Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

03 de junho de 2019, 23h13

Transtopia afrofuturista e privilégio branco em “A gente se vê ontem”, de Stefon Bristol

Na coluna de Tomaz Amorim, Stella Paterniani analisa o filme “A gente se vê ontem”, dirigido por Stefon Bristol e produzido por Spike Lee para a Netflix, e suas especificidades como uma obra de ficção científica negra

Foto: Reprodução

Stella Paterniani*

[Contém spoilers]

Quando eu era criança, o Natal era a festa mais esperada do ano. Era finalmente onde toda a parentada se encontrava. Meus pais organizavam uma ceia na cidade em que morávamos, junto com a única tia que também morava na mesma cidade; no dia seguinte, pegávamos a estrada para o almoço com toda a família que se reuniria no interior paulista. Com nossos oito, nove ou dez anos, eu e minhas primas começamos a nos dar conta de que, como a ceia terminava depois da meia-noite, o almoço do dia seguinte era um almoço no mesmo dia – a despeito de dormirmos e acordarmos. Essa foi uma descoberta fabulosa: o dia se estendia! Elas iriam para suas casas, todas dormiríamos, acordaríamos, pegaríamos a estrada, nos veríamos em outra cidade e ainda seria hoje! Foi aí que começamos a nos despedir com sonoros: “Tchau! Até hoje!”, e muitos risos, na noite do 24 de dezembro. Assim fazemos até os dias atuais, mais de vinte anos depois.

Essa tradição que criamos me veio à mente hoje após assistir a “A gente se vê ontem”, produção sci-fi mais recente da Netflix, dirigida por Stefon Bristol e produzida por Spike Lee. A frase que dá nome ao filme é proferida por Calvin, irmão da protagonista, CJ, quando esta sai para a última viagem no tempo que completa no enredo do filme. Este traz ainda nas suas cenas iniciais uma delicada homenagem a Robert Zemeckis e Bob Gale, com uma aparição de Michael J. Fox e uma referência especial a Doc, o personagem que faz par com o do ator na trilogia que os consagrou na ficção científica cinematográfica. No filme de Bristol, o ator que interpretou Marty em “De volta para o futuro” é o professor que aparece lendo Kindred, a obra-prima da ficção científica de Octavia Butler, enquanto espera a turma terminar uma prova. “A gente se vê ontem” é o “De Volta para o Futuro” negro. E, justamente por isso, tem duas características fundamentais que o diferenciam da sequência dos anos 1990: a viagem no tempo estritamente para o passado muito próximo, voltando apenas poucos dias no tempo, em comparação com os saltos monumentais de Marty e Doc no tempo-espaço, e o genocídio da população negra.

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A trama começa com dois brilhantes estudantes de high school nos Estados Unidos (equivalente ao Ensino Médio no Brasil), CJ e Sebastian, experimentando sua máquina do tempo em construção. Fazer a engenhoca funcionar garantirá à dupla a oportunidade de estudar nas melhores universidades do país (as melhores universidades nos Estados Unidos são pagas, e estudantes que se destacam em sua trajetória de estudos podem receber bolsas para fazer o curso que desejarem): ir além do que o futuro sob o domínio branco, ou a branquidade, reserva a dois jovens negros. É por isso que se dedicam a passar horas na garagem da casa de Sebastian, que mora com seus avós. Os lanches e comidas que a avó prepara para a dupla aparecem constantemente na trama, fortalecendo o laço que une os dois jovens: mais do que melhores amigos, consideram-se irmãos.

Mas os planos da dupla são atropelados quando Calvin é assassinado por um policial branco, após ser confundido com outro jovem negro que acabara de assaltar uma loja de conveniência do bairro, onde CJ e Sebastian costumam comer raspadinhas de framboesa. O objetivo então passa a ser voltar no tempo para salvar a vida do irmão de CJ. Em uma das tentativas logram êxito, mas com um preço alto: é Sebastian quem morre, atingido por uma bala de revólver numa confusão. Após os ritos fúnebres, sua avó é internada com um colapso mental e seu avô termina sozinho, consolado pela mãe de CJ, novamente reforçando a produção de laços de afeto entre ambas as famílias.

CJ e Sebastian não foram de todo cautelosos, e acabaram por deixar no espaço-tempo em que Sebatian morre uma cópia do obituário de Calvin, referente ao espaço-tempo em que era este quem morria. Cria-se um clássico conflito de problema de continuidade espaço-temporal na trama. Atormentado ao descobrir o material, Calvin confronta CJ que, sem seu parceiro, conta a seu irmão tudo o que acontecera. Calvin a ajuda a voltar no tempo uma vez mais, dessa vez para salvar Sebastian. Ela leva consigo o obituário naquela que será a última viagem que o filme registra.

