22 de maio de 2011, 07h56

Sobre alguns mitos em torno a Ernesto Sabato

Videla, Borges e Sabato


Carta Capital publicou recentemente uma resenha de Rosane Pavam de um lançamento para o qual todos os leitores brasileiros interessados em Jorge Luis Borges devem ficar atentos: Borges: Uma biografia, do inglês Edwin Williamson foi traduzido e lançado pela Companhia das Letras (664 págs., R$ 68). Trata-se, de longe, da mais completa biografia do mestre argentino já escrita em qualquer língua. Como a resenha critica o livro de Williamson por desconsiderar uma suposta “proximidade de quase três décadas” e um “relacionamento prazerosamente cerebral” de Borges com Ernesto Sabato, e como uma série de outros mitos sobre este último foram veiculados pela imprensa brasileira nos recentes obituários, talvez seja este um bom momento para repassar alguns episódios.

Williamson estava corretíssimo, diga-se, ao negar a existência dessa amizade na entrevista a Carta Capital. O “relacionamento” entre Borges e Sabato é uma entre muitas ilusões de ótica criadas pela notável máquina de autopromoção de Sabato. Como podem atestar os que estudam a vida e obra de Borges, Sabato jamais teve qualquer importância para ele, a não ser como objeto de constantes burlas e gozações com seus amigos mais íntimos, como Bioy Casares. Sobre isso, vale a pena recordar a anedota relatada por Damián Tabarovsky: em certa feita, Sabato promove um livro seu com o rótulo “o rival de Borges”. Ao ser perguntado sobre o assunto, o autor de Ficciones retruca: “Que curioso! Jamais diria que Sabato era um rival para mim”.

A existência de um livro intitulado Diálogos Borges-Sabato em nada muda o quadro. Trata-se de uma(s) entre centenas de entrevistas que Borges concedeu, literalmente a qualquer um que lhas pedisse, nas últimas décadas de sua vida. O jornalista Orlando Barone, entre 14 de dezembro de 1974 e 15 de março de 1975, consegue que Borges aceda a encontros com Sabato e ele. Basta ler o livro para constatar que não se trata de um “diálogo” entre dois escritores em pé de igualdade, mas de reuniões em que se alternam três dinâmicas: Barone entrevista Sabato; Barone entrevista Borges; Sabato entrevista Borges. Sobre esses diálogos, Borges confidenciou a Bioy Casares, no dia 02 de março de 1975: “Sabato está cada vez mais antipático. Hoje protestou: ‘por favor, Borges, deixe-me falar porque eu tenho algo a dizer’.”

Não houve, pois, qualquer diálogo nem muito menos um relacionamento, e sim uma obsessão unilateral que durou décadas. Do lado borgeano, o desprezo se manteve inalterado. Já em 1956, Borges captava uma das típicas manobras que realizaria Sabato ao longo da vida: “Sabato está louco. Renuncia [da Associação de Escritores]. Obriga os outros a renunciar. Fica bravo com os que não renunciam. Depois organiza abaixo-assinados para que não aceitem sua renúncia. O mais estranho é que com tudo isso, para algumas pessoas, ele fica parecendo simpático”. Testemunhando uma conversa com Borges, Bioy Casares relatava, uns dias antes: “hoje falamos de Sabato, de sua grotesca atuação numa audição de rádio, na qual perdeu as estribeiras”. Numa conversa entre eles acerca de escritores que cometeram o erro de publicar demais, Bioy Casares comenta: “é curioso o caso de Sabato: escreveu pouco, mas esse pouco é tão vulgar que nos sufoca como se fosse uma obra copiosa”. E logo Borges fulmina: “Nunca lhe tive afeto”.

A opinião de Borges sobre Sabato como um charlatão manipulador está tão amplamente documentada nas 1.600 páginas dos Diários de Bioy Casares que poderíamos empilhar várias outras citações. Mas passemos a alguns outros mitos veiculados pela imprensa brasileira recentemente, a do Sabato como “consciência moral” da Argentina e como humanista defensor dos direitos humanos.

Sabato e Alfonsín

Uma, e só uma única coisa se manteve inalterada nas posições políticas de Sabato ao longo de sua vida: ele sempre esteve ao lado dos que ocupavam o poder. Algumas citações o comprovam. Em setembro de 1955, quando um golpe militar derruba Perón, Sabato imediatamente se alinha: “em toda revolução há vencidos. Nesta os vencidos são a tirania, a corrupção, a degradação do homem, o servilismo”. Tratar-se-ia então de um conservador anti-peronista na linha de Borges, que também celebrou o golpe? Sim, mas até que os ventos mudassem. Em fevereiro de 1958, elege-se Arturo Frondizi, num acordo da União Radical com o peronismo proscrito. Sabato é nomeado Diretor de Relações Culturais na pasta das Relações Exteriores.

