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29 de março de 2019, 21h22

Sem mudança de embaixada, Bolsonaro terá pouco a oferecer a Bibi

Analistas políticos israelenses divergem sobre a capacidade de o brasileiro ajudar o primeiro-ministro nas urnas; Bolsonaro desembarca em Israel no domingo (31)

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Por Pedro Moreira, de Tel Aviv, especial para a Fórum Ao desembarcar neste domingo (31) em Israel para uma visita oficial de quatro dias, o presidente Jair Bolsonaro terá poucas chances de provocar uma comoção parecida com a aquela causada pelo seu colega norte-americano, Donald Trump, na última terça-feira (26). “Ele não pode competir com o show de Trump, o show que Trump fez para [Benjamin] Netanyahu”, afirma o professor Menachem Klein, do Departamento de Estudos Políticos da Universidade de Bar-Illan, em Israel, que também já foi pesquisador na Universidade de Oxford e do King’s College, ambos no Reino Unido....

Por Pedro Moreira, de Tel Aviv, especial para a Fórum

Ao desembarcar neste domingo (31) em Israel para uma visita oficial de quatro dias, o presidente Jair Bolsonaro terá poucas chances de provocar uma comoção parecida com a aquela causada pelo seu colega norte-americano, Donald Trump, na última terça-feira (26).

“Ele não pode competir com o show de Trump, o show que Trump fez para [Benjamin] Netanyahu”, afirma o professor Menachem Klein, do Departamento de Estudos Políticos da Universidade de Bar-Illan, em Israel, que também já foi pesquisador na Universidade de Oxford e do King’s College, ambos no Reino Unido.

O especialista em Oriente Médio refere-se à ordem assinada por Trump em que os Estados Unidos reconheceram as Colinas de Golan como parte do território israelense. A região foi tomada da Síria em 1967 durante a Guerra dos Seis Dias e anexada de forma unilateral pela legislação israelense em 1981. Assim como a Cisjordânia e a parte leste da cidade de Jerusalém, a área é considerada pela ONU território ocupado ilegalmente por Israel.

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Klein analisa a repercussão da visita de Bolsonaro junto à população israelense. E acredita que o encontro poderia despertar mais atenção se tivesse ocorrido antes da viagem que Netanyahu fez aos Estados Unidos para acompanhar a assinatura da ordem.

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Despertar atenção, nesse caso, significa beneficiar Netanyahu na sua corrida pelo quinto mandato consecutivo. Quando descer do avião presidencial no aeroporto internacional Ben Gurion, em Tel Aviv, Bolsonaro vai encontrar um país às vésperas das eleições parlamentares, marcadas para o dia 9 de abril. E analistas israelenses não duvidam que a visita será usada eleitoralmente pelo primeiro-ministro. As imagens da transmissão do evento na Casa Branca, em que Trump reconheceu a soberania de Israel no Golan, foram parar no programa eleitoral de Netanyahu.

De qualquer forma, o professor acredita que a visita do mandatário brasileiro pode beneficiar Netanyahu. “Assim como a mudança da embaixada”, afirma, referindo-se à promessa de campanha de Bolsonaro de realocar a embaixada do Brasil em Israel do atual endereço em Tel Aviv para Jerusalém.

Prédio da embaixada brasileira em Tel Aviv (Foto: Pedro Moreira)

No entanto, a repercussão negativa do anúncio dentro e fora do Brasil parece ter feito Bolsonaro mudar de ideia. Em declarações recentes, durante a viagem aos Estados Unidos, por exemplo, voltou a dizer que não tinha pressa e que o presidente Donald Trump levou nove meses de governo para mudar a embaixada americana.

E após participar de um evento da Justiça Militar em Brasília, na última quinta-feira (28), o presidente falou em abrir um escritório de negócios em Jerusalém, ao invés de mandar a embaixada brasileira para a cidade.

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Mas mesmo a mudança da embaixada, considerada polêmica, teria, na opinião do estudioso, menos repercussão na sociedade israelense do que medidas similares anunciadas por países europeus. A Hungria abriu uma representação diplomática comercial em Jerusalém no último dia 19 e a primeira-ministra da Romênia anunciou que iria transferir sua embaixada para a cidade, mas foi desautorizada pelo presidente do país, a quem cabe a decisão final.

“A questão do impacto da visita está ligada ao status e imagem do Brasil na mente de Israel. O Brasil está longe, a Europa está próxima, mais israelenses viajam para a Europa e estão conectados a ela do que ao Brasil, portanto, o impacto das políticas europeias na mente do eleitorado israelense é maior”, diz Klein.

Já o professor Shmuel Sandler, que estuda a direita israelense, avalia a visita de Bolsonaro como mais significativa. “Indubitavelmente, a visita do presidente de um Estado importante como o Brasil ajudará Netanyahu (nas eleições), indicando que sob seu mandato Israel está melhorando sua posição no mundo.”

Sandler é ligado ao Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos, que se dedica à segurança nacional, política externa de Israel, paz e estabilidade regional. Para ele, o impacto será principalmente sobre os eleitores indecisos. Sem a possibilidade de reverter os votos daqueles que já decidiram contra Netanyahu.

Por isso, os partidos de esquerda, que hoje têm a minoria das cadeiras no parlamento e formam a oposição, não poderão ignorar ou atacar diretamente o presidente brasileiro de extrema-direita. “Os líderes de oposição não terão outra opção a não ser apoiar a visita em silêncio e tentar chamar a atenção do público para outras questões”, avalia Sandler.

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Já o professor Klein pensa que os líderes da direita podem até tentar se encontrar com visitante. Enquanto os da esquerda, que inclui os partidos árabes, “não teriam nele a melhor companhia para um chá”, diz.

Num cenário político tão pulverizado como o israelense, atrair os indecisos pode ser determinante. Na pesquisa eleitoral mais recente, encomendada pelo Canal 13 de televisão e divulgada nessa quinta (28), o Likud, partido de Netanyahu, aparece empatado com seu principal rival, o Azul e Branco, do ex-comandante das Forças Armadas Benny Gantz. Cada um aparece conquistando 30 assentos, de um total de 120 cadeiras. Israel tem um sistema parlamentarista em que, normalmente, o partido com mais votos indica o primeiro-ministro e recebe a missão de tentar formar uma coalizão de maioria com pelo menos 61 parlamentares.

Resta saber se, sem o trunfo de mais uma embaixada em Jerusalém para mostrar ao eleitorado, a recepção do primeiro-ministro israelense será tão calorosa quanto sua passagem pelo Brasil para acompanhar a posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro.

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