Finalmente os três – CJ do futuro do futuro, Sebastian do futuro do passado e Calvin do passado – se encontram sob a mira policial. CJ tenta convencê-lo a deixar o local para escapar da ação policial. Calvin se atormenta ao ver seu obituário do futuro, e enquanto estão todos no chão por ordem policial, Calvin observa que sua foto, no obituário, é substituída pela foto de Sebastian. É Calvin quem percebe que um dos dois irá morrer. Ele se apresenta para a morte, e sabe que não é preciso muita coisa: basta levantar e permanecer em pé, diante do policial, empunhando um celular. A partir daí, o encontro com sua irmã só é certo no passado; no futuro e no presente, não há garantia.

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Despedir-se na madrugada com “até hoje” é privilégio branco. Essa elasticidade do tempo presente é privilégio branco. É privilégio branco também o heroísmo de Marty e Doc em “De Volta para o futuro”, que permite evitar tanto possíveis mortes que a própria viagem no tempo provocaria como outras tantas ao longo da história. Em “A gente se vê ontem” a morte é inescapável. Assim como torcíamos por Marty e Doc, torcemos por CJ, Sebastian e Calvin. Mas Spike Lee, que tem feito filmes diagnósticos de seu tempo, como “Infiltrados na Klan” com os registros do massacre de Charlottesville, não cede ao afã da ficção científica branca que escapa da morte e produz o final heroico do entretenimento. A morte é inescapável porque é o genocídio da população negra o elemento fundamental de um diagnóstico do tempo negro. Da colonialidade que opera, sob o afã da antinegritude, como um eterno retorno.

O filme também faz uma crítica aguda à branquidade, especialmente em sua forma de expressão na mídia e na opinião pública, ao incluir os registros de manifestações de “Black Lives Matter” (“Vidas negras importam”), que ocorreram nos EUA após o assassinato dos jovens Eric Garner, em Nova York, e Michael Brown, em Ferguson, pela polícia, em 2014. Lee argutamente os insere noticiados sob uma manchete que enfatiza a violência dos protestos, numa TV onde repousam os olhos da mãe enlutada que perdera seu filho assassinado pelo policial. Na mesma sala, dias antes, à noite, a mesma mãe trançava os cabelos da vizinha.

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Nem por isso, no entanto, o filme reduz a vida negra como encarcerada sob o genocídio negro e a antinegritude. Não se trata de terra arrasada. As relações de afeto que unem ambas as famílias, de Sebastian e de CJ, evocam a potência do quilombismo, do aquilombar-se como produção de vida, da produção de parentela como vital. O filme termina com a contagem regressiva de mais uma viagem de CJ, novamente para esse passado que, se, por um lado, é o eterno retorno à antinegritude à qual a vida negra segue presa, por outro é, também e justamente pela presença da menina negra, lugar de interferência e criação.

A viagem no tempo permite que o futuro seja o passado e vice-versa. A viagem de uma menina negra pelo tempo e suas interferências na história implicam na recusa do monopólio branco sobre o tempo. Recusar o monopólio branco sobre o tempo é recusar o presentismo, é recusar qualquer análise que proclame a terra arrasada, a imutabilidade das circunstâncias da vida, das relações sociais. É reconhecer o presente do genocídio, mas no entanto recusar-se a reduzir a história à morte.

Não se trata da esperança de que todos os três – CJ, Sebastian e Calvin – escapem com vida dessa vez e sobrevivam neste mundo – no diagnóstico de tempo do genocídio, toda morte é sempre a mesma morte. E, no entanto, cada corpo, cada vida e cada morte é também singular. Trata-se, sim, de reconhecer que os prótons e íons que CJ carrega na sua mochila – feitos de cabelos trançados à noite, lanches da tarde, raspadinhas de framboesa e dos colares que Calvin carrega e que foram de seu pai – produzem uma transtopia afrofuturista: um tempo-espaço que reconhece tanto a história da colonialidade sob a atual forma do genocídio da população negra quanto a vida para além do que é admitido, prescrito e esperado sob a branquidade.

*Stella Paterniani é doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília e tem se dedicado a pesquisar o conflito racial no Brasil, a branquidade e o afrofuturismo – stella.paterniani@gmail.com

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.