidado, nos seguintes termos: a votação lulista no Nordeste é de tal monta que compensa a derrota que o antipetismo costuma impor ao candidato de Lula no Sul e em São Paulo. Isos deve se repetir em 2018.

Da mesma forma, o Norte tende a ser mais favorável ao lulismo, compensando a votação antipetista no Centro-Oeste.

Onde se decide a eleição? Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro: os dois estados são, no Brasil, o que os norte-americanos chamam de “swing states” – podem flutuar à esquerda e à direita, definindo a eleição.

Nos últimos pleitos, Rio e Minas penderam para o lado do lulismo. Dessa vez, o quadro é mais acirrado. O Rio deve votar em Bolsonaro. Ele já tem – a essa altura do primeiero turno – 38% dos votos fluminenses; Haddad e Ciro somados chegam a 25%. A tendência é que o Rio (pela crise na segurança e o desmonte econômico) se incline para a direita.  Bolsonaro, portanto, acrescentaria mais um território ao mapa antipetista.

Minas, por sua vez, tende a dar uma vitória (ainda que por margem estreita) ao candidato do PT. Em Minas, a votação somada de Haddad e Ciro, a essa altura do primeiro turno, equivale à votação de Bolsonaro. Os votos para Marina e Alckmin tendem a se inclinar (levemente) para o candidato do PT no segundo turno

Para vencer no segundo turno, Haddad vai precisar ganhar em Minas, ter uma votação no Nordeste superior à de Dilma em 2014, e “perder de pouco” em São Paulo (60% Bolsonaro x 40% Haddad já seria lucro para o petista).

Será um quadro muito acirrado, que dependerá muito também dos cenários de segundo turno em cada estado. Uma eleição provavelmente tão (ou mais!) disputada que a de 2014, quando Dilma venceu por 3 milhões de votos.

Com Ciro no segundo turno, a situação seria diferente – e uma vitória do pedetista viria com menos susto. Os números indicam isso. E a lógica do antipetismo também.

A favor de Haddad, no entanto, há a imagem moderada e a militância petista – que pode garantir a vitória na reta final.

 

 


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