25 de agosto de 2018, 15h25

Teoria da conspiração e naturalização do golpe

Em novo artigo, Gilberto Maringoni aborda a sucessão presidencial: “No momento em que a casa está pegando fogo, é hora de concentrar esforços contra a direita. Mas deve-se, prudentemente, manter o olho vivo”

Foto: Reprodução/YouTube

As matérias do Estadão de ontem – dando conta da aproximação de Haddad com o mercado financeiro – e a de César Felício no Valor de hoje – apontando que o PT é inofensivo aos desígnios da banca – começam a mostrar que o chega pra lá na candidatura de Ciro Gomes, no início do mês, pode ter sido algo mais do que a mera ausência de carteirinha do clube por parte do pedetista.

Sabendo-se das dificuldades materiais objetivas da candidatura Boulos – poucos recursos e exíguo tempo de TV -, Ciro despontava como o único postulante viável para enfrentar os grandes interesses da oligarquia financeira.

Assim, não se pode descartar que o choque de projetos políticos tenha entrado em cena na operação para viabilizar Fernando Haddad – ou Lula, no limite – como candidato de um grande pacto nacional, envolvendo golpeados e golpistas. Ou setores populares e o grande capital.

Um PT desidratado de qualquer veleidade transformadora é uma grande saída institucional para mudar tudo deixando as coisas como estão. Ou seja, é uma alternativa para o grande capital, que nada tem a ganhar se o país for à breca e a convulsão social latente se instalar como fator perene da cena nacional.

Os sinais dados pelo ex-prefeito de São Paulo, apesar do programa petista, são claros. Na convenção do partido, medidas que impunham perdas maiores aos bancos foram sumariamente vetadas pelo comando partidário. FH tem externado posições que soam como música aos ouvidos do mercado: PPPs em profusão, acenos a parcelas dos partidos envolvidos no golpe, a ausência de menções à revogação da reforma trabalhista e a promessa – feita ao capital financeiro – de um possível ministro da Fazenda oriundo “do mercado”.

O comando petista precisa levar em conta que estas eleições embutem um caráter heroico, já visível no pleito de 2014. Ou seja, há uma sede de justiça, democracia e volta de direitos por parte de um largo contingente de brasileiros dispostos não apenas a sufragar a chapa petista, mas a ir às ruas em campanha. Cometer novamente um estelionato como o de quatro anos atrás pode despertar algo que começa como decepção, passa à raiva, sem que se saiba ao certo onde pode desaguar.

Isso tudo quer dizer que não se deva ir às ruas pela postulação petista?

Ao contrário.

A campanha deve ser mais forte, não apenas pelos apoiadores do partido, mas também pelas candidaturas mais à esquerda (Ciro e Boulos).

No momento em que a casa está pegando fogo, é hora de concentrar esforços contra a direita. Mas deve-se, prudentemente, manter o olho vivo. Afinal, ninguém aqui é criança e a memória da eleição de Dilma II está viva demais na cabeça de todos.


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