31 de julho de 2015, 00h07

Tássia Reis: a força da mulher negra no rap

Aos 25 anos e considerada uma das promessas do rap nacional, a artista fala sobre carreira, feminismo, racismo e destaca a importância da estética como caminho para a compreensão de sua identidade enquanto mulher negra: “Sou negra e sou maravilhosa, porque sim, essas coisas estão na mesma frase”

Aos 25 anos e considerada uma das promessas do rap nacional, a artista fala sobre carreira, feminismo, racismo e destaca a importância da estética como caminho para a compreensão de sua identidade enquanto mulher negra: “Sou negra e sou maravilhosa porque, sim, essas coisas estão na mesma frase”

Por Anna Beatriz Anjos

Tássia Reis é dona de uma voz de veludo e de um flow sofisticado, que se fundem em melodias ao mesmo tempo poderosas e suaves, daquelas tão gostosas de se ouvir que, quando nos damos conta, já as escutamos por vezes seguidas. Aos 25 anos, a rapper, natural de Jacareí, no interior de São Paulo, levou com a reportagem da Fórum um papo descontraído, sintonizado à trajetória de quem já alcançou conquistas significativas – como um EP próprio, em meio ao cenário da música independente –, e vislumbra no horizonte planos e sonhos ainda maiores.

Tássia tem riso fácil, mas endurece ao tocar em assuntos sérios, que lhe são caros. Num discurso articulado, em que convergem reflexões diversas sobre o mundo ao seu redor e sua vivência enquanto mulher negra, dispara “pencas de textos”, como gosta de dizer, sobre racismo, feminismo, afirmação da identidade negra, machismo no rap e outros temas mais.

O resultado dessa soma de fatores é uma entrevista tão autêntica e forte quanto a própria artista, que confessa sentir o peso da discriminação racial estruturante de nossa sociedade, mas se orgulha de cada um dos traços que revelam sua ancestralidade. “É muito louco quando a sociedade te impõe uma parada, e aí você fica refém e tenta se adequar, mas nunca consegue, porque o lance não é seu cabelo, é você, é sua pele. Então por que você não pode ser simplesmente o que é?”, questiona. “Estou muito feliz porque, a cada etapa que passa, penso que meu cabelo está lindo e não consigo mais me deixar influenciar pelas imposições.”

Confira:

Fórum – Como se deu seu envolvimento com a cultura hip hop? Qual o papel que ela teve – e continua tendo – na sua vida?

Tássia Reis – Eu comecei a dançar em um projeto, em um centro cultural em Jacareí, que é a minha cidade. Via os clipes – era aquela época do DVD Black Total, sabe? –, via aquela estética e já entendia que aquilo me chamava de alguma maneira. Fui nessa aula, e aquilo mexeu comigo de uma tal maneira que pensei: gente, é isso que quero fazer da minha vida. Eu tinha 14 anos. Comecei a fazer aulas, tinha eventos, movimentações, ações, oficinas de outras coisas. Naquele primeiro momento, estava só dançando, mas depois fui me introduzindo na cultura Hip Hop mesmo. Aconteciam muito eventos de rua, onde tinha uns stands com livros e filmes antigos, que falavam também sobre o movimento negro, Malcom X, Martin Luther King, Panteras Negras, e aquilo foi me despertando e me envolvendo. Fui entrando nesse meio, nessa cultura, e quando eu vi estava vivendo aquilo, respirando aquilo. E me contemplou de todas maneiras, desde a minha identidade estética mesmo – pensei: esse grupo é o meu grupo, as pessoas aqui têm cabelo crespo, estão sorrindo, lutando, acho que é isso mesmo. Aí me encontrei. Desde então, não consigo – nem tento –, não quero desvincular isso de mim.

Fórum – Quais suas principais influências musicais?

Tássia – Para falar sobre minhas influências preciso pensar sobre o que ouvi desde criança. Os meus pais são muito artísticos, apesar de não serem artistas de fato. Mas sempre gostaram de ouvir música, cantar, dançar – meu pai dançava durante a adolescência, tinha um grupo em homenagem aos Jackson 5, usava black power. James Brown eu ouvia em casa, aprendi até a fazer um passo que se chama James; lembro que ele [pai] tinha uma fita do Ray Charles, e sempre foi conectado com tecnologia. Então, quando saiu o CD, ele comprou um rádio que tocava CD e vários CDs. [Ouvia] Muito samba – Fundo de Quintal, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho, Clara Nunes, por quem minha mãe é apaixonada, e eu acabei ficando também. Além da MPB, mas trazendo para a música preta: Tim Maia, Djavan, Jorge Ben. Uma das primeiras músicas que lembro de cantar com a minha mãe, quando ela estava lavando roupa, é Ê Baiana, da Clara Nunes.

