Rodrigo Vianna

Escrevinhador

Por Rodrigo Vianna

30 de maio de 2018, 16h30

Parente é o coração do golpe; Temer pouco importa: a saída virá das ruas

Está claro que o Petróleo mais uma vez é o centro da disputa - como foi em 1954 com Vargas. Pedro Parente é um representante estrangeiro à frente da Petrobrás. Ele é mais forte que Temer, é ele que precisa cair.

por Rodrigo Vianna

A greve dos caminhoneiros, de forma inesperada, revelou ao Brasil que o coração do governo golpista não é formado por Temer e seu bando. O coração do golpe é Pedro Parente.

A greve dos petroleiros vai ainda mais fundo e, agora de forma intencional, aponta para a ferida aberta no país… Não há escolha: ou há um país independente e um novo projeto de Nação, ou há Pedro Parente na Petrobras.

O que é espantoso: ameaçado de cair, pressionado, sob risco de ir pra cadeia, Temer emite uma nota reafirmando a permanência de Parente à frente da petroleira. Mais que isso, reafirma a política suicida de preços adotada pelo tucano – toda ela baseada em preços internacionais, e na prática de subutilizar as refinarias brasileiras, obrigando assim um país auto-sustentável a importar derivados de petróleo.

A nota – que você pode ler aqui – significa isso: Parente tem mais poder que Temer. Se entregar Parente, Temer entrega o coração do golpe – que significou a recolocação do Brasil na órbita dos Estados Unidos, via entrega da Petrobrás e do Pré-Sal.

Temer só teria uma chance de sobrevida: abandonar o PSDB, e acertar algum pacto com as outras forças políticas, que signifique permanecer no Palácio até as eleições – não mais como fiador do governo entreguista, mas na condição de garantidor do pleito. Em troca disso, poderia ser negociada alguma garantia/anistia a Temer para que ele não vá para a cadeia em 2019.

Considero essa hipótese remota. Por isso, o mais provável é que as greves se espalhem pelo país, e que caminhemos para um impasse que levará a uma de três saídas:

– aprofundamento do golpe, com recrudescimento da repressão e fim de qualquer máscara de legalidade (direita extremada vence);

ou

– saída negociada que afaste Temer, suspenda eleições até 2020 (via PEC no Congresso), e emposse Maia numa tentativa de recuperar a economia e construir uma candidatura do centro liberal,  ao longo de dois anos; isso poderia se dar também via parlamentarismo, esvaziando o significado das urnas (centro-direita ganha hegemonia);

ou

– greves e movimentos nas ruas forçam uma negociação no Congresso, levando à antecipação das eleições, com a possibilidade de Lula se inscrever e concorrer (centro-esquerda reconstrói a hegemonia).

O país entra portanto numa quadra de ainda mais instabilidade. A saída número três é a unica que poderia significar alguma estabilidade democrática.

A crise do petróleo expõe a fratura do país: ou voltamos a ser colônia, ou reafirmamos um novo pacto de Nação. As instituições foram destruídas pelo golpe de 2016 e uma reforma só poderá vir de fora para dentro, das ruas para as instituições – desaguando num novo processo Constituinte.

Está claro que o Petróleo mais uma vez é o centro da disputa – como foi em 1954 com Vargas. O golpe de 2016 (já dizia Snowden) tem o Pre-Sal e a Petrobras como elementos centrais.

O golpe não foi contra a corrupção, evidentemente, mas contra a política independente que a posse de reservas multibilionárias (anunciadas na era Lula) permitiriam ao Brasil – colocando o país numa articulação mundial que tem Rússia e China no contraponto ao pode imperial dos Estados Unidos.

O golpe veio de fora! Dilma e a Petrobras foram as maiores vítimas da espionagem e da desestabilização praticadas pela NSA, agência dos EUA – disse Snowden, o homem que explodiu os esquemas de espionagem e teve que fugir para a Rússia.

Sim, o golpe veio de fora e encontrou mansos parceiros na rebelião dos patos amarelos. Quem dizia isso em 2015 (quando Chequer e o Vem pra Rua, entre outros, mostravam suas conexões com irmãos Koch) era chamado de “adepto de teorias conspiratórias”. Snowden depois confirmou que não.

Samuel Pinheiro Guimarães disse o mesmo esses dias:  Pedro Parente é um representante estrangeiro à frente da Petrobrás. É fato.

Não é à toa que o golpismo esteja agarrado a Parente. Por isso se deu o golpe. E ele só morrerá se matarmos antes a política de Parente.

Por isso, a palavra de ordem dos democratas nas redes, nos próximos dias, pode ser #ParenteVaiPetrobrasFica.

Ou como dizia Vargas na carta testamento de 1954:

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre,não querem que o povo seja independente. 

 


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