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09 de Maio de 2014, 11h19

Se amamos tanto as mães, por que as tratamos tão mal?

Por Jarid Arraes Véspera de Dia das Mães é sempre a mesma coisa: mensagens inspiradas, declarações de amor e, como não poderia faltar, compra de presentes. Homens e mulheres, crianças e adultos de todas as idades homenageiam as suas mães, até porque a maternidade parece ser um dos fenômenos mais respeitados de nossa cultura. Mas […]

Por Jarid Arraes

(Foto: Rogério Tomaz Jr.)

(Foto: Rogério Tomaz Jr.)

Véspera de Dia das Mães é sempre a mesma coisa: mensagens inspiradas, declarações de amor e, como não poderia faltar, compra de presentes. Homens e mulheres, crianças e adultos de todas as idades homenageiam as suas mães, até porque a maternidade parece ser um dos fenômenos mais respeitados de nossa cultura. Mas só parece.

Na verdade, a sociedade usa a maternidade como forma de controle. Criamos meninas para serem mães e fazemos essa preparação de muitas formas, seja por meio da boneca dada exclusivamente às crianças do sexo feminino ou pelas constantes cobranças ambivalentes quanto a sexualidade quando o período biológico de reprodução começa. São cobranças por recato para que a mulher não acabe grávida de “qualquer um”; e são cobranças para que essa mulher engravide quando sua idade começa a avançar um pouco ou quando ela se casa com um homem. A cultura da maternidade é monogâmica, patriarcal e muito moralista. Tratamos mulheres como pessoas destinadas a serem mães e, para que esse quadro seja ideal, precisa vir acompanhado de um relacionamento estável com um homem, de preferência culminado em uma formalidade matrimonial.

Diversos equívocos se iniciam a partir da ideia de que as mulheres e a maternidade se relacionam intrinsecamente, sem levar em consideração a escolha subjetiva de cada mulher enquanto indivíduo. Aquelas que não desejam ter filhos são tidas como aberrações e constantemente persuadidas a mudar de opinião: “Quando você for mais velha, vai pensar diferente”, diz o mantra. Com uma perversa ironia, essa mesma maternidade interpretada como o “milagre da vida” é tratada como um castigo, um fardo eterno com o qual a mulher deverá ser punida se engravidar por acidente – especialmente caso tenha relações sexuais por prazer. Não importa se ela tem condições ou não para criar uma criança; “Engravidou, agora aguenta”.

Além disso, enfrentamos constantemente vários problemas relacionados à capacidade de se tornar mãe: muitas empresas não contratam mulheres casadas ou que pretendem ter filhos, enquanto muitas outras aderem à demissão pós-licença maternidade. Há uma seríssima questão de violência obstétrica em nosso país, onde muitas mulheres não podem sequer escolher que tipo de parto terão e, após o nascimento do bebê, eventualidades como depressão pós-parto são temas cercados de incompreensão e a autonomia feminina é muito cerceada, além dos incontáveis constrangimentos pelos quais passam as mulheres que amamentam em público. Isso sem mencionar o modo como nos abstemos de compartilhar com essas mulheres o cuidado das crianças – que, segundo o ECA, são responsabilidade de toda a sociedade – e os afazeres domésticos, que apenas muito raramente são efetuados pelos homens. Com a desculpa cínica de que “ajudamos”, aderimos a uma ou duas atividades de limpeza e organização, e ainda afirmamos que estamos colaborando. Afinal, se amamos tanto as mães, por que as tratamos tão mal?

Devido a esse tratamento imposto às mães, a maternidade aparenta servir muito mais como uma espécie de demarcação de limites e papéis sociais do que como algo a ser celebrado. Como sociedade, obrigamos mulheres a serem mães e causamos todos os tipos de violência sobre elas; mas achamos que fica tudo bem se publicarmos um poema espiritualizando a maternidade e gastarmos dinheiro com consumo desnecessário no segundo domingo de Maio.

Para as mulheres e mães que fazem parte do movimento feminista e voltam seus esforços também para as reivindicações que envolvem a maternidade, o quadro é péssimo. Há muito o que mudar e melhorar e precisamos pensar a respeito do “ser mãe” também a partir do “não ser mãe”, debatendo pautas como a legalização do aborto, a adoção por casais do mesmo sexo, crianças abandonadas, parto humanizado, licença paternidade e a participação efetiva dos pais na criação dos seus filhos. Assim superamos a névoa que disfarça a misoginia e podemos oferecer às mulheres dois presentes genuínos no Dia das Mães: a escolha livre e o respeito à autonomia.