ASSISTA
12 de junho de 2013, 08h50

O preço da passagem e o protesto que parece não ter fim

Manifestantes pararam São Paulo. Milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas pelas principais vias da cidade e foram alvo de violência da PM

Milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas pelas principais vias da cidade, foram alvo de violência da PM e pararam São Paulo

Por Igor Carvalho

Manifestante são alvos de chuva de bombas da PM (Foto: Mídia Ninja)

O terceiro protesto contra o aumento das passagens, em São Paulo, já caminhava para três horas de duração. Eram 19h50. Os 12 mil manifestantes, segundo os organizadores, que aceitavam pacificamente os destinos traçados pela Polícia Militar (PM) durante o ato, decidiram que queriam terminar a manifestação dentro do Terminal Parque Dom Pedro II. A PM impediu, da forma mais violenta possível.

Naquele momento os manifestantes já tinham marchado pelas principais vias de São Paulo mais de 8 quilômetros. Os ativistas partiram da praça dos Cliclistas, na avenida Paulista, atravessaram a rua da Consolação, entraram no túnel que dá acesso à avenida 23 de Maio e quando queriam seguir para a Radial Leste, aceitaram pacificamente a instrução da PM, que lhes pediu para ir pela avenida Liberdade. Do bairro oriental, os ativistas caminharam até a praça João Mendes e desceram a Rangel Pestana até o Terminal Parque Dom Pedro II, local do confronto.

O governador Geraldo Alckmin já havia dado uma declaração à Rádio França Internacional (RFI), em Paris, onde sinalizava sobre a postura que seria adotada por seu governo durante os protestos. O mandatário afirmou que bloquear vias é “caso de Polícia.” Uma das representantes do Movimento Passe Livre,  Mayara Vivian, respondeu à Alckmin. “O lado dele é claro, ele defende os empresários e fará de tudo para nos criminalizar, inclusive mandar uma polícia repressora e racista aqui.”

Mayara lembrou que Alckmin e o prefeito Fernando Haddad estão em viagem internacional no momento em que a cidade é palco de protestos. “Só o povo na rua fará o governo ceder. Eles foram para Paris e nos abandonaram aqui, mas vão saber o que está acontecendo em São Paulo.”

Parque Dom Pedro II

Foram dez minutos de tensão, que terminaram com dezenas de pessoas chorando, com a garganta fechada, os olhos irritados e dificuldades de respiração. Bombas de gás lacrimogêneo, tiros de borracha e spray de pimenta foram lançados contra os ativistas, que responderam com pedras e sacos de lixo. O ato poderia ter acabado ali, após a dispersão da multidão, mas não foi o que aconteceu. Os manifestantes surpreenderam quando voltaram a se organizar na Praça da Sé e decidiram seguir com o protesto até a avenida Paulista. Eram aproximadamente 2 mil pessoas, marchando pela rua Brigadeiro Luiz Antônio.

Conflito no Terminal Parque Dom Pedro II foi mais violento, mas não impediu que o protesto fosse retomado (Foto: Mídia Ninja)

Desde o princípio, ficou claro que o aparato policial, 400 homens, era “quase histérico”, como definiu o jornalista e professor da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni. Nos cordões de isolamento, provocações eram trocadas de ambos os lados. “Bichinha, se eu te pego sozinho te mato”, disse um PM para um dos manifestantes. Em seguida, o agente cobriu o nome e saiu para o meio dos demais agentes.

O ato retomou o vigor e seguiu pela avenida Paulista. Na frente do Masp, um manifestante foi preso. A população começou a gritar: “solta, solta, solta”. Alguns chegaram a correr atrás do jovem preso. A resposta da PM veio com balas de borracha e bombas. No vão livre do Masp, jovens encurralados se aglutinavam nas miras das armas de agentes, que atiravam.

A avenida Paulista foi fechada, nos dois sentidos. Um jovem, negro, sentado na calçada, parecia conformado. “Eu sou da periferia, sei como a polícia trata gente de bem”, afirmou Carlos Cerqueira.

Movimento popular

As cenas de guerra provocadas pela ação da Polícia Militar não arrefeceram o vigor político da manifestação, que ficou marcada pela presença democrática de vários setores e de classes distintas da população. “Apoio o movimento e acho que precisava estar aqui, temos um transporte incompatível com o preço que pago”, disse o professor de português Junior Vieira.

Para o operador de telemarketing Cláudio Tavares, que mora em Campo Limpo, “a passagem pesa demais no orçamento. Para ir em um cinema com minha namorada, no centro, gasto mais de R$ 20 de passagem.” O fotógrafo Wes Nunes explicou porque estava no ato: “Eu vim aqui para demonstrar aos governantes que o povo não está em casa vendo tudo acontecer.”

Fernando Ferrari, fundador do Sarau da Fundão, no Capão Redondo, zona sul da capital, também  ressaltou a relevância da manifestação. “Isso que está acontecendo aqui é muito importante.”

O Ministério Público agendou uma reunião com o Movimento Passe Livre para a próxima quarta-feira (12), para discutir sobre os protestos e a Secretaria Municipal de Transportes anunciou que enviará um representante ao encontro.

Presos e feridos

O dia terminou com 20 presos e três feridos, na manifestação. Todos os detidos foram encaminhados para a 78º DP (Jardins). A fiança foi fixada em R$ 20 mil. O trânsito na avenida Paulista só foi liberado após às 23h.  A PM informou que segundo sua contagem, haviam 5 mil pessoas no protesto.

Enquanto isso, na praça dos ciclistas, de onde partiu a marcha, sete manifestantes pulavam e repetiam o mantra cantado e alertado por milhares durante a noite. “Quinta vai ser maior”, lembrando a data do próximo protesto contra o aumento das passagens em São Paulo, dia 13, às 17h, na frente do Teatro Municipal. O que surpreende nas manifestações do Movimento Passe Livre é que ele parece não ter fim.

Foto de capa: Movimento Passe Livre