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08 de março de 2019, 16h31

Talíria Petrone: O feminismo é uma urgência da maioria das mulheres. Das 99%

Fórum publica com exclusividade o prefácio da edição brasileira da obra "Feminismo para os 99%: um manifesto", da editora Boitempo, escrito por Talíria Petrone, deputada federal (PSOL-RJ) e militante feminista negra. O livro é lançado neste 8 de Março, em oito países simultaneamente, e traz um manifesto potente sobre a necessidade de um feminismo anticapitalista, antirracista, antiLGBTfóbico e indissociável da perspectiva ecológica do bem viver, assinado por três das idealizadoras da Greve Internacional das Mulheres (Dia sem mulher) Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser.

Por Talíria Petrone “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. […] Eu escrevia as peças e apresentava aos diretores ricos. Eles respondia-me: – É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra e meu cabelo rústico. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.” Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada   Carolina torna menos difícil a tarefa de escrever este...

Por Talíria Petrone

“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. […] Eu escrevia as peças e apresentava aos diretores ricos. Eles respondia-me: – É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra e meu cabelo rústico. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.”

Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada

 

Carolina torna menos difícil a tarefa de escrever este prefácio em um momento que exige de nós, mulheres feministas e anticapitalistas, tanta responsabilidade. Mulher, negra, favelada, mãe de três filhos criados sem pai presente, como tantas mulheres brasileiras, Carolina foi uma das maiores escritoras do Brasil. No entanto, suas obras raramente são estudadas na escola, sua história raramente é contada e sua resistência é silenciada. Carolina é exemplo da urgência de reflexões, necessariamente articuladas, sobre raça, sexo, gênero e classe. Eu mesma conheci Carolina muito depois de formada professora, ao mesmo tempo em que se deu a consolidação da minha identidade negra – que também chegou tão tardiamente. Carolina de Jesus diz muito de um feminismo profundamente necessário. Mulheres como ela não podem ficar fora do nosso feminismo.

O feminismo é uma urgência no mundo. O feminismo é uma urgência na América Latina. O feminismo é uma urgência no Brasil. Mas é preciso afirmar que nem todo feminismo liberta, emancipa, acolhe o conjunto de mulheres que carregam tantas dores nas costas. E não é possível que nosso feminismo deixe corpos pelo caminho. Não há liberdade possível se a maioria das mulheres não couber nela. É disso que trata este potente e necessário manifesto escrito por Cinzia Arruzza, Thiti Battacharya e Nancy Fraser. Da maioria das mulheres. Das 99%.

Nosso feminismo é sobre mulheres como Dona Nininha. Chefe de família, arrimo de filhos e netos, trabalhou a vida inteira como trabalhadora doméstica para construir a casa onde viveu com a família numa favela em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. A chuva fez desabar um trecho da escadaria de acesso ao morro e sua casa foi atingida pelos escombros, pela lama e pelo perigo de desmoronamento. Dona Nininha morreu de desgosto, com depressão, 20 quilos mais magra, cerca de um ano depois de ter lutado incessantemente por uma obra emergencial em sua comunidade, obra que nunca chegou a ver. Mulher, negra, favelada, Dona Nininha não suportou o desprezo do Estado por sua vida e a de seus familiares. Nosso feminismo não pode ignorar que no Brasil 34,5% da população urbana vive em assentamentos precários, sendo a maioria de mulheres e negras que estão à frente desses lares. Nosso feminismo precisa enfrentar a pobreza. A pobreza no Brasil é feminina e negra. O feminismo das 99% é anticapitalista.

Nosso feminismo é sobre mulheres como Joselita. No dia 28 de novembro de 2015, 111 balas foram disparadas por policiais em um único veículo. Cinco jovens foram assassinados na tragédia conhecida como Chacina de Costa Barros, ocorrida no subúrbio do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, Joselita, mãe de Roberto, um dos jovens assassinados, faleceu com diagnóstico de anemia e pneumonia. Segundo a família, foi tristeza. Mulher, negra, pobre, mãe. Nosso feminismo não pode ignorar que no Brasil mais de 30 mil jovens são assassinados por ano. Mais de 70% deles negra e pobre. As mães têm sua vida e alegria interrompidas. Nosso feminismo é necessariamente contra a militarização da vida e o genocídio dos corpos negros, filhos de mulheres negras, que tombam, em especial, pelas mãos do Estado. O feminismo das 99% é antirracista.

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Nosso feminismo é sobre mulheres indígenas, caiçaras, camponesas, ribeirinhas, quilombolas e não pode ignorar que o Brasil é o país que mais assassina defensores de direitos humanos do mundo, em especial ligados à luta pelo território e pela justiça ambiental. Nosso feminismo anda de mãos dadas com mulheres como Sônia, atropelada por um caminhão madeireiro, no Maranhão, por lutar contra práticas ilegais de extração de madeira no território do seu povo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, 157 pessoas foram assassinadas nas últimas três décadas apenas no Estado do Maranhão em conflitos no campo. Nosso feminismo não pode prescindir de lutar pelo bem viver, pela justiça ecológica e pela superação da separação, que remete aos tempos coloniais no Sul global, entre homens, mulheres e natureza. No país em que a maior parte dos alimentos é envenenada, em que a soberania e saberes dos povos tradicionais são aniquilados, é preciso afirmar que nosso feminismo é indissociável da perspectiva ecológica do bem viver. O feminismo das 99% é ecossocialista.