Quando comecei a dançar, já escutava rap. Meu irmão ouvia muito rap na minha casa, às vezes ficava um pouco irritada porque ele colocava às 7h da manhã e eu não queria ouvir às 7h da manhã (risos). Mas aí prestava atenção às letras – sempre fui conectada com letras, porque gostava de escrever poesia – e achava legais. Quando ele chegou com o CD do Sabotagem, falei: gente, esse cara é bom! E um dia me pegou ouvindo o disco sem ele ter colocado. Depois vieram RZO, Expressão Ativa, Conexão do Morro, o CD da [rádio] 105 FM, do Espaço Rap. Fui ouvindo, e quando comecei a dançar já tinha algum contato, não era crua. Fora os Racionais, que a gente escuta desde que se entende por gente, pelo menos as pessoas da minha geração em diante.

Depois que comecei a dançar e escrever, já tinha alguma idade para procurar o que queria, e passei a buscar outras coisas além do rap nacional. Na dança mesmo, a gente ouvia muito A Tribe Called Quest, De La Soul, anos 90 no geral. Passado um tempo, tendo esse despertar também da minha posição enquanto mulher negra na sociedade, comecei a pesquisar mais as mulheres, mas acho que ainda estou no início da pesquisa (risos).

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“Acho que só fortaleci minha identidade quando vi a Lauryn Hill, que tinha pele escura como a minha, cantava pencas de coisas e falava de amor também”

Fórum – Já consegue destacar quais são suas cantoras negras preferidas?

Tássia – Hoje já não separo mais por gênero. Estou apaixonada pela Jussara Marçal, tenho ouvido bastante as coisas dela, e ao mesmo tempo gosto de ouvir as meninas do Brooklyn – a Chelsea Reject e a T’nah [Apex]. Elas são bem undergorund e o disco é maravilhoso. Tem a Oshun, que é uma dupla nova-iorquina, do Brooklyn também, e elas estão bem destacadas na minha playlist. Além disso, gosto de ouvir a Little Simz, uma menina de Londres que tem 20 anos e manda pencas de textos. Gosto de música pop, adoro Beyoncé, Rihanna… Acho sucesso, porque elas tentam trazer a modernidade, tentam conectar com o que está acontecendo agora. Por exemplo, a trap music é uma febre, então a Beyoncé vem e traz com a leitura dela.

Fórum – É incontestável que todas as crianças negras, sobretudo as meninas, crescem sem se ver representadas nos meios culturais. Na sua opinião, qual a importância de ícones negras de tamanha magnitude na música pop, como Beyoncé e Rihanna?

Tássia – Acho muito importante, num panorama mundial, porque é um sucesso global – todo mundo sabe quem é Beyoncé. Mas, ao mesmo tempo, a estética da Beyoncé, por exemplo, está dentro do padrão de negro aceitável pela sociedade: [tem] a pele mais clara, e no geral não está com o cabelo natural – não que isso seja uma crítica, porque nos Estados Unidos eles usam o cabelo de diferentes formas mesmo. No Brasil, principalmente, isso ainda é muito carente. A gente não consegue enumerar cinco artistas pop negras. Não conseguimos enumerar sequer cinco artistas negras que estejam na mídia. E você olha no undeground e vê um monte de artistas negras. A representação e a representatividade são fundamentais para as pessoas poderem se enxergar, para a autoestima, para a identidade.

Acho que só fortaleci minha identidade quando vi a Lauryn Hill, que tinha pele escura como a minha, cantava pencas de coisas e falava de amor também. Mas, ao mesmo tempo, sofri muito, porque na TV não tinha [artistas negras]. Quando tem uma mulher negra na TV, ou é hiperssexualizada ou a colocam como empregada, em mais uma novela de escravo, algo assim. A TV não supera, sempre nos coloca nesse padrão. Nunca me coloca como uma cantora, por exemplo. No geral, né? E se coloca, coloca uma só, para cumprir a cota. Quando há, é também muito estereotipado: me põem lá, sofrendo na favela, sendo estuprada. Nunca aparece uma história que levante nossa autoestima. A luta é para que a gente consiga trazer um pouco de representatividade além do que já fazemos no nosso trabalho, nas redes sociais, nos palcos. A gente quer invadir esse espaço aí também.

