09 de setembro de 2018, 11h13

“Ultrapassamos a fronteira da decência em relação à preservação de nossa memória”, diz Sérgio Mamberti

Com 63 anos de carreira artística e uma longa e intensa atuação política, inclusive no Ministério da Cultura, o ator reflete sobre a situação do patrimônio histórico e cultural brasileiro, a partir do incêndio no Museu Nacional

Foto: Reprodução/TV Globo

O trágico incêndio que destruiu quase a totalidade do riquíssimo acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, no último domingo (2), provoca, além de sentimentos como tristeza, revolta e desolação, a necessidade de reflexões sobre algumas questões, principalmente, de que forma o poder público trata o patrimônio histórico, artístico e cultural do Brasil.

“O que aconteceu com o Museu Nacional foi um sinal vermelho para indicar que ultrapassamos a fronteira do mínimo de decência em relação à preservação de nossa memória. O atual governo precisa assumir sua responsabilidade diante do que ocorreu. A PEC do Teto dos Gastos, por exemplo, que reduz investimentos em áreas fundamentais, como saúde, educação e cultura, representa a precarização de todos os recursos, o que acaba beneficiando corporações e não a população”, avalia Sérgio Mamberti, um dos principais atores brasileiros e dono de longa e intensa atuação política.

Com 63 anos de carreira e participação, inclusive no Ministério da Cultura, Mamberti ressalta, porém, que há uma luta histórica que perpassa governos. “O povo precisa exigir de seus governantes, pois o Brasil tem uma riqueza cultural e uma extensão geográfico imensas diante da precariedade das políticas direcionadas para o setor.”

No invejável currículo de Mamberti constam mais de 80 espetáculos de teatro, 40 filmes, 20 novelas e 15 direções, além de várias produções e minisséries. Em função de sua intensa atuação política, ficou 12 anos longe da dramaturgia. O ator ocupou vários cargos no Ministério da Cultura durante o governo do ex-presidente Lula, entre eles, secretário de Música e Artes Cênicas, secretário da Identidade e da Diversidade Cultural, presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e secretário de Políticas Culturais.

Portanto, poucos conhecem tão de perto os “dois lados do balcão”, como se costuma dizer, ou seja, têm a sabedoria obtida em mais de seis décadas na dramaturgia, além de ter atuado em diversos cargos públicos relacionados à cultura.

Sérgio Mamberti: “Nossa luta sempre foi na direção de ampliar recursos para o setor” – Foto: Reprodução/YouTube

“Nós, durante o governo de Lula, assumimos um compromisso histórico para que o Ministério da Cultura obedecesse uma política nacional de cultura, que foi consenso entre a sociedade. Nesse período, ampliamos os recursos para o setor, investimos na política para preservação de museus, inclusive, criamos o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2009. No mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff, houve uma redução, por motivos óbvios, pois o país vivia outro contexto econômico”, explica.

“Atrás do rabo”

Mamberti conta que, tradicionalmente, as pessoas que militam na cultura no Brasil sempre “correram atrás do rabo”, ou seja, prejudicados pela falta de priorização do setor, “frequentemente, tentamos salvar o que já estava irremediável”.

“Portanto, nossa luta sempre foi na direção de ampliar recursos para o setor. Quando eu estava no ministério, saímos de um patamar que não chegava a R$ 1 bilhão, para R$ 5 bilhões e, mesmo assim, em minha opinião, ainda era insuficiente. Por isso, na época, almejávamos contar com verbas do Fundo Nacional do Pré-Sal, que tinha destinação prevista de 10% para a cultura. Dessa forma, haveria mais condições de cumprir uma pauta tão extensa”, revela o ator.

Diante desse cenário, com a significativa redução de investimentos para o setor, Mamberti convoca a sociedade, o poder público e o empresariado para assumirem, de fato, o compromisso de proteção da diversidade cultural e do patrimônio material e imaterial brasileiro. “A sociedade, como um todo, precisa se unir por essa causa, pois nosso patrimônio cultural não pertence apenas ao Brasil, mas à humanidade. Todo esse acervo não merece ter recursos parcos”, acrescenta.

Mamberti cita exemplos de países que, historicamente, lidam de forma diversa com a cultura local. “A França, guardadas as devidas diferenças em relação ao Brasil, pois é um país rico, sempre priorizou seu patrimônio cultural, como museus, castelos e outros equipamentos e manifestações. Tudo isso acaba se tornando uma importante fonte de receita, representando parte significativa do PIB. Com a Inglaterra acontece o mesmo”, finaliza.

Morte anunciada

Logo depois do incêndio, a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, não escondeu sua revolta: “Uma morte anunciada. Não tem investimento nessas áreas. É o acervo de memória do país inteiro, mas não tem recursos. Os candidatos a presidente da República, nos programas, quase nunca falam de patrimônio e cultura. É preciso acontecer uma tragédia dessas para o Brasil ficar exposto à comunidade internacional”, afirmou.

Vale destacar que, das 13 candidaturas à presidência da República, apenas duas têm, em seus programas de governo, referências a investimentos em museus: PT e Rede.

Em entrevista à Fórum, Andrey Rosenthal Schlee, diretor do Departamento de Patrimônio Material do Iphan, afirmou que o que ocorreu com o Museu Nacional é reflexo da falta de priorização da cultura. “Tanto por sucessivos governos federais, estaduais e municipais, como por sucessivas reitorias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não há um culpado! Há uma desconsideração total da cultura; um menosprezo pelo patrimônio que é de todos. O número de candidatos com programas realmente preocupados com o patrimônio cultural é reflexo do descompromisso da política para com a memória do país.”

Andrey Schlee: “Há uma desconsideração total da cultura; um menosprezo pelo patrimônio que é de todos” – Foto: Glória Téga

No entanto, para Schlee, o patrimônio cultural do Brasil não está abandonado. “O Iphan, desde 1937, desenvolve um trabalho exemplar de preservação, reconhecido internacionalmente. Somos modelo para vários países e referência em inúmeros temas para a Unesco. O que falta são duas coisas: que o patrimônio cultural seja priorizado na agenda de desenvolvimento do Brasil e a construção de um Sistema Nacional de Patrimônio Cultural, envolvendo no esforço da preservação os municípios, os Estados, a União e a sociedade”, avalia.

Nesse sentido, Schlee cita que o Iphan, que é responsável pela fiscalização dos bens culturais do país, encontra dificuldades para atuar. “A grande luta da presidente Kátia Bogéa tem sido por consolidar o instituto como um órgão de Estado, com orçamento digno para sua função e servidores em número suficiente para uma atuação em todo o território nacional.”

Mesmo assim, o diretor do Iphan destaca uma das ações do instituto: “A Carta de Goiás, assinada por representantes das prefeituras de 14 sítios Patrimônio Mundial brasileiros, dirigentes da Organização das Cidades Brasileiras Patrimônio Mundial (OCBPM) e da Confederação Nacional de Municípios (CNM), pelos ministros da Cultura, do Turismo e do Meio Ambiente, e pela secretária Nacional de Habitação, com diretrizes para o setor, é uma tentativa de demostrar para todos que o patrimônio cultural deve ser tratado como um ativo. Mostra que investir na cultura é o melhor negócio e que o patrimônio cultural tem que estar na agenda de desenvolvimento do país”, completa.