Nosso feminismo é sobre Luana, mulher, negra, periférica e lésbica, espancada e morta porque se recusou a ser revistada por policiais homens, no Estado de São Paulo. É sobre as tantas transexuais e travestis assassinadas, a maioria negra, pobre, sem direito à vida, no país recorde de assassinatos de pessoas transexuais e onde se mata e estupra “corretivamente” mulheres lésbicas e se nega o direito de bissexuais amarem. O feminismo das 99% é antiLGBTfóbico.

Nosso feminismo é sobre as trabalhadoras domésticas. Aqui no Brasil, apenas em 2015 os direitos básicos, como férias remuneradas, foram estendidos às trabalhadoras domésticas. No país que ainda tem “quartinho de empregada”, não é possível um feminismo que não enfrente radicalmente, frontalmente, a exploração daquelas, majoritariamente negras, que no silêncio dos lares ricos brasileiros experimentam no corpo uma nova forma de escravidão. O feminismo das 99% articula necessariamente raça e etnia, gênero e classe.

Este manifesto é carregado de necessárias provocações. Vivemos nos últimos anos uma nova primavera feminista, que exige que a gente se debruce sobre os rumos da nossa luta. Com quais mulheres os feminismos diversos dialogam? Que mulheres estão convencidas sobre a importância do feminismo? De que mulheres tratam os feminismos? Quais mulheres seguem ainda guetificadas e marginalizadas nos feminismos? O feminismo das 99% não prescinde desses questionamentos, justamente porque reconhece sua urgência.

E nosso feminismo só será mesmo urgente se for por inteiro palpável e real para a maioria das mulheres brasileiras e do mundo. Se for popular e verdadeiramente emancipador. Esse precisa ser um compromisso teórico, político e prático do feminismo para as 99%. Esse manifesto é um chamado para um feminismo vivo e pela vida, pela dignidade, pela felicidade da maioria das mulheres.

A formação da sociedade brasileira foi marcada por desigualdades sociais, étnico-raciais e de gênero que permanecem muito presentes. Nos mais de trezentos anos de escravidão, o predomínio de uma elite agrária, proprietária e branca como grupo social dominante produziu profundas violências para as mulheres e especialmente para as mulheres negras e indígenas. O patriarcalismo e a escravidão são constitutivos da sociabilidade burguesa, possuindo expressões específicas em lugares como o Brasil e outros territórios colonizados.

A consolidação do sistema capitalista no mundo está imbricada com a invasão e a dominação dos territórios latino-americanos e a imposição ao mundo de um modelo de ser humano universal moderno que corresponde, na prática, ao homem, branco, patriarcal, heterossexual, cristão, proprietário. Um modelo que deixa de fora diversas faces e sujeitos, em especial as mulheres. O feminismo das 99% não se furta do esforço de romper com essa lógica colonizadora.

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Até mesmo porque, mesmo com o fim histórico da colonização, esse modelo de “universalidade” persiste. Os grupos sociais que assumiram o poder nos processos de independência latino-americanos representavam, em geral, a minoria branca e proprietária da sociedade. Se o regime colonial foi rompido, não houve ruptura com as relações coloniais de poder. E por isso nosso feminismo também precisa questionar fortemente a concepção universalista de mulher.

Para as mulheres negras e indígenas, a realidade brasileira e latino-americana em geral é de segregação e marginalização. No Brasil, o avanço do agronegócio e do modelo extrativista da monocultura, somado a uma série de retrocessos na luta pela demarcação das terras indígenas e quilombolas, mostra a necessidade de o nosso feminismo incorporar a luta por um outro modelo de desenvolvimento que enfrente a predatória lógica produtivista e de expropriação da terra e do território de povos originários, tão parte do modelo colonial que sustenta o capitalismo. A lógica militarizada de vida que mata e encarcera corpos de homens e mulheres negros e pobres, a submissão de pessoas negras, em especial mulheres, aos trabalhos mais precários, à informalidade e à pobreza precisam ser enfrentados pelo feminismo das 99%.

Este livro será para nós instrumento de resistência a tudo que nos explora e oprime. O capitalismo é a barbárie. Transforma tudo em mercadoria: corpos, talentos, fé, trabalho, amor, desejos, mulheres. Não nos serve, por isso, o feminismo neoliberal que não tem como horizonte a superação, por exemplo, da exploração de trabalhadoras domésticas, de mulheres como Dona Nininha. Por isso, o feminismo das 99% é radicalmente anticapitalista. Do mesmo modo, é preciso reconhecer que muitas das formulações anticapitalistas não partem de uma classe trabalhadora concreta: mulher, negra, indígena, vivendo em territórios militarizados e com seus povos perseguidos.

