Rodrigo Vianna

Escrevinhador

Por Rodrigo Vianna

29 de abril de 2009, 10h57

Brizola enfrentou “ratão” da imprensa na TV Cultura

(texto originalmente publicado em 15 de dezembro de 2008, quando este blog ainda era um “quase-blog”) Vocês vão dizer que existe gosto pra tudo, mas o fato é que nos anos 80 eu parava pra ver qualquer entrevista ou comício do velho Brizola. Se ficava sabendo que ele falaria na TV, preparava-me para estar em casa […]

(texto originalmente publicado em 15 de dezembro de 2008, quando este blog ainda era um “quase-blog”)

Vocês vão dizer que existe gosto pra tudo, mas o fato é que nos anos 80 eu parava pra ver qualquer entrevista ou comício do velho Brizola. Se ficava sabendo que ele falaria na TV, preparava-me para estar em casa e acompanhar tudo. Se ele marcava comício em São Paulo (eram raros, porque o PDT era fraquinho na capital paulista), lá ia eu (acompanhado por dois ou três amigos malucos como eu), pra ver o engenheiro falar.

Cheguei a a gravar algumas das entrevistas de Brizola na TV. Na época, quase pré-histórica, eu gravava tudo em fitas VHS, que ficavam lá atravancando a estante de minha mãe na sala de visitas. Mal sabia eu que no futuro estaria tudo disponível no youtube… Mas, isso não vem ao caso.

O Brizola era um gênio, um, democrata, um estadista. E um grande entrevistado.
Uma dessas entrevistas inesquecíveis de Brizola foi no Roda-Viva da TV Cultura, em 1987. Tenho a fita VHS até hoje.

Na época, havia no “Estadão” um jornalista chamado Lenildo Tabosa Pessoa – reacionário, quase fascista, e anti-brizolista até a medula, na medida em que isso deveria agradar aos chefes dele na família Mesquita.
Bem, o Lenildo foi chamado pra compor a bancada de entrevistadores do Roda-Viva, e lá pelas tantas sapecou a provocação:
“governador, muita gente na esquerda brasileira diz que Fidel Castro costuma chamá-lo de “El Raton”
… “(Lenildo preparava-se para contar a velha lenda, nunca comprovada, de que Brizola teria pego dinheiro de Cuba para fazer guerrilha e depois embolsado a grana).

A saída de Brizola para a provocação foi antológica.

O vídeo da entrevista está aqui, mas a qualidade (do aúdio, especialmente) é muito ruim: http://www.youtube.com/watch?v=R41k2OCv7ec


Brizola virou o jogo contra o jornalista – de forma improvisada, mas definitiva.
Para quem tem preguiça ou computador velho (que emperra na hora de abrir arquivo de vídeo), vale a pena ler a transcrição. Veja como Brizola respondeu ao jornalista:

Leonel Brizola: Eu não vejo ninguém mais parecido com “raton” do que você.
(risos)
(silêncio no estúdio, Lenildo acusa o golpe e fica sem resposta; Brizola parte pra cima)
Leonel Brizola: Olha, você fez uma cara de “raton”.
Lenildo Tabosa Pessoa: Só que Fidel Castro não pensa assim.
Leonel Brizola: Isso tudo foi alguém que criou para me ofender, me agredir, me insultar. Como você quis fazer.
Lenildo Tabosa Pessoa: É isso que eu fiquei sabendo.
Leonel Brizola: Não mexeu com o meu pulso. Agora pode crer não há telespectador que esteja assistindo este programa que vendo sua cara e que não achasse parecido com um “raton”. Pode crer. Você tem uma cara de “raton” que em poucas pessoas eu tenho visto na minha vida.

A saída de Brizola foi genial porque Lenildo tinha mesmo uma tremenda cara de “ratón”. Ou, então, ficou parecido com “ratón” diante da investida do engenheiro.

Lembrei dessa história engraçada ao ler sobre essa história dos entrevistados que teriam sido escolhidos a dedo para entrevistar Gilmar Mendes, no Roda-Viva (aliás, foram mesmo escolhidos? Sabe, sou meio ingênuo… A TV Cultura precisa dar uma resposta!).

Lembrei do Lenildo Tabosa Pessoa, lembrei das feições de Gilmar Mendes, e não é que eles têm algo em comum?
Não há aqui nenhuma insinuação, apenas uma constatação de ordem fisionômica.

Por isso, pergunto: onde estavam os ratos na entrevista de Gilmar Mendes à TV Cultura?

Já houve um tempo em que o Roda-Viva não permitia que entrevistado escolhesse entrevistador.
Pelo contrário: a idéia era botar jornalistas que provocassem o debate. Mesmo que, às vezes, a entrevista descambasse para o bate-boca.

Mas, hoje há ratos por toda parte. Ratos bochechudos. Ratos de chapéu, ratos de terno e gravata…
Eles se merecem.


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