À Beira da Palavra

17 de setembro de 2014, 10h21

Solta bomba que São Paulo gosta

A caneta de Alckmin é o cassetete.

Seu carimbo é a bomba. Faz tempo. E se ainda há indecisos pro voto de daqui três semanas… Tá aí seu recado, honrando a gestão das últimas primaveras.

Há vasta audiência pro barulho, pros escombros, pro fervo. Pra assistir o choque e gozar das cenas fortes. Estopins, explosões. Patrocínio não falta.

Há também quem aponta o caroço do angu, a secular história paulistana de despejos, o nó da gravata empreiteira bancando campanhas eleitorais, subindo prédios e esperando melhor hora de alugar, vender, garantir ar condicionado e academia. Ou tapete pra encontro executivo.

E há quem se pergunta por mais 200 famílias que não tem mais onde passar a noite, banhar, vestir, cozinhar.

Desocupa logo que aqui é Alabama, ô São Paulo. É Soweto, não se esqueça. Aqui é grotão e manda o coronel. Se ele usa limusine e aciona a tela liquida ou se já acostumou com o check-in de Cumbica, ainda é coronel. Seu latifúndio é vertical e seu pasto tem elevador enguiçado, mais as dívidas de dez anos pra um prédio que tem a função social de ser fantasma. Afinal é propriedade privada e pouco importa se erguida na vampiragem e mantida deserta, esperando hora jóia pra sua poupança gargalhar.

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São 350 prédios abandonados, imóveis na berlinda de gerar renda, e então ocupados pelo povo que não tem teto. São milhares de famílias no centro de SP hoje, ali onde ainda voga o esgoto a céu aberto na Moinho, comunidade vigiada por escopetas e walkie-talkie.
E pra qualquer fita, foi sancionado que até as GCM agora podem talhar no aço.

Valor médio de aluguel sobe, passa da lua e não se fala em limite, em teto municipal de reajuste, como voga até em Nova York, o peito do império.

Não se taxa milionário, papo que nos anos 60 era reformismo e hoje é tiro como extremismo, inviável.

Movimentos de moradia já provaram por a+b como podem fazer casa muito mais barato no ‘Minha casa, Minha vida ‘, levantando as próprias lajes e não pra inchar lucro de empreiteira. Mas assim não contempla as negociatas das construtoras.

Vai, fardado. Solta bomba que a gente de São Paulo gosta, aprova a faixa de Gaza. Depois, caso se grave um soldado enforcando uma idosa, caso se registre seu dedo engatilhando a escopeta na cara de uma criança, não é nada que uma entrevista heróica na TV com trilha sonora de mel não resolva, mostrando seu bom coração cumpridor de ordens. Paira até promessa de promoção. Lacrimeja até sem bomba de gás, aquelas jogadas onde dormiam crianças na Ocupação da São João.

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No Brasil cordial nem tudo é dissimulação. Na calada tem jugular cortada, tem cabeça pisada. E mesmo no clarão do dia, taxando de vândalo quem luta, já cabe porrada sem censura. Há algo de Rambo no ar.

Aquela velha pergunta ingênua: cães salsicha que fardados agem como buldogues, que abanam o rabo pras ordens de cima, tiram do seu largo salário a verba pro aluguel?

Vai, mete bala e desce bomba que assim o paulista gosta. Nada como a normalidade de uma televisãozinha, uma praça vigiada, um shopping center. Pedir uma pizza e fechar rapidinho o portão quando ela chegar, que a rua é um perigo, o motoboy é suspeito e já já tá na hora do remédio do medo.

A cambada que volte pros confins ou, de preferência, prum útero esterilizado, que se afundem num túmulo. Eis o desejo paulista que se escarra. E o Hotel Aquarius volte aos seus peixes fantasmas. Vazio, vazando dívidas bilionárias pelas janelas”.

Foto de capa: Reprodução TV Brasil

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