19 de novembro de 2018, 15h37

Teorias para fazer os burros acharem-se inteligentes

O que há de novo é justamente o combate contra a inteligência. Uma investida contra o que há de mais desenvolvido no pensamento político Ocidental. Se citarmos Marx, Weber ou Freud o argumento é logo desqualificado. Se lermos o texto em que Einstein afirma que o socialismo é a única solução para uma sociedade mais justa, buscar-se-á difamá-lo de alguma maneira.

A dança do impeachment. Foto: Reprodução

A primeira é acreditar que tanto empresários quanto trabalhadores fazem parte da mesma classe: a classe produtiva. Como Jorge Paulo Lemann pode fazer parte da mesma classe que um pedreiro? Um é dono da 3G Capital, Heinz, Ambev etc.. o outro depende da labuta diária para receber pouco mais que um salário mínimo. O primeiro não faz parte das forças produtivas, mas das parasitárias. Nós não podemos colocar um investidor da Bolsa de Valores no mesmo patamar que um operário que depende do salário.

Outro fato é acreditar que os parasitários são os políticos e os servidores públicos. Essa ideia infundada circula entre os conservadores, mas é uma mentira baseada nos políticos corruptos. Se há Fies, cotas, plano de saúde para trabalhadores, consumo de celular e leis para amparar mulheres violentadas, crianças abandonadas etc.. é porque algum político votou em algum momento. Inclusive, o direito de falar essas coisas infundadas também foi votado por algum político quando se aprovou a Constituição. Se você defende um Estado democrático de direito, você deve prezar pelos seus políticos.

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Outra questão é defender a privatização se o governo que foi eleito assumiu o poder afirmando que colocaria ordem na casa. Não seria necessário privatizar, era só acabar com a corrupção. O recurso da privatização poderia ser usado por qualquer um, até pelo político mais nefasto da face da Terra. Ou seja, privatizar não tem nada que ver com a questão da corrupção nos órgãos públicos, tem que ver com interesses internacionais.

Outra conversa para enganar otário é essa crítica ao viés ideológico que supostamente existia nos ministérios e nas secretarias. Diz que o outro faz uma coisa para se eximir de culpa por fazer o mesmo. Entregar o país ao mercado, privilegiar o agrotóxico, atacar os sem terras e indígenas é algo extremamente ideológico. Em política  (aliás em nenhuma outra esfera) é impossível agir sem ideologia.

O conceito de ideologia foi literalmente inventado por Destutt de Tracy em 1801 significando o estudo científico das ideias. Somente depois, Marx e Engels o utilizaram de modo pejorativo como um conceito que implica ilusão, uma consciência falsa deformada pela a ideologia que compõe as ideias dominantes, isto é, as ideias das classes dominantes. E as classes políticas que assumiram o poder, usam tal conceito, em sua propaganda política, no sentido marxista.

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Elas são mais marxistas que as classes políticas que deixaram o poder, pois estas últimas estavam muito mais entregues ao utilitarismo (principalmente na educação) que à empreitada de difundir uma suposta ideologia marxista. Inclusive, cabe lembrar, que o próprio utilitarismo é uma ideologia, ideologia que o governo atual reivindica para si.

O que há de novo é justamente o combate contra a inteligência. Uma investida contra o que há de mais desenvolvido no pensamento político Ocidental. Se citarmos Marx, Weber ou Freud o argumento é logo desqualificado. Se lermos o texto em que Einstein afirma que o socialismo é a única solução para uma sociedade mais justa, buscar-se-á difamá-lo de alguma maneira.

Lembra o episódio do romance de Dostoiévski, Os irmãos Karamazov, em que Ivan afirma não acreditar em Deus e, mesmo se este aparecesse em sua frente, ele negaria, afirmando que se trata de um devaneio, um delírio. O que vem primeiro, a fé ou o milagre? Poderíamos perguntar se é o fato ou a ideia.

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Um cientista renomado mundialmente pode dizer que as alterações climáticas são um fato que irá prejudicar as gerações futuras. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO),124 milhões de pessoas sofreram de insegurança alimentar em 2017, e 34 países, dos 51 afetados, tiveram como causa principal dessa catástrofe os choques climáticos. Contudo, se um indivíduo que você deposita confiança afirmar que tudo não passa de uma ideologia marxista, em quem você acreditaria? Quando não se tem conhecimento se confia, é como uma criança que confia no pai, às vezes, até mesmo depois deste a ter violentado.

