13 de julho de 2018, 15h55

‘Tropicália ou Panis et Circenses’, o disco manifesto completa 50 anos

O álbum, lançado em julho de 1968, trazia reunidos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat

A capa do Álbum Tropicália. Foto: Divulgação

Neste mês de julho faz 50 anos que foi lançado o disco/manifesto “Tropicália ou Panis et Circenses”, que reunia Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat.

Com o intuito inevitável de provocar, sob o signo da insolência, jovens e talentosos artistas que marcaram definitivamente a vida nacional para a próxima metade de século, construíram neste álbum, muito mais do que música, uma atitude que, por mais irônico que pareça, ficou completamente fora do eixo nestes dias tão enquadrados.

Os tropicalistas com o visitante Jorge Ben. Foto: Divulgação

Mas a música também vale, e muito, sobretudo toda e qualquer música. Caetano cantar a grandiloquente e dramática “Coração Materno”, de Vicente Celestino equivaleria a algo como regravar Márcio Greyck, Odair José ou um funk das favelas do Rio, coisa que o inquieto baiano faz até hoje.

Mas o disco tem mais, muito mais. Com a capacidade de ir do extremo lírico ao extremo popular, passando pela arrasante canção “Geleia Geral”, onde Gil declama e interpreta os profusos versos de Torquato Neto, o disco faz jus à lenda que gerou, tanto pela qualidade sonora, pelos arranjos de Rogério Duprat quanto pela pura provocação em si mesmo.

Trata-se, conforme confessou Gilberto Gil anos depois, de um projeto de Caetano Veloso. O leonino provocador com a sua sede por polêmicas, transformações e reviravoltas, liderou a fuzarca. Ao lado dos meninos Mutantes e Tom Zé, reinventou sons que iam de Beatles às rumbas caribenhas, macumba e Hino ao Senhor do Bonfim. Toda essa reapropriação cultural que veio a explodir décadas mais tarde já era prevista pelos tropicalistas.

Agregadas, as lindas vozes femininas de Gal Costa – com as transformadoras “Baby” e “Mamãe Coragem” – e Nara Leão, com a enigmática “Lindonéia”, inspirada na obra Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios, de Rubens Gerchman, reequilibram o lirismo e a cultura pop, conflito de gerações e erudição.

A prosaica marcha “Parque Industrial”, contribuição do baiano Tom Zé, reinaugura a narrativa do escárnio satirizando a publicidade e seus produtos, garotas propaganda, jornalismo popular e o banco de sangue engarrafado, tudo made in Brazil.

A emblemática faixa título foi uma das tantas do disco que ganhou carreira própria. Foi regravada várias vezes e o seu refrão se repete sempre que nos pegamos repetindo o passado: “Essas pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

No final das contas, o disco fica centrado em desmontar e recriar tradição, pátria e família em “Miserere Nobis”, de Gil e Capinam, onde a Bíblia e o fuzil se misturam em trocadilhos sem cerimônia. Restava passear escondido, enquanto seu lobo não vem, enquanto a canção faz a nem tão ingênua menção aos clarins da banda militar de Caymmi.

Um disco que merece ser ouvido pela revisão histórica que faz, pela irreverência e qualidade poética, pelos arranjos, pelos cantores e as composições. Um disco que sempre vai nos ensinar muito sobre o Brasil.

Abaixo uma playlist com canções do disco criada pelo Spotify: