Milos Morpha

07 de novembro de 2015, 11h44

Sobre os aplausos a Claudio Assis e Big Jato

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Há pouco menos de dois anos a Revista Piauí publicou o perfil O Cineasta Pernambucano, assinado por Renato Terra, dentro da série Tipos Brasileiros. Você pode ler o texto completo no site da revista, ele começa assim: “O que me nutre é o sêmen dessa urbe anônima e brutal, repleta de pequenos burgueses que tremem de medo detrás das grades de seus condomínios de merda, enquanto tentam desviar os olhos das vísceras expostas desse Brasil que meu cinema denuncia e condena”. A brincadeira da Piauí faz referências a vários de nossos cineastas, mas essa frase de abertura, assim como a maior parte do texto, mimetiza especificamente Claudio Assis; a afetação da própria figura, de seus filmes e personagens.

Outro texto que merece ser lido sobre Claudio Assis leva o diretor mais a sério. Acho que gosto do artigo de Luiz Soares Júnior principalmente por como ele se aproxima de Assis na necessidade lírica e na formalização da informalidade. Além disso, é um texto bonito sobre a relação de um cinema com uma cidade a partir de dois filmes, Amarelo Manga e Febre do Rato.

Eu vi Amarelo Manga com uma década de atraso. Mas, ainda que muito novo, lembro bem da comoção causada pelo filme, de como ele era frequentemente comentado por minha família, que nunca foi particularmente envolvida com cinema, como um acontecimento local. Quando vi Amarelo Manga, eu não vi o fascínio de ver a cidade projetada. A projeção da cidade não me causava nenhum assombro. Eu era criança quando acompanhava minha mãe para o trabalho e trechos da Boa Vista estavam bloqueados para filmagens. Depois disso, eu veria filmes como Árido Movie e Deserto Feliz porque pais de amigos estavam envolvidos na produção. Assim, esse cinema pernambucano era pra mim apenas o reconhecimento do meu lugar social privilegiado. Isso mudou quando vi O Som ao Redor e passei a desenvolver, pelo cinema local, um interesse mais genuíno.

Essa é a distância da minha relação afetiva com Cláudio Assis e seus filmes. Por isso não tenho nenhum sentimento a contrapor com as atitudes do cineasta que me motive a aplaudi-lo como uma reiteração da sua importância, “apesar dos pesares”. Eu fico só com os pesares. E é difícil ficar com algo além depois de Big Jato. A minha leitura do filme é de completa negação do fascínio. Para mim, não há nele qualquer charme, encanto ou humor.

E Big Jato parece se afundar no ridículo pela pompa que o cerca. O filme foi premiado no Festival de Brasília e teve, na quinta-feira (5) uma sessão de pré-estreia para convidados no Cinema São Luiz, inaugurando a digitalização da sala. As proclamações de conquista da modernidade feitas em discursos eram contraditas pela afetação da própria cena política da situação e pela infantilidade quase reacionária do filme, que é inteiramente marcado por obviedades púberes, como comentários escatológicos, uma piada insistente com os Beatles e um propósito coming of age um bocado problemático.

A história do adolescente que queria ser poeta, seguindo os passos artísticos do tio renegado, e tem que enfrentar a violência da expectativa do pai (os irmãos são ambos terrivelmente interpretados por Matheus Nachtergaele) segue um esquema narrativo tão simples quanto uma peça de escolinha, com Nachtergaele sempre enfatizando negativamente a palavra “poesia” e repetindo “Matemática!” em exaltação, criando algo como uma versão da Turma do Didi para Billy Elliot.

A família do protagonista vive conflitos como o alcoolismo, violência doméstica e a necessidade de se ver a partir de uma identidade pragmática e masculina, o que resulta em machismo e homofobia. No final, no entanto, todos os problemas ideológicos são resolvidos quando o pai se recupera de uma febre do rato. E um plano da casa revela um ideal de harmonia na tradição ainda mais cretino e absurdo (pela impossibilidade política) que o final de A História da Eternidade (Camilo Cavalcanti, 2014). Nada disso é de se surpreender considerando a tolice comum ao cinema de Assis e como o filme repulsivamente hierarquiza seus personagens, colocando todas as personagens femininas (e são muitas) como ramificações dos personagens masculinos, e a serviço deles.

A gente conhece os estereótipos de Assis: a mãe, a filha, a puta, o frango. E, apesar do que o filme nos pretende convencer com suas bricolagens líricas baratas (separadas para uso intelectual dos personagens masculinos e “másculos” apenas), não há nada de transgressor neles. Pelo contrário, uma sessão de Boi Neon no mesmo lugar no dia seguinte comprova que não há nada mais distante e em maior estado de putrefação no nosso cinema do que um filme de Claudio Assis.