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02 de dezembro de 2011, 21h26

Sobre falar grosso com os fracos e fininho com os poderosos

Uma das características mais detestáveis que uma pessoa pode ter é a de falar grosso com os mais fracos e fininho com os poderosos. É a virtude por excelência no regime capitalista, onde se “ascende” pisando nos que estão por baixo e bajulando os de cima. Acredito, inclusive, que essa característica pessoal pode ser extrapolada […]

Walter Benjamin, talvez o pensador que mais radicalmente abraçou o fracasso

Uma das características mais detestáveis que uma pessoa pode ter é a de falar grosso com os mais fracos e fininho com os poderosos. É a virtude por excelência no regime capitalista, onde se “ascende” pisando nos que estão por baixo e bajulando os de cima. Acredito, inclusive, que essa característica pessoal pode ser extrapolada para a política e oferecer uma definição do que é realmente a esquerda.

Mil e uma definições de esquerda e de direita circulam por aí, algumas muito boas. A benjaminiana, por exemplo, é notável: Nada há que tenha corrompido tanto a classe trabalhadora alemã, escreve Benjamin em 1940, como a opinião de que ela nadava a favor da corrente. O desenvolvimento técnico era, para ela, como o empurrão do fluxo com o qual ela acreditava estar nadando. Daí não foi mais que um passo à ilusão de que o trabalho fabril, que se achava na corrente do progresso técnico, representava, por si só, uma ação política […] Só queria perceber os progressos da dominação da natureza, não os retrocessos da sociedade. Para Benjamin, portanto, esquerda é exatamente o oposto de progressismo: a crença no progresso paulatino das coisas, nos avanços lineares e inevitáveis, na corrente pra frente da História, é a marca registrada de todo conformismo, mesmo que assinado por gente que se apresente como “de esquerda”.

Deste texto—muito menos uma coleção de teses sobre a História e muito mais uma intervenção na luta em momento de derrota—, depreende-se o que seria a definição benjaminiana de esquerda: ela é a força política que encara a luta nutrindo-se da imagem dos avós escravizados, não dos netos liberados. Eis aí uma definição de esquerda que o progressista, cativo do narcótico da corrente pra frente da História, não entenderá nunca.

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A ideia de que “já não existem esquerda e direita” é das mais antigas construídas pela direita, sabemos disso. Mas isso é diferente de não entender que possam haver dimensões contraditórias no interior de um mesmo movimento político, especialmente no enlouquecido presidencialismo de coalizão brasileiro. Foi o caso, acredito eu, no Governo Lula. Nem o esquerdista mais radical negaria que o Ministério da Cultura de Gilberto Gil e Juca Ferreira, por exemplo, adotou políticas que poderíamos legitimamente qualificar como de esquerda: os Pontos de Cultura, o questionamento e a desmontagem dos dogmas da propriedade intelectual, a promoção da ética hacker do compartilhamento, entre muitas outras. Nem o esquerdista mais radical negaria que a política externa de Celso Amorim também teve momentos assim, como na ação decisiva contra a ALCA e na recusa a qualquer tratoragem sobre Bolívia e Equador—como pediam a imprensa e a direita brasileiras—quando esses países tentaram renegociar acordos que lhes eram desfavoráveis. Nem o defensor mais entusiasmado do Governo Lula deveria negar (muitos negam, eu sei) que houve aspectos de genuína política de direita, como na ajuda a que Sarney derrotasse Cristina Almeida na eleição para o Senado no Amapá ou no abraço a Ricardo Teixeira, que sepultou um incipiente movimento de democratização na estrutura feudal e corrupta do futebol brasileiro. Para não falar, claro, do Ministério das Comunicações ou da Agricultura.

Sobre o que é continuidade e descontinuidade entre o Governo Lula e o Governo Dilma, eu falei um pouco em outro texto. Aqui, gostaria de notar uma tendência bastante visível na base do governo atual, que pode ter suas precursoras na base do governo anterior, mas que é muito mais pronunciada agora. Refiro-me a uma política que sistematicamente contradiz a autodefinição de seus praticantes como “esquerda”: a prática de se dedicar a atacar e desqualificar os mais fracos e silenciar sobre as atrocidades dos poderosos. Que os movimentos que representam os mais fracos hoje—indígenas, ribeirinhos, desalojados pela Copa, gays, lésbicas, travestis e transexuais, trabalhadores sem-terra, lavradores, quilombolas, operários grevistas em embate com a burocracia sindical, mão de obra escrava e migrante—possam ter cometido seus erros políticos, ou mesmo ter sido presa ocasional do oportunismo, é algo que eu estou disposto aceitar como um fato possível, bastante provável até.

O que é inaceitável é acreditar que ainda é esquerda quem tripudia sobre os “fracassos” desses movimentos enquanto se cala sobre os verdadeiramente poderosos hoje alojados de forma tão confortável no governo. Afinal de contas, “Dilmão concordou com tudo”, disse Kátia Abreu, comemorando seu sucesso, contrapartida perfeita dos “fracassos” dos mais fracos, sobre os quais o falso esquerdista agora tripudia. Contra essa falsa esquerda, eu prefiro ficar com Darcy Ribeiro: “meus fracassos são as minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.