Rodrigo Vianna

Escrevinhador

Rodrigo Vianna

18 de fevereiro de 2018, 14h52

Censura no samba faz avançar o AI-5 a conta gotas: Palácio pressiona, e Tuiuti desfila sem a faixa do vampiro

Temer sem a faixa é o golpismo nu, no meio da praça

A informação foi confirmada em reportagem do jornal O Globo neste domingo: o componente da escola Paraíso do Tuiuti que transformou-se no símbolo do Carnaval no Rio, vestindo-se de vampiro Temer na passarela do samba, foi agora pressionado a não usar a faixa presidencial durante o desfile das campeãs (sim, da mesma forma que ocorria na ditadura militar, pelas frestas dos interesses patronais os jornalistas mais sérios conseguem furar o bloqueio e informar, a não ser quando se chega a um quadro de censura prévia na imprensa).

A pressão contra a Tuiuti veio de Brasília, dois dias depois de Temer decretar intervenção militar no Rio. Imagine-se um governo sem escrúpulos de usar Receita Federal, Polícia Federal e Exército contra qualquer um. E pode-se prever a reação que levou a direção da escola a recolher a faixa.

Trata-se de censura, imposta pelo medo. O golpe assim tira a máscara. E apresenta-se em sua plenitude vampiresca.

Fico a imaginar os técnicos da CIA e da NSA explicando ao general Etchegoyen, chefe da Casa Militar de Temer:

– Dear general, o golpe que bolamos é sutil, institucional, feito pelo Judiciário e pela mídia; assim vocês estão esculhanbamdo nosso projeto.

E o general:

– Desculpem, amigos da CIA/NSA, mas não pudemos evitar; é a nossa natureza.

A natureza da elite golpista brasileira não é a sutileza. Mas a arrogância, o autoritarismo, a violência e a censura.

Em 1964, as Organizações Globo saudaram o golpe com o editorial infame: “Ressurge a Democracia”. Mas não adiantou disfarçar. Os militares davam ares ditatoriais ao golpe. Era um golpe mais duro, mais claro.

Em 2016, a sutileza dos novos tempos da CIA/NSA tentou-se impor – num misto de primavera árabe e udenismo judicial. Mas a natureza de Temer, dos bancos e dos milicos de Etchegoyen é a censura e a porrada.

O Carnaval das Campeãs foi censurado. Essa é uma verdade cristalina. E os mervais e seus seguidores em miniatura diziam que o risco para o Brasil era um regime bolivariano do PT. Sei…

Ao mesmo tempo tenta-se criar a impressão de que só a ordem imposta na base de tiro e porrada importa aos brasileiros. Essa é a nova agenda do golpe – que foi derrotado no campo econômico e social.

Um amigo que analisa pesquisas lembrou-me hoje que todos levantamentos sérios apontam: emprego, corrupção e saúde são as preocupações centrais dos brasileiros. A violência e a criminalidade assustam, sim. Mas não são centrais.

Acontece que o golpe soft de 2016 (com toga, mídia e CIA) não pode dar respostas para esses 3 pontos: emprego, saúde e corrupção. É um golpe corrupto, que destruiu o mercado de trabalho. Então, resta a ordem. A operação de Temer no Rio visa virar a agenda nacional, com ajuda da Globo – usando a farda e a imagem militar.

Temer, PSDB, Globo e os bancos iniciaram uma fuga desesperada para a pauta da ordem. É o que resta a eles. Agora, os limites e as aparências se quebram. O AI-5 a conta gotas se impõe.

Falta a Temer no entanto legitimidade para ser o condutor desse cavalo de pau. Por isso, o desespero tende a crescer. E erros serão cometidos em profusão.

Golpistas em desespero são capazes de afundar um país: não esqueçamos os
que os milicos argentinos fizeram nas Malvinas para tentar salvar uma ditadura em desespero. Guerra, mortes. Vale tudo.

Militares na rua, ordem… E se precisar teremos um inimigo externo a combater: a Venezuela bolivariana.

O #vampiroTemer que censura a faixa na passarela do samba é um homem em desespero. O golpe passa da fase soft-judicial para a fase hard-militarizada.

Os dias serão mais duros. Mas sem a máscara será mais fácil trazer mais gente para o combate, especialmente os jovens, pra virar o jogo e enfrentar o Golpe.

O vampiro sem a faixa é um vampiro nu. Um vampiro em desespero que se recusa a morrer.
(Fim)