Este manifesto chega às nossas mãos no momento de uma esticada crise do capitalismo que precisa ser mais debatida e melhor compreendida em suas contradições. Pois é justamente nesta fase de crise que se acentuam a desigualdade e a concentração de renda, com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em todo o mundo, observa-se um giro do neoliberalismo para um novo período marcado por práticas de selvageria do mercado e de ascensão de governos comprometidos com a sanha desse projeto do capital de recuperação das antigas margens de lucro. O cenário da crise tem se mostrado propício à retomada de projetos políticos em diversos países, do primeiro mundo e periféricos, alinhados com um neofascismo a serviço do capital.

A urgência do feminismo para os 99% se potencializa neste momento de crise do capitalismo e ascensão internacional da extrema direita. O contexto internacional apresenta o avanço de um reacionarismo perigoso, que ganha força em países europeus como a França, em que Marine Le Pen, da Frente Nacional, teve relevância na campanha eleitoral no último ano. Nos Estados Unidos, o presidente eleito pelo Partido Republicano em 2016, Donald Trump, não faz quaisquer restrições em suas posições e declarações racistas, xenófobas, machistas. Na Argentina, o atual presidente Mauricio Macri, embora muito associado a uma direita mais liberal, tem fortes características xenófobas. No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro e o crescimento de um setor de extrema direita, que se apropria de desigualdades e opressões históricas, enraizadas no imaginário social, torna a luta feminista mais que necessária. (Nesse sentido, o caso do Brasil é emblemático: nas eleições de 2018, vira presidente um ex-militar apoiado pela indústria do armamento, igrejas fundamentalistas, latifundiários… E por um tal movimento integralista de ideário francamente nazifascista. O novo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, assumiu com um discurso abertamente retrógrado, contra o “politicamente correto” e com medidas iniciais que ameaçam direta e concretamente mulheres, negros, indígenas, pessoas com deficiência, animais e a floresta amazônica. No país onde são negras 70% das mais de 60 mil pessoas assassinadas por ano e onde pelo menos uma pessoa trans é assassinada por dia, Bolsonaro acaba de autorizar a compra de até quatro armas por indivíduo. Só nos primeiros 11 dias de 2019, foram assassinadas 33 mulheres no Brasil, sendo que, em 2018 inteiro, o feminicídio matou ao todo 70 mulheres. O horizonte é sombriamente ameaçador e exige um novo patamar de organização da luta de resistência.)

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Nosso feminismo das 99% é internacionalista.

Nenhum momento poderia ser mais propício para o lançamento deste livro, escrito pelas companheiras Cinzia, Arruzza, Thiti Battacharya e Nancy Fraser. É um manifesto, uma provocação, um chamado à luta feminista anticapitalista, ecossocialista, antirracista, internacionalista.

O feminismo que nos interessa é o feminismo compromissado com o direito à vida, com o bem viver, com a liberdade caracterizada pela responsabilidade com o outro e com a natureza. Porque nem todo feminismo serve a todas as mulheres, à humanidade, ao planeta. Precisamos avançar contra o feminismo dos 1% que detêm mais da metade da riqueza deste mundo às custas da exploração e da opressão da maioria.

Este manifesto é um instrumento a serviço das lutas das mulheres que sofrem cotidianamente no corpo a barbárie que sustenta o capitalismo. Da nossa radicalidade depende a própria sobrevivência e a dignidade dos 99% dos quais fazemos parte. Não nos calaremos. Temos lado. Não vamos arredar o pé das ruas.

Se este manifesto é planetário, como um dia foi o Manifesto de Marx e de Engels, também, como aquele, é revolucionário. Propõe as mulheres como protagonistas de uma luta pela derrubada do capitalismo para a ascensão de um modelo pautado pela igualdade entre gêneros, raça e classe.

Se este prefácio se inicia com uma homenagem à Carolina de Jesus, nada mais justo e bonito que termine em memória de Marielle Franco. Se estivesse viva, a feminista e vereadora do Rio de Janeiro, mulher, negra, socialista, que amava mulheres, favelada, que carregava no seu corpo esse feminismo que queremos e estamos construindo, seria, certamente, parte, com entusiasmo, deste documento. Marielle encarnava no seu corpo, na sua história e nas suas lutas as pautas desse movimento feminista das 99%, internacionalista, anticapitalista e antirracista. Em vida, Marielle nunca se ausentou de um ato feminista sequer contra os golpes políticos, contra os cortes de direitos, contra o genocídio negro, pela descriminalização do aborto, pela vida das mulheres. Não por acaso foi assassinada, com quatro tiros nesse corpo socialista e libertário, um ano antes do lançamento deste livro, em 14 de março de 2018. Embora as investigações ainda não tenham sido concluídas, é possível afirmar que tramaram e executaram o plano de sua morte, em conluio, políticos e agentes do Estado envolvidos em milícias para-estatais. Mataram o seu corpo. O seu espírito de luta, não.

E este livro, de certo modo é um manifesto que honra Marielle e todas as mulheres que como ela têm ido às ruas para tentar salvar a humanidade e o planeta. Marielle sempre citava a mensagem ubuntu “eu sou porque nós somos”. Essa frase tem tudo a ver com a luta a que nos convoca este manifesto: mulheres de todo o mundo, uni-vos!

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