09 de fevereiro de 2012, 12h23

Tecnologias Sociais: rumo ao Fórum Social Mundial 2011

Conheça os projetos vencedores do II Concurso Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais, organizado pela Fundação Banco do Brasil e Fórum. Eles serão apresentados em Dacar, no Senegal, em fevereiro do ano que vem

Eles são professores, um de cada região do Brasil. Em comum, desenvolvem projetos simples, que buscam a solução de um problema utilizando a uma tecnologia social. Outra característica os une: os trabalhos que realizam envolvem a comunidade de que participam e podem ser facilmente reaplicados em outros locais. José, Cristina, Inês, Rosemeire e Marilúcia usam a tecnologia social na educação e foram os vencedores do II Concurso Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais, promovido pela Fundação Banco do Brasil e pela Revista Fórum. Esta foi a segunda edição e recebeu 3.075 inscrições de projetos. Destes, 650 foram certificados e 50 (dez de cada região do país) participaram de um seminário em Brasília. E foi desse grupo que saíram os cinco vencedores, que irão participar do Fórum Social Mundial do Senegal, em Dacar, e cujos projetos serão divulgados numa oficina organizada pela Fundação Banco do Brasil e pela revista Fórum.

O resgate da cultura popular

Cristina de Melo, vencedora da região Norte, usa a arte de contar histórias para valorizar as tradições de um povo que não tem registro de sua cultura

São Sebastião da Boa Vista, município localizado a dez horas de barco de Belém, no Pará. Lá, a educadora Cristina de Melo desenvolveu o projeto “Falando descubro, escrevendo existo”, com o objetivo de resgatar a cultura popular local. No caso da cidade, uma ilha do arquipélago do Marajó, o intuito era fortalecer a cultura da comunidade ribeirinha. “Percebia a perda da identidade cultural relacionada à oralidade e à ‘contação’ de histórias. As pessoas estavam perdendo o interesse por essa tradição”, diz a professora.

Duas escolas públicas de São Sebastião da Boa Vista se envolveram no trabalho (Padre José de Anchieta e Magalhães Barata) realizado com 230 alunos, de 18 a 29 anos, que participavam do projeto ProJovem Urbano. De acordo com Cristina, num primeiro momento, os jovens refletem sobre o conceito de cultura. “Começamos a falar de cultura em geral, depois da Amazônia, da cultura marajoara, do ribeirinho. O trabalho começou com cada um se descobrindo dentro da sua história e, depois, fomos pesquisar as lendas, cantigas, contos, causos, que são existentes e não têm registro.”

Com base nessas reflexões, em “rodas de conversa”, o aluno é o principal agente. Num segundo momento, passa a ser construtor da história por meio da pesquisa, envolvendo a comunidade em busca do conhecimento das tradições locais. “A intenção é que todo material produzido fique registrado em livros”, afirma Cristina, que busca patrocinadores para essa etapa. Os livros são uma coletânea das lendas, contos, cantigas e cirandas da comunidade. Uma produção cultural de um povo, sem registro, que, segundo a educadora, acaba valorizando a do outro, de fora.

Solução para a manipueira

Projeto de José Siqueira, vencedor da região Nordeste, envolve comunidade e escola para dar outro destino ao resíduo da mandioca, evitando o desperdício e a degradação ambiental

Na cidade de Vera Cruz, no Rio Grande do Norte, o resíduo do processo de fabricação de farinha de mandioca, a manipueira, era um problema. Sua destinação inadequada poluía a lagoa da comunidade, de cerca de 1,3 mil moradores. A água da lagoa Santa Cruz, no entanto, é uma das principais fontes de sobrevivência. Com o objetivo de aproveitar esse resíduo e despertar a consciência ambiental de seus alunos, nasceu o projeto desenvolvido pelo professor José Siqueira. Desde 2006, diversas ações têm sido realizadas na comunidade, envolvendo os alunos do primeiro ao nono ano do ensino fundamental.

A manipueira, que antes degradava o meio ambiente, agora é utilizada como insumo agrícola, tanto na horta da escola quanto na agricultura local. Além de propiciar um destino adequado ao resíduo, a segurança alimentar da comunidade melhorou com seu uso como fertilizante ou inseticida. A primeira parte do projeto começa com a pesquisa dos alunos com moradores, para saber quais plantas frutíferas havia em seus quintais, o que permite um estudo da vegetação local e da importância da conservação do meio ambiente. Com diversas parcerias, entre elas, o Serviço Nacional de Aprendizagem Regional (senar) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e a verba de um prêmio conquistado pelo projeto, foram adquiridos materiais necessários para a construção de tanques de biorremediação, para armazenar a manipueira nas oito casas de farinha da comunidade, e um caminhão pipa, para transportar o resíduo.

“É um projeto multidisciplinar, trabalhamos junto com todos os professores”, afirma José. Os alunos elaboraram uma cartilha chamada “Um problema, uma escola e uma solução”. Ela foi distribuída em todas as escolas rurais e bibliotecas do Agreste Potiguar. “Ao conscientizar uma criança, estamos plantando uma semente”, acredita.

Agroecologia na escola

Rosemeire da Silva desenvolve projeto, no Assentamento Itamarati, na região Centro-Oeste, que difunde conceitos agroecológicos entre alunos e comunidade

“A escola dentro do seu meio tem que atender a sua realidade, a sua população”, avalia Rosemeire da Silva, da Escola Estadual Professor Carlos Pereira da Silva, localizada no Assentamento Itamarati, em Ponta Porã (MS). Com uma área de cerca de 50 mil hectares e 2,7 mil famílias, o assentamento é um dos maiores da América Latina. Segundo ela, em 2006, diante da situação e da realidade “caótica” da maioria das famílias, a escola foi motivada a fazer algo diferente: implantar uma agrofloresta na escola.