Fórum – Como foi o processo de afirmação de sua identidade negra?

Tássia – É uma coisa meio estranha de classificar. Eu nasci e não pensei nisso, fui vivendo minha vida. Minha mãe me chamava carinhosamente de neguinha, de uma forma fofa. Acho que você só entende que é negra na sociedade quando escuta um “neguinha” de maneira pejorativa. Você está andando na rua, passa um ônibus e alguém grita: “neguinha do cabelo duro”. Aí pensa: putz, acho que ele está falando comigo. Essa percepção, quando se está na fase de transição entre criança e adolescente, é bem cruel, porque você nem sabe o que veio fazer no mundo. A escola não está preparada [para lidar com isso]: é como eu falei, não contam nossa história de glória, de criação, das invenções, de toda a diáspora africana. Mas ao mesmo tempo, em casa, meus pais sempre foram muito envolvidos com a cultura negra e acho que isso me fortaleceu de alguma maneira para que eu olhasse no espelho e não me aceitasse, porque não é aceitar, mas dissesse: nossa, sou negra e sou maravilhosa porque, sim, essas coisas estão na mesma frase. Não houve um momento exato [em que despertou para essas questões], acho que foi um processo, mas com certeza a cultura Hip Hop me ajudou bastante.

A estética é um caminho bem interessante para você entender sua identidade. Sempre usei meu cabelo crespo, mas com outras texturas, vamos dizer assim – ele ficava mais solto. Na adolescência, [usava técnicas] para pentear – essa era a desculpa, para ficar mais fácil de pentear. Porque não tinha os produtos adequados, a gente não tinha informação sobre o pente certo de usar, então a mãe vinha com o pente fino. Na adolescência, pensei em deixar o cabelo natural para ver como era, porque nem lembrava, e aí deixei. E foi engraçado. Minha mãe nunca me falou para alisar o cabelo, nunca deu esse texto, mas perguntava: “e aí, não vai relaxar o cabelo?”, e eu disse que não. “Por quê?”. “Ah, porque eu não quero”. “Então tá bom, beleza”. E passou. Acho que foi o momento em que olhei no espelho e falei: acho que é isso mesmo. Meu afro estava bem grande, eu garfava e ele ficava maior, tinha vários truques. Esse momento aconteceu quando tinha entre 18 e 20 anos, foi quando me senti poderosa. E é muito louco, porque não é que me senti poderosa e aí nunca mais quis mudar o cabelo na vida, não é verdade, porque a gente sofre de diferentes formas. Depois disso, já fui perseguida nas Lojas Americanas, já entrei em papelaria e me olharam torto, enfim. Entendi que aquilo não tinha a ver com meu cabelo, tinha a ver comigo, porque eu era negra. Percebi que se eu estivesse careca, as coisas aconteceriam do mesmo jeito.

É muito louco quando a sociedade te impõe uma parada, e aí você fica refém e tenta se adequar, mas nunca consegue, porque o lance não é seu cabelo, é você, é sua pele. Então por que você não pode ser simplesmente o que é? A luta é essa: meu cabelo crespo é lindo, de todos os formatos. Porque existem vários tipos de crespos, e na TV o máximo a que se chega é um cacheado. Cacheado é lindo, todo crespo é lindo, porque nasceu em você e deveria estar ali só por isso. Faz parte de você, da sua identidade, da sua história, da sua ancestralidade. Hoje estou deixando meu cabelo crescer porque sinto saudade dele e ele já está com uns quatro dedos, mais ou menos. Mas estou muito feliz, porque a cada etapa que passa, penso que meu cabelo está lindo e não consigo mais me deixar influenciar pelas imposições.

Fórum – Em entrevista recente ao blog Que Nega é Essa, você contou que, quando estudava moda, antes de escolher seguir a carreira como rapper, sofreu racismo durante o processo de seleção para um estágio. Como o racismo agiu em sua vida, e de que forma lida com ele? 

