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15 de Abril de 2018, 10h28

Sergio Amadeu: Combate às fake news pode levar à perseguição política de discurso anti-neoliberal

"Não podemos correr o risco da denúncia ou do combate a essa desinformação levar a outro tipo de postura muito grave para a democracia que é a censura ou que é a perseguição política de alguns discursos."

(Foto: Arquivo pessoal)

O debate sobre fake news vem sendo encampado pela mídia tradicional, pesquisadores, os gigantes Facebook e Google, além de fundações internacionais que vêm financiando iniciativas com esse foco. Por que o termo vem ganhando tanto destaque? O sociólogo, professor da Universidade Federal do ABC e representante da comunidade acadêmica no Comitê Gestor da Internet (CGI.Br), Sergio Amadeu da Silveira, explica que a internet “trouxe a possibilidade de espalhar mentiras em larga escala”. Mas ele aponta que o argumento das fake news pode levar à perseguição política dos discursos anti-neoliberais e contra-hegemônicos. Confira a seguir entrevista exclusiva à Fórum com Sérgio Amadeu, que lembra o caso de fake news divulgado no Jornal Nacional e desmentido pelas redes, nas eleições de 2010. Segundo o noticiário, o então candidato à presidência José Serra (PSDB) teria sido atingido por um objeto pontiagudo jogado por petistas. O jornal levou ao ar o perito Ricardo Molina para provar que a fake news era verdadeira. Mas pelas redes sociais, ficou comprovado que se tratava de uma bolinha de papel.

Risco de censura e perseguição política

Sem dúvida alguma as notícias falsas e a desinformação são um problema para a democracia porque podem levar as pessoas a formar uma opinião com base em informações completamente exageradas, incorretas. Por outro lado, não podemos correr o risco da denúncia ou do combate a essa desinformação levar a outro tipo de postura muito grave para a democracia que é a censura ou que é a perseguição política de alguns discursos. Por isso, temos que ter muito cuidado em não aceitar que a forma de denunciar a desinformação seja a perseguição de alguns discursos. Em geral, quem mais divulga fake news – que é a palavra da moda agora – tem sido grupos ligados ao discurso de ódio, não somente, mas principalmente. O discurso de ódio, o racismo, o discurso contra as mulheres, o discurso homofóbico, o discurso contra a prática religiosa, são extremamente perigosos, mas já há um arcabouço legal no país sobre eles. O Brasil considera muitas dessas práticas como crime.

Interesses econômico neoliberais

A mídia tradicional encampou a partir de 2016 a pauta lançada nos Estados Unidos de combate às fake news. É claro que isso tem um interesse muito claro. A internet trouxe uma diversidade de discursos. E, sem dúvida, trouxe a possibilidade de espalhar mentiras em larga escala. Mas não é isso que preocupa a grande mídia e os think thanks norte-americanos. Eles perceberam a oportunidade de vetar o discurso anti-neoliberal. Tenho muita preocupação quando eu vejo determinadas fundações ligadas a interesses econômicos neoliberais, interesses imperialistas, defendendo a veracidade da informação, a verdade. Eles nunca se preocuparam com isso. Mas viram uma oportunidade de garantir o silenciamento e a desmoralização do discurso alheio, do outro, principalmente os discursos contra-hegemônicos. Por exemplo, a revista Veja tem trabalhado o tema das fake news. Mas vamos friamente analisar as matérias e as capas da revista Veja. Elas são as principais promotoras de desinformação no nosso país. Temos que tomar muito cuidado para que a denúncia da imprecisão, da incorreção, da mentira, não seja na verdade mais um trabalho fake.

Mídia tradicional e as fake news

Não acredito que o debate sobre a mentira na política, nas eleições, ou a desinformação, fortaleça os monopólios da mídia. Acho que se nós entrarmos nesse debate colocando todos os elementos que devem ser considerados, a mídia tradicional acaba sendo prejudicada porque quem mais tenta manipular são os donos desses veículos, os chamados barões da mídia, quem busca concentrar o poder informacional são esses grandes conglomerados e, atualmente, as plataformas de internet. Ao analisarmos como que é o fluxo da desinformação na rede vamos chegar ao velho conceito da manipulação e ao novo conceito da modulação. Tudo isso vai permitir que a sociedade ganhe mais consciência sobre o perigo que é a concentração do poder midiático e dos fluxos informacionais. Não acho que eles vão se dar bem nesse debate. Isso só poderia ocorrer se nós aceitássemos as premissas de que a mídia tradicional só fala a verdade e os outros, a rede é o ambiente da mentira e sabemos que é o contrário, muitas vezes é a rede que vai combater a mentira lançada pelo Jornal Nacional. Um dos casos típicos aconteceu numa eleição e foi conhecido como o caso da bolinha de papel, onde o Jornal Nacional fez uma fake news de uma notícia completamente falsa e muito forte porque trazia imagens tentando beneficiar o candidato a presidente da Globo, na época o então senador José Serra.

Não existem neutros, todos têm um local de fala

Acredito que o fact-checking é uma prática bastante interessante, mas nunca vai ser neutro, embora possa definir o que não aconteceu. Fatos que não aconteceram, a composição de cenários que foram desvirtuados, tudo isso pode ser uma atividade da checagem de fatos, mas requer um trabalho muito grande. A checagem de fatos, em geral, no velho jornalismo é a apuração. Isso tem sido deixado de lado pela grande imprensa e é muito caro fazer isso hoje. Porque para provar, por exemplo, não restar dúvida que uma notícia não é verdadeira muitas vezes é preciso deslocar o analista, o repórter. Tem que fazer um trabalho que não é simplesmente no interior das redes digitais. Acho importante agências de fact-checking, só que não tenho dúvidas que quando vai se analisar por exemplo temas mais complexos, porque aconteceu um fato ou quais as consequências de um fato, se a descrição dele foi exagerada ou não, aí não existe objetividade. Isso é o que nós devemos ter claro. E algumas dessas agências têm um equívoco muito grande, elas dizem assim “para entrar na nossa agência não pode ser partidário de nada”. Quer dizer que todo mundo que tem uma causa necessariamente mente? Não. Todo mundo, inclusive eles, têm uma visão de mundo, um local de olhar, um local de fala e, portanto, nunca vai ser neutro, nunca vai ser objetivo.

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