29 de maio de 2018, 22h08

Supermercado sem ter o que vender: já vi esse filme

"Por um lado, acho didático o desabastecimento afetando a classe média, boa parte dela crítica da Bolsa Família, que permite que famílias pobres se alimentem. E nem é para comprar coisas que a classe média está acostumada, é o básico, feijão, farinha, arroz e pouquíssimas outras coisas". Leia mais no novo artigo do Blog do Mouzar

Foto: Reprodução/TV Integração

Os bares que também servem refeições, perto de onde moro, não têm algumas coisas para servir. Preveem que, se a coisa continuar assim, vão ter pouca coisa a oferecer.

Nos supermercados e sacolões, pelo menos os das redondezas, há também falta de algumas coisas, mas não muitas. Brinco com alguns vizinhos: os pobres são acostumados à escassez de comida e à dificuldade de locomoção, tendo que usar o transporte público de má qualidade. Mas e a classe média? Não passa pela cabeça de alguém acostumado a ter tudo o que precisa nas prateleiras e gôndolas dos supermercados, de repente ter o dinheiro na mão ou no banco e não poder comprar nada. E ter o carro pomposo na garagem… sem combustível? Usar o transporte público? Coisa impensável para alguns. E pra complicar, um transporte público piorado, com poucos ônibus nas ruas.

Por um lado, acho “didático” o desabastecimento afetando a classe média, boa parte dela crítica da Bolsa Família, que permite que famílias pobres se alimentem. E nem é para comprar coisas que a classe média está acostumada, é o básico, feijão, farinha, arroz e pouquíssimas outras coisas. Acham um absurdo “dar” dinheiro para “incentivar a vagabundagem”, de quem não tem de onde tirar seu sustento.

Gente de classe média não sabe o que é fome, confunde com apetite. “Tomei café da manhã às 8 horas e não comi mais nada até agora, uma da tarde, estou morrendo de fome”. Imaginem se tivessem que passar pela fome de verdade, sociológica, não ter comido nada ontem nem anteontem, prever que não vai comer hoje também e não saber se vai conseguir comer alguma coisa amanhã.

Muitos que sempre tiveram tudo o que querem tratam com desprezo a fome dos pobres, a tal fome de verdade. Como disse, gostaria que sentissem um pouco o que é essa fome.

E o desabastecimento de combustível também tem seu lado educativo. Muitos e muitos moradores de São Paulo nunca usaram transporte público. Conheço jovens que nunca pegaram um ônibus urbano, nem trem… Escolas particulares de primeiro grau às vezes levam seus alunos em excursões para conhecerem o metrô. E se tiverem que pegar um ônibus que demora a passar, e já passa superlotado?

E pegar um trem metropolitano em que na hora do rush a gente fica espremido, sufocado, quase não conseguindo respirar?

Bom… Melhor do que torcer para que passem por isso e torcer para que os pobres deixem de passar por isso.

Mas como tem gente pedindo a tomada do poder pelos militares, eu me lembrei de um texto que publiquei no livro “1968, por aí… Memórias burlescas da ditadura”, editado pela Publisher Brasil em 2008, com crônicas sobre os tempos que esse pessoal acha que foi bom.

Publico um trechinho dele aqui, mas antes falo a esses que querem sonham com a volta da ditadura, especialmente uns caminhoneiros que engrossam esse coro: numa situação como atual, como a ditadura reagiria? Eu sei, porque aconteceu, por exemplo, na greve dos metalúrgicos de Osasco cinquenta anos atrás: baixaria uma repressão pesadíssima, que prenderia os líderes e supostos líderes (mas prisões barra pesada, com direito a tortura e risco de assassinato) e obrigaria, sob a mira de baionetas, todos os trabalhadores a voltar ao trabalho, sem atender a nenhuma das reivindicações deles, por mais justas que fossem.

Aí vai o trechinho do meu livro…

O dia do golpe, no supermercado

Cultura inútil: sabe qual foi o primeiro supermercado da América Latina? Muita gente se engana, principalmente os mais velhos do tempo do Peg-Pag, pensam que foi esta rede, cujo nome virou sinônimo de supermercado na década de 1960.

A resposta para esta pergunta é: o Sirva-se. Em 1954, me parece, criado pelo empresário Mário Simonsen, que era dono da Panair do Brasil (empresa de aviação de ótima qualidade, com muitos voos para o exterior) e depois da TV Excelsior (na época, a de maior audiência). A primeira loja do Sirva-se existe até hoje, só que com o nome de Pão de Açúcar. Fica na rua da Consolação, pertinho da avenida Paulista, em São Paulo. A segunda loja, aberta uns anos depois, também existe com o nome Pão de Açúcar, fica na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Paulistano, também em São Paulo. Foi durante muito tempo a maior loja de supermercado em todo o Brasil, e considerada um modelo.

Mário Simonsen ficou contra o golpe militar e sofreu uma baita pressão econômica e fiscal, com isso fechou a Panair, perdeu a concessão da TV Excelsior, que depois virou TV Manchete e hoje é a Rede TV!. As duas lojas do Sirva-se e mais uma em construção foram vendidas ao Pão de Açúcar, em 1965.

No dia 31 de março de 1964 eu trabalhava na loja do Jardim Paulistano, e me diverti. Eu era menor de idade, ganhava menos que o salário mínimo e mal conseguia pagar a pensão e o colégio (isso mesmo: colégio pago), então fazia mais de um ano que não lia jornais, só via as manchetes nas bancas. Não tinha dinheiro. Por isso, estava mal informado e não tinha uma noção certa do que acontecia. Ouvi no rádio o governador de Minas, Magalhães Pinto, esbravejando contra João Goulart, e me parecia mais uma briga entre os governadores de Minas, inicialmente, e depois os do Rio e de São Paulo, contra o governo federal. Só fiquei sabendo que era algo diferente disso depois de conversar com alguns trabalhadores já com alguma consciência política.

Mas a minha diversão, no dia do golpe, era ver o desespero dos ricos frequentadores do supermercado. Com medo de uma revolução de verdade, com batalhas nas ruas e o comércio fechado, todos queriam estocar o máximo possível de comida e outros produtos. Correram em massa para o supermercado. Não cabia todo mundo, deixaram entrar um monte de gente e fecharam as portas, e formou-se uma fila enorme do lado de fora, controlada por seguranças. Quando saía um freguês, deixavam entrar outro. E assim foi o dia inteiro, até acabar tudo que havia nos estoques.

O pessoal passava pegando tudo que havia nas prateleiras, de grãos a latarias, papel higiênico, velas, fósforos… tudo mesmo. Os repositores vinham do depósito com carrinhos cheios de mercadorias que não chegavam nem a pôr nas prateleiras, os fregueses se apossavam dos produtos logo que eles entravam na loja.

Outro lado da minha diversão: o diretor, sr. Macedo, um homem autoritário, sério, mudou de papel nesse dia: virou empacotador. Os meninos empacotadores estavam sobrecarregados e o jeito foi reforçar o serviço com gente do escritório, inclusive o diretor. Detalhe: as pessoas davam gorjeta ao empacotador, inclusive a ele, que aceitava tudo.

No dia seguinte, 1º de abril, não havia nada para vender no supermercado, e nada no estoque para repor. Aí veio a notícia de que o golpe estava consumado: João Goulart preferiu fugir para o Uruguai a encarar os golpistas. E fez-se de novo uma fila na porta do supermercado, mas desta vez querendo devolver mercadorias compradas em excesso, o que não foi aceito.