Tássia – Eu estudei moda, fiz tecnólogo em design de moda, e na minha sala, das muitas meninas que conseguiam estágio, a maioria era branca. Acho que uma amiga minha negra conseguiu estágio, que eu me lembre. Não é tão evidente, não vão virar para mim e dizer “você não vai passar porque é preta, tá bom?”. Você percebe que há pessoas na sala que têm a mesma qualificação que você, mas elas passam, e você não. Isso é recorrente. E se você passar, seu salário vai ser menor, não vai ser igual ao das suas colegas. Fiquei bastante triste quando estudei, porque queria experimentar isso, queria ser uma estudante normal, fazer igual todo mundo: estagiar, dizer “nossa, tenho uma profissão, é isso mesmo”. Eu já não podia fazer exatamente igual aos outros universitários, não podia ir para o bar celebrar com todo mundo porque tinha que acordar cedo no outro dia. E quando saía para dançar – quando eu saía, era para dançar –, eu também tinha que trabalhar no outro dia. Foi bem puxado no momento, a gente se pergunta: mas por quê? Sou tão boa! Sou ótima, articulada, inteligente, minhas notas são boas, tenho criatividade. Por que ninguém quer me contratar? Quando você tem a resposta e percebe que é porque o sistema é racista mesmo, ao mesmo tempo em que fica aliviado – pensa “ufa, não sou ruim, não é porque não estudei ou porque não mereço” , a tal da meritocracia –, vê que é porque o sistema não quer te colocar ali.

Acho que nunca vou me acostumar com isso, não é uma coisa à qual nos acostumamos. E acho que nunca vai ficar mais fácil, porque a indústria da música não é diferente. Se a Nicki Minaj reclamou de racismo, quem sou eu, sabe? É muito difícil, a gente fica tentando furar as barreiras, aprendemos a inventar oportunidades para desenvolvermos as nossas coisas e trazemos a discussão. Tento trazer a discussão na música, quando sou convidada para falar sobre outras coisas, minha vida, minha carreira, ou sobre racismo mesmo, sobre estética. Temos que desconstruir isso em nosso país. É bem difícil, porque são muitos anos de opressão, e ninguém quer falar sobre isso. Ninguém quer assumir que tem parcela de culpa. Isso não é um problema dos negros, é da nossa sociedade inteira, do mundo inteiro.

E se a gente não conseguir reconhecer o nosso papel, o papel da parte privilegiada, e não permitirmos que nos reconheçamos negros… Porque no Brasil tem essa questão – muitas pessoas não sabem que são negras, porque ninguém quer ser negro no Brasil. Se ser negro é ser visado pela polícia, ter os piores empregos, por que vou querer ser negro?  É um assunto delicado, porque isso [a história dos negros no Brasil] não é contemplado pela educação, não sabemos de onde viemos… Digo país, mesmo. De que parte da África eu vim? Onde fica a África – como dizem os meus amigos do Aláfia? Isso não é discutido. Se mais da metade da população no país é negra, como a gente não pode se reconhecer negro? Ser negro é maravilhoso, é lindo. O que tem que mudar é o tratamento que o sistema e o Estado dão a nós, que somos mais da metade da população. Vou até citar o Aláfia: “Pasme, primo, mas quem cisma é o Estado”. Eu quero ser negra. Eu sou negra. Serei negra independente disso. Se eu sair na rua e falar para alguém “gente, eu sou branca”, não vai adiantar nada, porque a polícia vai continuar me achando negra, vão continuar gritando para mim que tenho cabelo duro.

Tássia Reis em apresentação no Sesc Vila Mariana, em São Paulo (Foto: Ruy Fraga)

Tássia Reis em apresentação no Sesc Vila Mariana, em São Paulo (Foto: Ruy Fraga)

Fórum – Como é ser mulher no rap? Ainda sente muito os efeitos do machismo nesse meio? Acha que os homens do rap vêm tentando se sensibilizar em relação às reivindicações do movimento feminista ou isso ainda não acontece?

Tássia – Eu já vim numa geração mais recente, mas há muitos relatos de mulheres que, assim como na dança, para serem aceitas, precisavam se vestir como homens. O que sinto em relação direta à minha pessoa é que sou uma mulher, então rimo como mulher. Ué, como eu rimaria diferente? Tenho uma voz bonita, doce, e aí muita gente não me considera no rap por causa disso – “nem é rap, ela nem canta que nem homem”. Além disso, tem muitas músicas machistas, muitos comportamentos machistas. Mas é uma discussão recente, no sentido de que mulheres com visibilidade, como a Beyoncé, trouxeram essa pauta do feminismo [há pouco tempo]. Quando tinha só um grupo de mulheres gritando por fora, ninguém dava atenção.

