Blog do Valdemar

política e teologia

22 de maio de 2014, 13h47

Tenebrosas transações na Ilha Marajó (PA)

Município de Curralinho entre os dias 17 e 23 de abril de 2014. Rio Canaticu.
Vi uma lancha da Marinha em 32 horas de navegação. Passou rápido, não deu para fotografar. Imagino que pela vastidão do espaço a monitorar, os marinheiros não tenham condições de registrar devidamente o que encontram. Visibilidade de autoridade que não chega a trazer a percepção de segurança.
Existe a discussão de que as nossas forças armadas estão sucateadas e de que nossa soberania passa pela capacidade de defesa do território. Na minha perspectiva de viajante curioso pela região amazônica, nossas dimensões continentais, fronteiriças, expostas e aparentemente abandonadas, remetem à ideia de vulnerabilidade. Culpa de quem? Não sei o que responder. Não sei mesmo.
O Ministério da Defesa adverte: o Estado de Direito se efetiva quando da objetivação do território, população e soberania. Logo, por mais pacífico que seja o Estado e mais pueril sejam as suas intenções diplomáticas, o braço armado faz-se necessário. Não precisamos recorrer ao renascentista Nicolau Maquiavel para afirmar que as forças armadas fixas bem equipadas, treinadas na tradição humanista, ciosa dos seus compromissos e dos seus limites constitucionais, é um dos marcos do Estado Moderno.
Pelo imenso rio, percebe-se dentro e à margem o intenso comércio. À noite atravessadores em barquinhos marotos nos perguntaram se queríamos mulheres e drogas. Deram-nos a opção de turismo sexual com crianças, sem drogas. Diante da nossa recusa, desligaram as lanternas e voltaram para a escuridão do rio quieto.
Vi algumas dezenas de barcos transportando gente em 32 horas de navegação. O colorido das redes acrobatas. Gente que balança pelo agito das águas ou pelo sacolejo das redes. Barcos grandes e canoas apertadas. Tráfego com suas leis de trânsito. Bagagens ensacadas. Ribeirinho que é ribeirinho se reconhece pela capacidade de desatar nó. Qualquer base é aproveitada para amarrar cordas para segurar as redes, seja dentro de casa ou nos barcos.
IMG_0846Vi algumas dezenas de balsas carregando madeira em 32 horas de navegação. Jangadas que à distância não nos dizem de onde vieram nem para onde vão. Impassíveis. Fui acometido do olhar nativo colonizado. Barquinhos a remo não param jangadas motorizadas. A indústria veloz faz do Estado o seu comitê executivo. Age com ou sem contrato. A riqueza de todos levadas para alguns. O pior é que não se sabe – pelo menos de onde eu estava – quem serão os reais beneficiários. Circulam entre os ribeirinhos a lógica de trocar madeira por um pouquinho de óleo para os geradores e pequenos barcos. Pequenos negócios, pequenos burgueses acumulam as madeiras arrancadas pelos ribeirinhos e aguardam as grandes jangadas. A lógica do capital nas transações envolvendo a madeira.

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