Outra questão – e esta abusa da capacidade mental do ouvinte – é dizer que as políticas econômicas e sociais que deram certo nos EUA devem ser aplicadas aqui no Brasil. Temos que lembrar que nos EUA também há cotas e a falta de um sistema como o SUS deixou cerca de 80 mil norte-americanos morrerem somente no último inverno.

Os EUA são uma potência mundial que, até certo ponto, dita as regras da economia. O Brasil é uma mera economia dependente. Seria muito mais inteligente investir em um mercado na América Latina (aqui adotando uma visão direitista sensata), pois aqui sim, talvez poderíamos ditar as regras, ao em vez de investir em uma relação cega e submissa com os EUA.

O PT fez isso. Agiu de forma subimperialista em países da África e da América Latina. Mas, sabemos como funciona, não há como ser imperialista e não ser corrupto. Ainda mais  quando não se é o país mais rico do globo, pois este sim irá manter o imperialismo e a corrupção sem ser descoberto com maior facilidade.

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Outra burrice é dizer que o PT é comunista e que tudo que se coloca contrário ao governo atual é petista. Um governo que possibilitou o crescimento compulsivo da educação privada, dos bancos e dos megaempresários  (Lemann, Joesley, Eike Batista etc.), pode ser considerado comunista? A França, a Itália e até mesmo os EUA que, por sua vez, tornou-se um grande parceiro de Cuba nas pesquisas para achar a cura do câncer, estabelecem relações com a ilha comunista. Eles também são comunistas?

Quanto ao fato de toda a esquerda ser petista é uma ideia estapafúrdia. O PT é o partido que mais se entregou ao mercado. Lula chegou a dizer nos idos de 2006 que quando uma pessoa vai se tornando mais velha tende à direita. Segundo ele é “parte da evolução da espécie humana”. Certamente não pensou em Albert Einstein quando proclamou essa idiotice. Aliás, não é demais lembrar que a investida contra o ativismo vem do governo Dilma na lei antiterrorista assinada durante os grandes eventos (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos). O PT, ao negar a luta de classes e se entregar à conciliação entre elas, negou o princípio socialista e se assumiu ser um pivô na disseminação da política da Terceira Via aqui no Brasil. Nenhum esquerdista pode negar esse fato, a não ser que esteja mal intencionado.

O conflito que se deu está muito mais intraclasses dominantes que entre esquerda e direita. Os que assumiram o governo hoje, atacam o PT por este estar no poder por muito tempo, barrando a chegada dos outros partidos, embora todos tivessem acesso a uma parte do bolo. É uma questão de jogo de poder, nada tem que ver com ideologia.

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Existe uma lenda que afirma que Stálin imprimiu uma edição do Pravda com notícias falsas e a entregou a Lenin para iludi-lo e fortalecer a imagem do futuro governante da URSS. Esse tipo de estratégia está muito mais próxima das promovidas pelos articuladores que levou à vitória do novo governo que pelos petistas.

Tudo isso me faz lembrar o formidável livro de Martin Page, Como Me Tornei Estúpido. O personagem central da trama está convencido de que ser inteligente não traz nenhuma vantagem econômica e pessoal, enquanto vê as pessoas estúpidas regozijarem em sua felicidade. Portanto, concluiu que era muito melhor ser estúpido e investiu mundos e fundos para alcançar esse objetivo. Renuncia os seus livros mais clássicos, deixa de ler o jornal Le Monde e arrisca adquirir estupidez.

Essa história nos remete ao personagem Cipher, o traidor do filme Matrix. Ele prefere o prazer da realidade virtual ao Real, o deserto do Real, insosso, apavorante e avassalador. Ele sabe que Matrix era só um programa de computador, uma falsa realidade, mas fecha um acordo com agentes que, por sua vez, prometem apagar sua memória, isto é, fazer com que volte a ser um adulto envolto em líquido amniótico. No fim conclui: “a ignorância é uma bênção”.

Raphael Silva Fagundes é Doutor em História Política pela UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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