Tem muito estereótipo dentro do rap em relação ao feminismo. Já vi um monte de coisas por parte de MCs, por parte do público do rap também, em relação, por exemplo, a tratar o estupro como algo corriqueiro, normal ou culpa da mulher. A gente tenta desconstruir isso de várias maneiras, expondo as ideias, fazendo as nossas movimentações, porque tem o lance de que só nos chamam para o 8 de Março [Dia Internacional da Mulher] ou 20 de Novembro [Dia Nacional da Consciência Negra]. Rola um boicote também. Talvez não seja uma coisa “não vamos colocar as mulheres”, eles simplesmente não chamam. Não muda o fato de que não estamos lá, seja por boa ou má intenção. O que acontece é que estamos bem articuladas. Existe a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, que faz um trabalho maravilhoso no sentido de colocar as mulheres nos lugares onde não estamos, e isso tem provocado as discussões, porque muitas vezes as pessoas não querem sair da zona de conforto para poder compreender. “Você está com frescura, deveria lavar uma louça” – já vi um cara falando isso para uma menina.

Ou então estamos em um debate e já começa a falar mais alto, porque é mais forte. São atitudes machistas que passam despercebidas. Ser machista não é só você lavar a louça para “ajudar” a sua esposa, porque na verdade isso deveria ser uma tarefa em conjunto na família. A nossa sociedade é impregnada disso, porque somos ensinados a ser assim. Aí, quando você diz para o cara que ele está sendo machista, já revida: “mas a minha mãe me criou, eu tenho três irmãs”. Tá, querido, e aí? Grande merda! Isso não muda as suas ações machistas, porque muitos dos nossos pais, nossas mães ou irmãs também foram criados dentro desse sistema. Tentamos desconstruir, mas precisamos que as pessoas estejam abertas, porque no grito conseguimos algumas coisas, mas não tudo.

Fórum – Recentemente, o rapper Emicida lançou o clipe da música Boa Esperança. Em uma de suas cenas, durante a revolta dos empregados da mansão, o rapaz negro beija uma das donas da casa, uma mulher branca, e isso é colocado como ato revolucionário. As femininas negras questionaram bastante essa sequência, afirmando que ela reforça a questão da solidão da mulher negra. O que pensa sobre isso?

Tássia – Essas questões são muito delicadas, porque quando se tem o nível de expressão do Emicida, tudo o que você faz fica muito evidente. Eu assisti ao clipe em primeira mão, num festival de clipes, e fiquei incomodada. Cheguei em casa e falei para as meninas: achei que o clipe tem boa intenção, mas que deu uma ramelada na questão da valorização da mulher negra, porque acaba reproduzindo uma parada que a sociedade nos impõe, que é a gente ser o limbo, do limbo, do limbo, menos que o menos. E eu não gostaria que ele reafirmasse isso, sendo uma pessoa de quem conheço o trabalho, respeito e até tenho trabalho junto. Mas isso evidencia o quanto a gente precisa discutir essa questão, o quanto precisamos conversar e deixar bem evidentes todos os pontos. Conversar com as mulheres negras, saber o que pensam, para se sentirem representadas também. Acho que ele pecou nisso, sim, deve ter refletido acerca disso – espero que sim –, e que numa próxima não cometa essa gafe, porque foi uma grande gafe.

Fórum – Ainda sobre a questão da solidão da mulher negra: esse é um assunto muito debatido entre as feministas negras já há bastante tempo. Como o tema toma forma em sua vida?

Tássia – Quando você é adolescente, não para para refletir [sobre isso]. Hoje, há artigos que dão um norte, que explicam essa questão. Você faz uma viagem no tempo e lembra que na escola não tinha nenhum namoradinho. Eu não era considerada a menina mais bonita da minha sala – não estava sequer entre as três. Demorei para beijar na boca, e quando beijei, estava bem insegura. Demorei para perder minha virgindade também por [conta da] insegurança. Pensava: ah, é porque não ligo pra essas coisas, não ligo para relacionamentos. Porque sempre realmente fui uma pessoa muito dedicada; antes de dançar, eu jogava vôlei e fazia aula, até os quinze anos foi assim; depois comecei a dançar e só parei para vir para São Paulo para estudar.