Uma conversão, portanto, à aliança radical-peronista? Sim, mas até que os ventos mudassem. No golpe militar seguinte, o de Onganía, em 1966—que instaura uma ditadura que dizimaria a universidade argentina–, Sabato declara: “Devemos ter a coragem de compreender (e dizer) que acabaram instituições nas quais ninguém acreditava seriamente. Você acredita na Câmara dos Deputados? Conhece muita gente que acredite neste tipo de farsa? Oxalá a serenidade, a discrição, a força sem alarde, a firmeza sem prepotência que Onganía manifestou em seus primeiros atos seja o que prevaleça”.

Na vitória eleitoral peronista de 1973, em que Cámpora, depois Perón, e depois Isabelita se equilibravam no confronto intenso entre a direita e a esquerda peronistas, o aparato de extermínio conhecido como Triple A (Alianza Anticomunista Argentina) ganha cada vez mais espaço no governo de Isabelita, através, principalmente, da sinistra figura de López Rega. As operações de destruição física da esquerda argentina começam bem antes do golpe de 1976, e Sabato de novo oferece seu apoio: “Um governo que se proponha a grande transformação deve ter a convicção filosófica e a força suficiente para tirar a pontapés as organizações estrangeirizantes. A liberdade absoluta não existe, não existiu nunca nem existirá jamais”.

Tal “convicção filosófica” não impediu que Sabato apoiasse o golpe militar de junho de 1976 contra o mesmo governo de Isabelita que ele havia apoiado alguns meses antes. Em maio de 1976, almoça com um dos maiores carniceiros da história da América Latina, o General Videla. Na saída, declara: “o general me deu uma excelente impressão; trata-se de um homem culto, modesto e inteligente; impressionou-me a amplidão de critério e a cultura do presidente”. Borges, um conservador que sempre esteve do mesmo lado, também participou desse almoço. Mas evitou a imprensa à saída e furtou-se a dar declarações tão vergonhosas. Depois do evento, Sabato se dirigiu com os outros participantes, o Padre Leonardo Castellani e o presidente da Sociedade Argentina de Escritores, Horacio Esteban Ratti, à casa de Borges. Pretextando complicações estomacais, Borges se recusa a recebê-lo (Revista Crisis, julho de 1976).

Depois da ditadura, durante muito tempo, Sabato circulou a versão de que só havia aceitado participar desse almoço para interceder em nome de Haroldo Conti, grande escritor assassinado pela ditadura e que naquele momento completava duas semanas de desaparecimento. Depois comprovou-se que se tratava de uma mentira. Quem intercedeu em nome de Conti foi o Padre Castellani. Sabato, na verdade, pediu a Videla que se constituísse um “conselho de notáveis” para censurar programas de televisão. A mentira de que Sabato teria intercedido em favor de Conti, amplamente disseminada, foi reproduzida pelo New York Times.

 


Néstor Kirchner e Sábato

Também teve alguma circulação o mito de que o almoço com Videla teria sido um erro conjuntural de Sabato. Nada mais falso. Em 1978, quando os crimes da ditadura já eram amplamente conhecidos, Sabato declarou à revista alemã Geo: “A imensa maioria dos argentinos quase implorava por favor que as forças armadas tomassem o poder […] Muitas coisas melhoraram: os bandos terroristas armados foram colocados, em grande parte, sob controle”.

Na verdade, as declarações públicas de Sabato com alguma crítica, ainda que tímida, à ditadura militar, datam da ascensão do governo Alfonsín, muito tempo depois de que o próprio Borges, conservador, cego, sem ler jornais e desinteressado, como sempre foi, das notícias do presente, já havia declarado, com a fina ironia de sempre, que “os militares andam matando de uma forma muito pouco argentina; um argentino mata com faca e de frente”. Já alinhado com Alfonsín, Sabato consegue a posição de presidente da comissão encarregada de investigar a violência durante a ditadura (CONADEP), exatamente por ser um nome palatável. No prólogo ao informe, Sabato formula a teoria dos “dois demônios”, que iguala as organizações de esquerda e a ditadura militar.

Tendo apoiado, ao longo da década de 70 e começo da década de 80, o extermínio da geração peronista à qual pertenceu o ex-presidente Néstor Kirchner, Sabato consegue a proeza de aproximar-se também desse governo, recebendo uma homenagem do ex-presidente com direito a um beijo na testa. Chegou ao fim da vida como uma espécie de apóstolo do senso comum melancólico, enunciador de verdades pretensamente profundas e opinólogo nacional.

Se foi sempre íntimo dos políticos, Sabato suscitou outras opiniões entre praticamente todos os grandes escritores argentinos de seu tempo. Para Ricardo Piglia, foi um “tipo de escritor com posições políticas muito oportunistas, muito exibicionista, antipático e muito arrogante”. Para Alan Pauls, tratou-se do “maior blefe já produzido” pela literatura do país. Para Damián Tabarovsky, Sabato “foi o homem aplaudido pelos meios mais poderosos, pela classe política mais trivial.” Para Osvaldo Bayer, tratava-de um “legítimo representante da classe média que sai às ruas só para aplaudir o governante da vez”.

Mas o veredito definitivo talvez tenha sido dado por César Aira: “Não me interessa um escritor que parece que veio à literatura para demonstrar que é boa pessoa”.