Seja Sócio Fórum
23 de março de 2019, 08h18

Só a educação pode destruir o sistema LGBTfóbico, diz professor trans vítima de preconceito em Salvador

Nesta semana, escola de educação infantil em que Bruno Santana dá aulas deu resposta a mãe que mostrou preconceito que viralizou nas redes sociais

O professor Bruno, a Escolinha Maria Felipa, e no detalhe, Ian e diretoras da escola (Divulgação)
Professor licenciado em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), pesquisador na área de Educação, Gênero, Raça, Direitos humanos e Transmasculinidades, e ativista do Coletivo de Transs pra Frente e da Transbatukada em Salvador, Bahia, Bruno Santana sente na pele o preconceito e o orgulho de ser um homem trans. “Muitas pessoas trans e travestis tiveram que morrer para que eu pudesse chegar até aqui. Quando uma pessoa trans ocupa qualquer espaço na sociedade, ela leva consigo toda uma história de luta e resistência, que servirá de incentivo para todas as outras que virão. Isso é motivo...

Professor licenciado em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), pesquisador na área de Educação, Gênero, Raça, Direitos humanos e Transmasculinidades, e ativista do Coletivo de Transs pra Frente e da Transbatukada em Salvador, Bahia, Bruno Santana sente na pele o preconceito e o orgulho de ser um homem trans.

“Muitas pessoas trans e travestis tiveram que morrer para que eu pudesse chegar até aqui. Quando uma pessoa trans ocupa qualquer espaço na sociedade, ela leva consigo toda uma história de luta e resistência, que servirá de incentivo para todas as outras que virão. Isso é motivo de muito orgulho. Essa conquista é coletiva e envolve muitas redes de afeto e acolhimento.”

Bruno encontrou na Escolinha Maria Felipa de Educação Infantil, onde dá aulas a crianças entre 2 e 5 anos, uma dessas redes de acolhimento, o que não lhe poupou de ser vítima de preconceito, como acontece além dos muros da escola.

Leia também: Escolinha de Salvador dá invertida em mãe de aluno que pergunta sobre professor trans

Na última terça-feira, diretores da escola publicaram nas redes sociais a resposta dada a uma mãe. Buscando uma escola para o filho, mas perguntando, primeiramente, se havia um professor trans na instituição. “Não que eu concorde, mas você não acha que isso pode ter diminuído o número de matrículas de vocês?”, indagou a mãe, que recebeu resposta à altura. “Quem acha que uma pessoa trans, apenas por ser trans, não pode educar seu filho, não merece a nossa escola.”

Bruno diz que tinha plena certeza que a escola seria assertiva na resposta, pelo próprio projeto pedagógico e de sociedade que defende. “É preciso destruir as estruturas desse Cis-tema LGBTfobico responsável por todo extermínio e violência contra população LGBTQI +. E isso só será possível através da Educação. E assim tenho feito”, disse em entrevista à Fórum, usando propositalmente o “Cis-tema” em vez de “sistema”.

Para ele, a transgeneridade nunca será um problema para as crianças. “As pessoas adultas que perdem tempo disseminando preconceitos. As crianças não estão preocupadas se seu professor é um homem trans, elas são inteligentes e entendem que a identidade de gênero é apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo”, conta.

De acordo com o professor, através da vivência propiciada pelo ensino, as crianças destroem essa visão de mundo que coloca seres humanos uns contra os outros. “O mais importante nesse processo de ensino-aprendizagem é possibilitar que elas vivenciem experiências pedagógicas que garantam o seu desenvolvimento humano. Que sigam sendo pessoas comprometidas na construção de um mundo que inclua todas as pessoas.”

Bruno diz que a escolinha faz história ao se colocar como aliada contra a LGBTfobia. “Em meio a tempos de fascismos e perdas de direitos posicionamentos como esses nos mostra que estamos no caminho”, diz.

Revolução pela educação
Para Ian Cavalcante, diretor da escola, a decisão de publicar a resposta nas redes sociais foi tomada justamente para defender valores defendidos pela escola e pelas famílias da comunidade escolar, como a luta contra o racismo, a homofobia.

“As famílias que estão conosco carregam os mesmos valores humanos, são parceiros na luta antirracista, anti-homofóbica, na luta por uma sociedade menos heteronormativa, misógina e patriarcal. E a gente acredita que a educação tem que ser por meio da prática. Então quando essa mensagem chegou até nós, nos sentimos muito ofendidos por mostrarem na nossa cara esse tipo de preconceito e discriminação. E demos uma resposta que acreditamos estar a altura dos valores que a comunidade que está conosco defende”, diz.

Segundo o diretor, a viralização da publicação se deu como uma resposta do próprio processo social que estamos vivendo que, embora seja triste, tem mobilizado mais pessoas para a luta. “Apesar de termos ficado tristes com a mensagem da pessoa, ficamos extremamente felizes e emocionados em perceber o quanto as pessoas estavam abraçando a nossa luta.”

Ian ressalta que Bruno é um excelente profissional e contribui na prática para a construção de uma educação sem preconceitos. “Ele atua com crianças de 2 a 5 anos e não trabalha diretamente questões sobre o que é ser um homem trans, é uma questão desenvolvida por meio da prática. O ser humano não nasce sabendo odiar, a ter preconceitos. Ele precisa aprender isso. E na Maria Felipa estamos ensinando as crianças a não desenvolverem preconceitos, a não discriminar, por nenhum motivo, por meio do exemplo prático.”

Para Ian, as políticas educacionais defendidas por Jair Bolsonaro (PSL) e incentivadas pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, nos coloca diante de um dos momentos mais desafiadores em relação ao ensino. Porém, ele acredita que tudo isso é parte do inconformismo da elite conservadora em um quadro de revolução social.

“É um cenário tenebroso, onde temos um ministro da Educação que defende coisas absurdas como o Escola Sem Partido, que é nada mais nada menos que censurar professores. As camadas conservadoras da nossa sociedade estão desesperadas, pois elas já perceberam que a revolução já teve início e elas estão tentando a todo custo pará-la. A revolução vai ocorrer muito por meio da educação. A educação é uma arma importantíssima para a revolução social.”

Nossa sucursal em Brasília já está em ação. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Saiba mais.

Fórum em Brasília, apoie a Sucursal

Fórum tem investido cada dia mais em jornalismo. Neste ano inauguramos uma Sucursal em Brasília para cobrir de perto o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Clique no link abaixo e faça a sua doação.

Apoie a Fórum