Nessa, você acaba passando por relacionamentos curtos, meio desgastantes  às vezes. Quando entendi que aquilo era histórico, que não é que eu era uma má pessoa ou tinha algum problema específico, primeiro fiquei arrasada. “Porra, cara, não tenho nenhuma chance nesse mundo? Não é possível”. Depois você começa a conversar com as suas amigas, que também são feministas, começa a entender os pontos: não entrar num relacionamento desgastante só para não ficar sozinha, conseguir imprimir os seus desejos e vontades de uma maneira mais evidente [na relação] e se entender mesmo, sabe? Falar sobre a solidão da mulher negra me ajudou bastante a entender que sou maravilhosa e que a sociedade pode não achar, mas também há muita gente que pode achar – constatar, né, porque é uma realidade (risos).

Antes eu não queria casar, mas acho que é porque estava embutido na minha cabeça que não casaria. Depois comecei a pensar: não, quero casar, quero casar na igreja – e eu nem sou da igreja (risos). Hoje, não sei se seria um casamento como manda a etiqueta, mas com certeza quero um companheiro que feche comigo no rolê, seja bacana, queira destruir e lacrar mundo afora, porque é para isso que estou aqui (risos). Ao mesmo tempo, hoje compreendo que as coisas podem ter o tempo delas, e por onde circulo agora é mais fácil que isso ocorra.

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“Tem muito estereótipo dentro do rap em relação ao feminismo. Já vi um monte de coisas por parte de MCs, por parte do próprio público do rap, em relação, por exemplo, a tratar o estupro como algo corriqueiro, normal ou culpa da mulher. A gente tenta desconstruir isso de várias maneiras”

Fórum – Sabemos que o feminismo ainda é extremamente pautado pelas mulheres brancas e de classe média e que, por conta disso, deixa-se de fazer o recorte racial, silenciando muitas vezes as demandas e vivências das mulheres negras. Como você, enquanto mulher negra, pensa que as feministas brancas deveriam agir?

Tássia – O que eu vejo é que, em muitas das causas, a gente está lá, só que ocupamos os piores espaços. Não só no feminismo, mas na sociedade em geral, as pessoas precisam entender a posição delas de privilégio e compreender que ninguém está isento de cometer algum ato machista ou racista. “Mas eu sou feminista, não posso ser racista” – querida, a sociedade toda é racista e você pode ser em algum momento. E se não for, pode acabar reproduzindo [o racismo] de alguma maneira. O meu clamor seria que tentassem enxergar com os nossos olhos, e nos momentos em que a gente clama, que deixassem que nossa voz falasse, não falassem pela gente. Acho que é isso que acontece: abafam, não nos deixam falar ou ter espaço naquela determinada luta, e isso não fortalece ninguém. A luta não pode ser só para um grupo de pessoas, tem que ser para todo mundo.

Fórum – Na semana passada, você participou do Festival Latinidades, que comemorou o Dia da Mulher Afro-Lationoamericana e Caribenha. Como vê a situação da mulher negra no Brasil, de forma geral?

Tássia – Acredito que não melhorou nada. O que percebo é a movimentação das mulheres negras. Acho que a internet está ajudando muito a gente a se organizar e se articular, para que os textos, as reuniões, as informações, nossa história cheguem até nós. Tenho me sentido mais fortalecida nesse sentido porque [o conteúdo] está conseguindo chegar até mim. Não tinha internet na minha casa até 2011, é meio recente, então agora há uma chuva de informações. A articulação para as reivindicações melhorou muito, mas é uma coisa interna, ainda estamos brigando por muita coisa.

Fórum – Quais são suas referências no feminismo hoje?

Tássia – Gosto muito de ler a Djamila [Ribeiro, feminista negra e mestranda em Filosofia Política na Unifesp]. Gosto muito da visão dela sobre as coisas, até por ela também ser escritora. Também gosto da Stéphanie Ribeiro [feminista negra e estudante universitária], acho que ela põe o dedo na ferida, é bem direta. Fora as minhas amigas feministas, que na na verdade não são leituras, são discussões que a gente faz, fica pensando, debatendo acerca dos textos, da nossa vivência, de coisas que acontecem.

