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28 de agosto de 2013, 09h47

Tiro na diplomacia brasileira

Ao querer resolver uma questão complexa ao sabor de uma vontade pessoal, Saboia ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar

Ao querer resolver uma questão complexa ao sabor de uma vontade pessoal, Saboia ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar; colocou em xeque a própria engrenagem que permitiu que chegasse onde chegou Por Marco Piva A fuga espetacular de um senador boliviano da embaixada brasileira em La Paz nada fica a dever aos melhores thrillers de suspense. Arquitetada por quem gozava da confiança que o cargo confere e deveria, por isso mesmo, zelar pelo cumprimento das leis internacionais e pelo direito à vida, a ação virou “case” político mundial, com pitadas de anedota. Salta aos olhos,...

Ao querer resolver uma questão complexa ao sabor de uma vontade pessoal, Saboia ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar; colocou em xeque a própria engrenagem que permitiu que chegasse onde chegou

Por Marco Piva

A fuga espetacular de um senador boliviano da embaixada brasileira em La Paz nada fica a dever aos melhores thrillers de suspense. Arquitetada por quem gozava da confiança que o cargo confere e deveria, por isso mesmo, zelar pelo cumprimento das leis internacionais e pelo direito à vida, a ação virou “case” político mundial, com pitadas de anedota.

Salta aos olhos, em primeiro lugar, a audácia de um subordinado em quebrar a hierarquia para interpretar a seu modo as regras do direito internacional. Fosse um padeiro ou um executivo, vá lá. O senso comum dispensa maiores rigores acadêmicos e compromissos com as leis. Mas, em se tratando de um diplomata, que teve o mérito e o privilégio de frequentar um dos cursos mais cobiçados do Brasil, a manobra se revela infantil, quase absurda, e seus argumentos, patéticos.

Servir a carreira diplomática é assumir compromissos de longa duração com o Estado brasileiro, independente do governante de plantão. Nisso reside o patético. Ao querer resolver uma questão complexa e delicada ao sabor de uma vontade pessoal, o jovem servidor público ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar; colocou em xeque a própria engrenagem que permitiu que ele chegasse onde chegou. E nesse mundo de rivalidades políticas onde o respeito ao outro é sinônimo de debilidade, Eduardo Saboia alimentou intrigas entre duas nações que nasceram para serem irmãs e não inimigas. Fez mais. Colocou lenha na fogueira da desinformação, tão ao gosto da mídia tupiniquim, cuja voracidade pelo sensacionalismo atropela a mais elementar apuração jornalística.

O senador boliviano Roger Pinto Molina, de 53 anos, está na casa de seu advogado Fernando Tibúrcio Peña, no Lago Norte, bairro nobre da cidade. Molina, que liderou a oposição ao governo de Evo Morales, ficou quase 15 meses abrigado na Embaixada do Brasil em La Paz desde que pediu asilo político (Valter Campanato/ABr)

Vale perguntar: onde saiu escrito, com o mesmo destaque, a lista de 20 crimes dos quais o senador boliviano é acusado em seu país, entre eles o de assassinato? Onde está escrito que ele foi julgado e condenado pela Justiça comum, e não pelo governo que acusa de conivência com o narcotráfico? Em qual parágrafo se diz com todas as letras que se trata de um senador criminoso ou de um criminoso senador? Não, nada disso. A fuga promovida por Saboia ocupa por si mesma a (des)informação, não necessitando de contrapontos, controvérsias, críticas, detalhes. Daí ser usada e abusada por uma oposição política acostumada a falar grosso com os povos pequenos e fininho com as potências.

Ao conceder asilo político ao senador, o Estado brasileiro cumpriu a tradição de defesa da vida, acima de questões políticas. Foi assim que fez com Stroessner, ex-ditador do Paraguai, e com Cesare Battisti, em linha diametralmente oposta. Nossa diplomacia nunca negou o direito de asilo a qualquer cidadão e, por isso mesmo, é respeitada internacionalmente. Se o governo da Bolívia insistia em não dar salvo conduto a um cidadão acusado de crimes, é um direito seu, se goste ou não.

Agora, aproveitar a fuga para taxar o Brasil de servil, escravo da ideologia bolivariana, é um despropósito típico de quem tem arrepio à verdade.

Para a oposição, Saboia será um herói, mesmo que tenha, em seu afã missionário, colocado em risco a vida de quem quis proteger. Para o governo, é um insubordinado, que merece ser punido pelo estrago que provocou na imagem do Brasil e nas relações diplomáticas com a Bolívia. Resumo da ópera: era tudo o que Dilma não precisava nesse momento. O DOI-CODI é aqui. Sempre foi.

Marco Piva é jornalista.

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