Rodrigo Vianna

Escrevinhador

Por Rodrigo Vianna

10 de agosto de 2018, 18h43

O eleitor avalia: Alckmin e Meireles foram os piores; Ciro e Marina ganharam primeiro debate

A pedido de uma consultoria, telespectadores deram notas aos candidatos, durante o confronto no estúdio da Band. O resultado é preocupante para os dois candidatos mais próximos do mercado. Henrique Meirelles parece um caso perdido: mal consegue se comunicar. Alckmin não se saiu mal nesse quesito. Mas também carrega a marca de ser um dos candidatos que ajudaram a patrocinar a desastrosa politica liberal de Temer. Boulos resumiu bem a situação, ao dizer que ali no estúdio havia "50 tons de Temer". O tucano terá muita dificuldade para sair dessa sinuca.

por Rodrigo Vianna

A pesquisa com os eleitores foi feita “a quente”. Iniciada ainda durante o debate da Band, e concluída na madrugada de quinta para sexta, foi encomendada por um dos principais candidatos a presidente no campo da centro-direita. O resultado é desastroso para Geraldo Alckmin (PSDB) e Henrique Meireles (MDB). Isso talvez explique porque a Bolsa abriu em baixa nesta sexta-feira, como se pode ler aqui . Pode explicar também porque os números não circularam na velha imprensa, que apóia o PSDB.

A consultoria que fez o levantamento pediu que os eleitores dessem notas ao desempenho de cada candidato. O blog teve acesso exclusivo aos números. Os resultados estão abaixo:

Álvaro Dias (Podemos) – 5,75
Ciro Gomes (PDT) – 8,25
Cabo Daciolo (Patriota) – 6,8
Geraldo Alckmin (PSDB) – 3,4
Guilherme Boulos (PSOL) – 6,0
Henrique Meirelles (MDB) – 2,7
Jair Bolsonaro (PSL) –  5,05
Marina Silva (Rede) – 8,35

O resultado é preocupante para os dois candidatos mais próximos do mercado. Henrique Meirelles parece um caso perdido. Não só por carregar  a marca de Temer na testa, mas porque parece incapaz de dialogar com o eleitor. Alckmin manteve-se calmo, correto, sem empolgar ninguém. Mas tentando passar a imagem de moderação que é a sua marca. O problema é que parece impossível dissociar o tucano dos desastrosos resultados de Temer na economia.

Bolsonaro, pelos números acima, saiu do debate sem motivos para comemorar, mas sem nenhum ferimento grave. Líder das pesquisas, era esperado que apanhasse mais. Só Boulos o confrontou abertamente.

Aliás, Boulos e Daciolo tiveram avaliações em torno de 6,0 – o que já é uma vitória. Os dois entraram no mapa e no radar dos eleitores. O Cabo das tormentas, levemente alterado e viciado em Jesus Cristo, pode oferecer algum risco a Bolsonaro, se for capaz de lhe tirar nacos de votos, transformando-se numa mistura de Eneas e cacareco.

Álvaro Dias parece dialogar com apenas uma fatia do público: a classe media lava-jatista do sul do país. Isso é pouco, mas ele deve dar  trabalho a Alckmin, bloqueando o crescimento do tucano.

Marina e Ciro foram os mais bem avaliados.

A candidata da Rede pode ter irritado alguns telespectadores, pela fala monocórdica de sempre. Mas o eleitor médio parece enxergar nela certa seriedade. Marina, diga-se, foi cautelosa ao falar do aborto (não assumiu o discurso dos movimentos de mulheres, mas também não bateu de frente com a ideia de aprovar uma lei mais liberal para o aborto; remeteu o tema para uma consulta popular). Alckmin tentou tabelar com ela mais de uma vez, e recebeu de volta algumas caneladas. Marina parece ter escolhido como alvo o eleitor moderado de centro-direita: é , portanto, mais uma que vai dar trabalho aos tucanos no primeiro turno.

Ciro, da mesma forma, pareceu cordato demais com Bolsonaro e Alckmin. A turma de esquerda não gostou. mas era um movimento calculado para diminuir a imagem de encrenqueiro e estourado. Fora isso, deu sorte por ter sido o alvo da pergunta (lunática) do Cabo Daciolo sobre a URSAL e o perigo do comunismo. O pedetista riu, levou na gozação… E, na hora das propostas, foi o único a trazer uma novidade: a promessa de refinanciar as dívidas das pessoas que estão com nome sujo no SPC.

Muita gente criticou a proposta, mas a este blogueiro parece algo muito interessante – na linha das estratégias lulistas de ampliar o mercado consumidor brasileiro e colocar os pobres de volta na economia. É uma espécie de Refis para o povão. Pode dar certo, sim. E está fora dos cânones liberais.

Lula, aliás, foi uma ausência gigantesca. Nunca antes na história desse país um ausente esteve tão presente num, debate. Foi indiretamente lembrado em vários momentos. Ciro citou a Transposição do São Francisco. Marina recordou quando foi ministra (os dois estiveram ao lado de Lula). O Bolsa-Família – marca maior do lulismo – foi elogiado pelos liberais Alckmin e Meirelles. Este último, aliás, lembrou ao tucano que muita gente ligada ao PSDB costumava chamar o programa de “bolsa-esmola”: foi o único momento interessante do banqueiro no debate, indicando mais uma pedra no caminho de Alckmin – ele é de um partido que carrega a fama de não gostar muito de programas sociais para o povão.

O único a citar abertamente Lula foi Boulos. A nota 6,0 parece indicar que o eleitor prestou atenção nele, mas talvez tenha estranhado a postura um tanto agressiva, num país em que a marca ainda é a aparência de cordialidade. Mas Boulos encontrou o caminho para construir um projeto que tem futuro. Cabo Daciolo também encontrou um caminho: para fazer humor involuntário.

E Viva a URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) – o grande fantasma a apavorar o Cabo das (nossas) tormentas.


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