Fórum – Quais as dificuldades de ser uma artista independente no Brasil? 

Tássia – Duas palavras resumiriam: “vida loka” (risos). A gente vai experimentando, criando, vendo o que funciona e o que não funciona. Tenho duas mulheres negras que estão comigo na produção – a Isis e a Juliana –, também tenho um amigo que está no fortalecimento, o Diamante, e a gente se reúne sempre. A minha equipe tem ainda um DJ, o Dedé 3D, que é de São José dos Campos, e a Livia Mafrika, de Jacareí, que canta comigo. Vamos fazendo redes, se interligando, funciona muito assim. O artista independente é, na verdade, dependente, porque ele depende de todo mundo, de muita coisa, para acontecer. Não sou só artista; faço uma conversa aqui com o contratante e encaminho para a produção, aí já está meio caminho andado.

Quando temos que ir para um lugar muito longe, também faço minha produção, sei me virar. Ser artista independente no Brasil é ser ativista, porque você fica a todo momento tentando criar coisa para poder manter a movimentação da sua carreira, gerar conteúdo – musical, vídeos, tudo mais –, e as redes sociais são fundamentais para isso, já que não estamos na grande mídia. Mas no Instagram, Facebook e Youtube estamos o tempo inteiro (risos). Todo mecanismo que a internet proporciona precisamos aproveitar, para que, quando alguém procure, ache alguma coisa. Com isso, vamos tentando nos adaptar, porque as coisas mudam muito rapidamente, as gravadoras não são mais o que eram há dez anos e, há dez anos, já eram diferentes do que eram há vinte. E nesse espaço independente, onde tem muita gente batalhando, a gente entende que não podemos ser rivais, porque dependemos que o amigo que faz a mesma coisa que você também esteja articulado.

Fórum – Você já fez muitas parcerias com outros artistas. Foi uma estratégia adotada para ganhar visibilidade ou iam acontecendo naturalmente?

Tássia – A princípio, nunca foi uma estratégia, foi acontecendo naturalmente. Comecei a escrever as minhas coisas e mostrar para as pessoas, e elas achavam bacana, mas eu não tinha lançado nada ainda – isso em 2010, 2011. Gostavam da minha voz e me convidavam para participar com refrões. Não era intérprete, comecei a cantar para mostrar o que escrevia. Era para fazer um refrão para o AXL [rapper] de Jacareí, e fiz três. Depois, ainda no Vale [do Paraíba, onde fica Jacareí] fiz MC Ralph, MC José, uma galera. As pessoas gostavam e diziam: “você é a menina do refrão do AXL”, não tinha nome, não era a Tássia Reis (risos). Quando lancei Meu Rapjazz, em 2013, todo mundo curtiu e surgiram os convites: surgiu Rashid, e primeiro fizemos a Vício, depois disso fiz Studio62, do Rafael Kent, que saiu em 2014.

Por conta do Studio62, o [Marcelo] D2 viu e me chamou para participar de um show dele, o que foi muito legal. Aí as coisas foram rolando. Teve Nego E, mais recentemente o Emicida… E o meu critério era o seguinte: me manda o som, se eu achar que posso colaborar, beleza. Mas geralmente fechava com as pessoas de cujo som gostava. Eu não tenho compromisso com gravadora, ninguém manda em mim, faço som com quem eu quiser (risos), e isso dá uma liberdade bacana de escolher. Não tenho uma estratégia, mas acabou que fiz muitos refrões, e isso começou a ficar até um pouco chato, porque as pessoas me mandavam mensagens me pedindo refrão, e eu nem conhecia. Em No seu radinho, dou até uma cutucada: “Posso ser mais que refrão, posso ser canção inteira”.

Fórum – Para terminar: quais serão os próximos passos da sua carreira? O que podemos esperar da Tássia Reis?

Tássia – Agora estou bem mais abusada. O EP é muito recente, estou muito apegada a ele, então é possível que venha uma versão deluxe – que fino falar isso (risos). Vai ter clipe novo, gravei algumas coisas, tem participações. Estamos trabalhando muito para levar a música pelo Brasil, que é um país muito grande. Tem muito lugar para onde quero ir, que já fiquei sabendo que as músicas estão tocando por lá, e para onde quero levar meu ziriguidum (risos).