04 de setembro de 2018, 16h35

Tautismo Global, sincronismos e ironias no incêndio do Museu Nacional

No Manifesto Futurista, Marinetti falava em “destruir museus” para libertar as consciências dos “inúmeros cemitérios”, e nos prepararmos para o futuro. Em visita ao Rio em 1926, Marinetti repetiu tudo isso e viu no Brasil um país futurista porque não teria “nostalgia das suas tradições”... Claro, Marinetti era um iconoclasta. Mas o Brasil é mais realista que o rei. Leva ao pé-da-letra coisas como “austeridade fiscal” (cuja realização máxima foi, até aqui, a “PEC da Morte”) que até o próprio FMI criticou em 2016. O incêndio do Museu Nacional foi um acontecimento irônico e sincrônico, na cidade em que Marinetti via a “realização acidental” do futurismo: resultado do neoliberalismo levado à sério num momento em que o fascismo se aproxima no segundo turno das eleições

O poeta Menotti Del Picchia era um dos artistas brasileiros mais entusiasmados com a visita do pai do movimento do Futurismo no Brasil em 1926. Via o Brasil um país talhado para o Futurismo, por não sofrer “a nostalgia das tradições e que nunca tivera a preocupação de queimar museus”. Ao contrário de Marinetti, cujo manifesto futurista na Itália falava em “destruir museus e fuzilar todos os comendadores”.

Marinetti viu no Rio de Janeiro a própria realização futurista: favelas que eram “acidentalmente futuristas” e a cidade como “um fruto tropical que produz um delicioso suco: a velocidade dos automóveis”. Para retornar ao País em 1936, dessa vez como representante do Governo italiano fascista de Mussolini, vendo na guerra a realização máxima do Futurismo: a destruição de toda tradição – leia BARROS, Orlando de, O Pai do Futurismo no País do Futuro, E-Papers, 2010.

É claro que Marinetti era um iconoclasta: jamais mandaria Roma pelos ares e destruiria museus e bibliotecas. Era a linguagem da propaganda elevada a condição de arte. Por isso, modernistas como Mário de Andrade não o levavam a sério e recusavam qualquer comparação do modernismo brasileiro com o Futurismo.

Mas hoje tudo mudou.  Somos mais realistas que o rei: responsabilidade fiscal, teto de gastos (a chamada “PEC da Morte” – congelamento por 20 anos dos recursos destinados à ciência, educação, saúde e cultura) e todo o conteúdo do saco de maldades das políticas neoliberais aqui são levadas à sério. Enquanto nos países que deram origem ao discurso do “Estado Mínimo”,  desde o crash financeiro de 2008, o neoliberalismo não resistiu ao rescaldo da crise e foi relativizado até pelo FMI com críticas em seus relatórios em 2016: as medidas neoliberais “aumentam a desigualdade e colocam em risco uma expansão duradoura” – clique aqui.

“Acelerar!”

Dessa maneira, a catástrofe científica e cultural no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro mostra como o país que Marinetti tanto elogiou no poema-reportagem “Brasiliane Velocitá” em 1926 realizou também ao pé-da-letra os slogans propagandistas do Futurismo. Definitivamente, o Brasil não sabe brincar…

Num conjunto de sincronismos, o Brasil pós-golpe torna real os delírios de Marinetti: destruir o passado, o patrimônio, a História e a memória para nos tornarmos mais leves e acelerarmos rápido para o futuro – temos até um ex-prefeito e candidato a governador do Estado de São Paulo obcecado com a ideia de “acelerar!”.

Memória, Ciência e História Natural viraram cinzas justamente na cidade brasileira mais amada pelo fascista Marinetti num momento em que um candidato fascista de extrema-direita se aproxima das eleições com reais possibilidades de chegar ao segundo turno – tá certo que Bolsonaro não é um “fascista” nos moldes de Mussolini, mas é tão deletério quanto…

Para o neoliberalismo brasileiro levado ao pé-da-letra, o passado pesa demais na nossa corrida para o futuro: Petrobrás, Getúlio Vargas, trabalhismo, Lula, sindicalismo, estatais, nacionalismo etc.

Para um país que almeja o empreendedorismo, a terceirização, as flexibilizações, as desregulamentações, as privatizações e o livre comércio, a redução a cinzas do Museu Nacional é simbólica – os custos da manutenção do conhecimento e memória pesam demais na futura miniaturização do Estado. E para o mercado, História e patrimônio não dão lucro. É tudo sólido demais para a “Modernidade Líquida” (Zygmunt Bauman) tão almejada pelos luminares do mercado financeiro.

Memória afetiva tautista da Globo

E o tautismo (tautologia + autismo midiático) da emissora hegemônica de corações e mentes brasileiras, a Rede Globo, é o motor dessas coisas que aqui foram levadas a sério.

Como não poderia deixar de ser, a cobertura da emissora do terrível sinistro do Rio de Janeiro foi marcada por uma interpretação tautista de repórteres e apresentadores que, de tão fechados nas bolhas televisivas dos estúdios, passaram a relatar o incêndio a partir de uma narrativa que a Globo faz de si mesma.

O ponta pé inicial dos sintomas começou na Globo News, cobrindo o início da catástrofe no início da noite do domingo: “pega fogo um museu com DEZENAS de anos”… Na verdade com duas centenas de anos. Definitivamente, a História é um problema para a visão de mundo “líquida” da Globo.