Cid Benjamin

20 de maio de 2019, 13h15

Sobre Bolsonaro, o príncipe e Robespierre

Cid Benjamin: “No Brasil, continuamos na Idade Média, apesar dos inegáveis avanços ocorridos na Era Vargas. Agora, Bolsonaro quer nos levar ainda mais para trás, quem sabe ao tempo do homem das cavernas”

Foto: Reprodução

As gigantescas manifestações do último dia 15 apontam para uma retomada do movimento de massas. Seu mote inicial foi o brutal corte das verbas para a educação, mas elas acabaram se transformando em atos de repúdio ao conjunto da obra de Bolsonaro.

Agora, a tendência é que haja uma sucessão de manifestações – de diferentes tipos – contra as políticas do governo Bolsonaro em várias frentes. E que, além disso, se crie uma situação em que ele não possa botar a cara na rua sem levar vaia.

Não só na área da Educação estão sendo cometidos verdadeiros crimes.

O governo anunciou que vai rever todas as normas regulamentadoras de saúde e segurança do trabalho. O objetivo declarado é que elas sejam reduzidas em 90%. Isso, num país que é recordista em acidentes de trabalho, é algo inaceitável.

O episódio me recordou uma historinha acontecida na década de 70, quando eu estive na Suécia como exilado político.

Eu trabalhava como operário num estaleiro de porte médio. Com cerca de 20 empregados, ele não construía navios; fazia apenas reparos em barcos pequenos ou médios. Tinha uma razoável clientela, pois a Suécia, país cortado por braços de mar, tem uma classe média que gosta de navegar quando as condições climáticas o permitem. Certamente, é alguma herança do tempo dos vikings.

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Pois bem, estava eu lixando o casco de um barco, que tinha sido trazido para terra, para que, depois, ele fosse pintado. No trabalho que fazia, usava uma espécie de luva, na qual estava acoplada uma lixa grossa. A geringonça era movida por energia elétrica, ligada a uma tomada.

Para facilitar o trabalho, tinha um balde com água e ia molhando as partes do casco que lixava. Lá pelas tantas chegou o representante do sindicato (todas as empresas lá têm um representante sindical, eleito pelos empregados) e me perguntou:

“Quem te mandou molhar o casco?”

“Fulano” – respondi, dando o nome do patrão, que tinha também funções gerenciais no estaleiro.

“Pode parar. Você está usando um equipamento elétrico. Se usar água daqui a pouco vai tomar um choque”.

Achei sensato e obedeci.

Logo em seguida chegou o patrão, constrangido.

“O Cicrano mandou você parar de usar água, não é? Ele está certo. Você fez bem em parar. Desculpa pela ordem que eu tinha dado”.

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Fiquei matutando se um episódio assim aconteceria no Brasil.

Comentei o acontecido com um companheiro de trabalho, um mecânico português parceiro meu, ligado ao PC de seu país, e com muitos anos de experiência de Suécia. Ele, então, me ensinou:

“Aqui, se há divergência sobre alguma questão relacionada com a segurança do trabalho, a primeira palavra é a do representante sindical. Ela prevalece sobre o que determina o patrão. Se este discordar, que trate de recorrer em outras instâncias”.

Três ou quatro anos depois houve a anistia e eu voltei ao Brasil, depois de quase uma década no exílio. Logo me tornei amigo de Natal, um velho militante, figura conhecida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tinha sido preso político nos anos 70 e, com sua barba branca, era um quadro político respeitado e querido por todos.

Conheci também um filho de Natal, Charles, metalúrgico que trabalhava como soldador num estaleiro. Certo dia ele me contou que na sua seção trabalhavam cinco soldadores e estava em falta uma máscara. Quem chegava mais cedo trabalhava com máscara. O que chegasse em quinto lugar, soldava sem proteção para os olhos. E isso, num grande estaleiro, não me lembro se o Caneco ou o Ishikawagima.

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Não pude deixar de me lembrar da experiência na Suécia, comparando as duas situações.

Engana-se, porém, quem pensar que os direitos dos suecos foram conquistados sem luta ou imaginar que os capitalistas suecos são mais bondosos que os brasileiros. Durante muitos anos, a partir do início dos anos 40, naquele país os trabalhadores travaram lutas duríssimas para conquistar melhores condições de trabalho.

Enquanto isso, aqui no Brasil, continuamos na Idade Média, apesar dos inegáveis avanços ocorridos na Era Vargas.

Agora, Bolsonaro – cujo governo representa um retrocesso civilizatório – quer nos levar ainda mais para trás, quem sabe ao tempo do homem das cavernas.

Não à toa, um deputado de seu partido, Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), descendente da família real, causou espanto semana passada ao considerar natural a escravidão e afirmar que ela era “um aspecto da natureza humana”, em pronunciamento no Congresso.

É o fim da picada.

Sinceramente, me deu saudades de Robespierre.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.