De acordo com Rosemeire, com a ausência de políticas públicas e o alto endividamento dos assentados, era preciso buscar uma alternativa. A agrofloresta tornou-se um espaço pedagógico interdisciplinar e serve de modelo para os assentados. Rosemeire conta que foi feito um cronograma na escola, onde todas as salas passam uma vez por semana no projeto, seja para colher, plantar etc. As sementes produzidas na adubação verde são distribuídas entre a comunidade. A produção é utilizada na alimentação escolar. Nos sítios dos alunos, a maioria reproduz as técnicas agroflorestais.

Ela explica que o projeto apresenta uma alternativa de produção numa área pequena, que se opõe à falsa ideia de que somente em grandes áreas é possível ter produção. “Com a agrofloresta, em uma área pequena, tem-se a recuperação do solo degradado, a produção de alimentos, geração de renda com a venda do excedente, partilha das mudas e sementes ali produzidas, bem como a preservação de sua própria semente para os próximos plantios.”

O projeto contou com o apoio da Embrapa, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do MST, da CUT e da Federação da Agricultura Familiar (FAF), entre outros. Por conta de intempéries, como secas e geadas, foram necessários diversos recomeços. Hoje, o projeto recebe constantemente visitas de pesquisadores de universidades e da Embrapa e tem se tornado referência. De acordo com Rosemeire, os próximos passos são “começar a pesar e anotar tudo o que é colhido.” “Somos a única escola pública do Brasil de ensino fundamental regular que desenvolve esse tipo de projeto. E ele pode perfeitamente ser desenvolvido por todas as comunidades escolares rurais, levando sua produção, o saber cuidar, os valores da partilha, da solidariedade, alegria da colheita, a tristeza de ver a geada ou a seca deixando tudo marrom e sua renovação, com um pouco de chuva.”

A cada nascimento, uma árvore

Nas maternidades de Umuarama, na região Sul, os pais recebem uma muda dos alunos da cidade. Esse é o projeto de Inês Lourenço Augusto

Em Umuarama, no Paraná, todos os pais saem da maternidade com uma muda de árvore. Desde 2007, quando teve início o projeto “Árvores da Vida – a cada nascimento uma árvore é plantada”, entre 130 e 150 mudas foram distribuídas a cada mês. Conforme Inês Lourenço Augusto, professora de Ciências, que teve a ideia do projeto, os próprios alunos produzem as mudas, cultivadas na escola. Os alunos, além de cultivarem as mudas, também fazem cartões com a professora de artes. Os poemas, produzidos na aula de Português, também compõem os cartões.

Com o aumento da demanda pelas mudas, o projeto cresceu. Hoje, ele conta com a parceria do Lions Clube de Umuarama, da Prefeitura Municipal da cidade e do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). O projeto começou no Colégio Estadual Parque Jabuticabeira e se estendeu para a Escola Adventista e o Colégio Estadual Tiradentes.

Para Inês, qualquer município pode implantá-lo. “É fácil, só necessita de parcerias”, ressalta. Nos três hospitais da cidade, uma assistente social coordena o trabalho de entrega das mudas. Para a educadora, são ações que “despertam o interesse pelo reflorestamento e a necessidade de se buscar alternativas de melhoria da condição ambiental da nossa cidade e também do planeta.”

Moeda verde incentiva reciclagem

No Banco Verde, alunos e comunidades trocam materiais recicláveis por moedas. No Bazar Verde, trocam moedas por produtos. Esse é o projeto de Marilúcia Ferreira da Silva, vencedora na região Sudeste

Apesar da presença dos cestos coloridos para receber material reciclável, pouco se reciclava de fato na Escola Municipal Fernando de Azevedo, no Rio de Janeiro. Foi quando a professora da oficina de Protagonismo Juvenil, Marilúcia Ferreira da Silva, junto com seus alunos decidiram fazer algo para incentivar a reciclagem na escola e na comunidade. Em agosto de 2008, com a participação dos alunos de 10 a 14 anos, foram criados o Banco e o Bazar verdes.

A antiga cantina desativada transformou-se na sede do Banco Verde. Marilúcia conta que os alunos começaram a trazer os materiais e, a cada dez objetos, recebiam uma moeda verde. Mas era necessário divulgar o novo banco. Fizeram um cineclube, cuja entrada era “paga” com material reciclável. Uma gincana dividiu os alunos em equipes. No Dia do Meio Ambiente, 5 de junho, as três equipes que levassem o maior número de materiais ganharia um passeio ao Jardim Botânico. Com a venda do material, foram comprados os produtos para abrir o Bazar Verde, onde os alunos podem trocar suas moedas verdes. Além dos produtos do bazar, o dinheiro arrecadado custeia o lanche dos alunos nas excursões.

Mas apenas o que não pode ser reaproveitado na própria escola é encaminhado para a reciclagem industrial. Embalagens Tetra Pak são utilizadas na oficina de artesanato e se transformam em carteiras, também vendidas no bazar. Uma parte do material é utilizada na oficina de teatro, como cenário e até no figurino. Na oficina de música, os materiais viram instrumentos. Os papelões vão para a oficina de pintura. Na de informática, os alunos montam os gráficos do banco.

Alunos, pais e professores têm uma conta no banco, que terá a sua primeira “franquia”. Três alunas de uma escola vizinha conheceram o projeto e quiseram reproduzi-lo. Com o apoio de Marilúcia, mais um Banco Verde está prestes a ser inaugurado. “Depois desse prêmio, estou até sonhando que todo o Rio de Janeiro vai fazer isso”, empolga-se.


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