Vargas ou Lula: os caminhos de cada um

googletag.cmd.push(function() { googletag.display('div-gpt-ad-1495221259906-0'); }); por Douglas F. Barros A comparação entre Lula e Getúlio Vargas não é boa; é como comparar Grécia e Roma, para saber quem...

por Douglas F. Barros

A comparação entre Lula e Getúlio Vargas não é boa; é como comparar Grécia e Roma, para saber quem foi mais importante.

Mas de toda forma, há uma enorme diferença: Lula fez a Democracia se mover (atores, classes, movimentos, partidos, mídia…) por dentro do sistema. Lula fez a aposta de sua carreira política pela e na democracia porque, não sendo das elites (militar, judicial, agrária, burguesa etc), ou ele alteraria os vetores de mudança social por dentro do sistema ou seria ejetado facilmente como criminoso, bandido, cachaceiro etc.

Por isso todas as decisões dele foram no sentido de trabalhar com as instituições, mesmo quando elas lhe são/foram desfavoráveis. Ele sabe que, se movê-las, move ao mesmo tempo os sistemas que travam mudanças sociais no país e as oportunidades lhe são abertas. Por isso, ele topou a batalha nas instituições e forçando os limites dessas mesmas.

Veja só, Lula é tão cioso disso que jamais teria feito o que FHC fez pela reeleição. Porque sabe que, se tivesse se movido para fazê-lo nos mesmos moldes que FHC, teria sido expulso do jogo político horas depois.

Isso irrita quem deseja a mudança a passos largos. Mas, se a gente observar o discurso dele no sábado, no Sindicato em São Bernardo do Campo, mais de 15 dos 60 minutos foram dedicados às instituições – Judiciário incluído. Ele não pôde e não quis almejar golpes, como Getúlio, nem quis perseguir os adversários (caso Banestado, falência da Globo), nem muito menos encarcerar a direita inimiga, e por aí vai.

Esse modo de proceder conciliatório irritou muitos –  à esquerda e à direita. Porque inúmeras armadilhas lhe foram lançadas, fosse para lhe vestir a carapuça de traidor da esquerda, fosse para lhe vestir a de marginal e criminoso em face do sistema vigente, e essas nunca  lhe couberam bem. Ele sempre seguiu no limite das instituições. Por isso, não seria agora que tentaram lhe vestir “a mais bem arranjada” das carapuças costuradas pela UDN de sempre, a de corrupto condenado em todas as instâncias – lembre-se da chamada da GNEWS domingo o dia inteiro: primeiro presidente preso por corrupção e lavagem de dinheiro-, que ele iria aceitá-la assim, facilmente.

Se ele tivesse se exilado numa embaixada qualquer, não seria o novo Jango. Como qualquer pobre e preto que corre da polícia com medo de porrete, seria tratado como fugitivo, covarde e …bandido condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Lula fez o que faz sempre: respeitar as instituições e tensioná-las, forçar os seus limites por dentro. Lula não é e jamais será revolucionário, nem mesmo um Getúlio. Em conversa com professora muito próxima minha, antes de ser preso, ele disse que a saída é sempre tensionar na Democracia porque ou fazemos assim, no Brasil, ou não saímos da escravidão.

Ele sabe que fora da Democracia e de suas instituições – por pior que elas sejam – ele estaria fora do jogo assim como é mais fácil, é “natural”, enjaular preto, pobre e nordestino e coisa e tal. Não sabemos para onde essa mexida no jogo nos conduzirá, mas Lula conseguiu marcar gol e vibrar mesmo com o mando de campo da UDN. Ele mexeu no tabuleiro e a pressão agora está na situação (com medo de ser presa) e com o Judiciário (tendo que mostrar “serviço” para com os corruptos). É pouco? Sim. Pode dar em nada? Sim. É uma aposta. Mas, uma aposta dentro do jogo que pode abrir horizontes de oportunidades.

Lula, enfim, mexeu com brios e opiniões valendo-se apenas de imagens, gestos, afagos, suor e lágrimas, muitas lágrimas. Fez política como não víamos havia vários anos. Talvez poucas vezes vejamos/tenhamos visto algo tão intenso como aquele sábado. Mas ele fez política de um modo que paralisou o país (coxinhas em êxtase) e deixou a mídia, que se preparou anos para aquele momento, em silêncio, atônita, sem palavras. A esta só lhe restou xingar: vejam-se Nêumanes, Cantanhedes, Vilas e tantos outros.

Lula deu aula, novamente. Com Lula preso, quem dará atenção a qualquer outro assunto? Eleições? Melhora na economia? O tema agora é: quem do lado de lá vai preso? E se ninguém for preso? O vetor do momento é Lula e por muito tempo será ele.

Minha aposta desde sempre é que não teremos eleições se o clima virar contra a oposição e Lula continuar a dar o tom geral. A direita terá que dizer com todas as letras: foi golpe mesmo e estamos no poder às custas de porretes e …leis. Se houver eleições, sem Lula no páreo, o risco Bolsonaro é altíssimo e o mercado detesta riscos políticos, a não ser que fique com a chave do cofre. Então, quem esperava a poeira baixar após domingo, se enganou.

Daqui para frente, essa história da mídia de “fim do PT”, ou “e agora PT?”, e ainda “vamos cuidar da normalidade” são apenas sintomas do desejo das elites que querem empurrar o candidato do “centro democrático” para aurna. Minha aposta: não vai colar e a tensão vai aumentar, como Lula deseja.

Assim, estamos em momento de suspensão, com os consensos se formando em torno da ideia de que a prisão de Lula é sim uma fase do golpe. Se, mesmo preso, Lula continuar a falar tão alto com o povão, a UDN agirá de que modo? Contra quem? A pressão só aumenta e Lula foi quem botou lenha no fogo, sem detonar as instituições. Como sempre, dentro das regras, nos limites da democracia. Isso irrita, mas é o jogo dele. Quem quiser algo mais pirotécnico que busque outro, que faça a revolução. Ele não fará.

* Douglas F. Barros é professor de Filosofia Política na PUC-Campinas

(o texto foi escrito a partir de uma provocação deste blogueiro, que lançou a pergunta a um grupo de argutos observadores da cena política: Lula seria um personagem maior ou menor que Getúlio Vargas?)