13 de abril de 2018, 19h19

Um espectro ronda a Igreja, o espectro do fascismo

Setores das Igrejas Evangélicas estão flertando com um tipo de totalitarismo político carismático que aumenta a sua visibilidade no Brasil. A linguagem é extremamente rude, raivosa, moralista e violenta. Para esses, a sociedade civil não é o locus da pluralidade

A certeza absoluta imprensada em cápsulas leva ao fervor do fanatismo. O fanático odeia a dúvida, e por extensão, ao cético. O ceticismo não nega, apenas suspeita. O fundamentalista não suspeita, apenas nega. O fascista não admite conviver com o cético.

Não estou me referindo a Deus ou ao conteúdo bíblico. Abordo o fascismo e o ceticismo no campo da política. Quando o totalitarismo do poder político é revestido pela linguagem “cristã”, vira um troço.

O fervor religioso na fervura da crença política. Mistura que geralmente degenera tanto a expressão de fé quanto a racionalidade política. É como se fosse um experimento de laboratório em que elementos bem conhecidos são misturados em alta temperatura e geram efeitos explosivos.

Historicamente, sistemas despóticos pegaram emprestados os sentidos religiosos para temporariamente traduzirem seus experimentos para as massas humanas. A retórica bibliopolítica tem um quê de diabólica.

Os usuários da retórica bibliopolítica, antes de se pronunciarem para motivar as massas, ocupam-se da arte da interpretação para legitimar suas falas. Antes de aplicar o texto sagrado às circunstâncias políticas ordinárias, os oradores ocupam-se com o trabalho hermenêutico. Distorcem o conteúdo bíblico para brindar suas certezas sociais.

A tal da hermenêutica elástica conta com o imperativo da vontade fervorosa das massas. Como expressou Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do pedido de habeas corpus para evitar prisão do Lula, a hermenêutica precisa reconhecer o clamor popular. O intérprete da lei, segundo o Eminente Ministro no seu voto, precisa estar em sintonia com a opinião pública.

Seja a Constituição ou a Bíblia, seja o hermeneuta jurista ou teólogo, o intérprete ilustrado consegue vergar os sentidos pela força dos seus desejos. A vontade (seja ela pessoal ou das massas) importa mais do que a “verdade” (seja ela qual for).

Quem estuda história logo conclui que fundamentalismo religioso e fanatismo político na mesma panela de pressão, geralmente, produz um caldo de violência. O messianismo político no espírito das cruzadas. Navegar é preciso, mas não mais do que colonizar.

O Papa Francisco é o rosto simpático da Igreja Católica Apostólica Romana. Ostenta uma simplicidade que constrange aqueles que ainda cultivam ranços monarquistas e aspirações de aristocracias togadas. No Brasil contemporâneo, para alguns importantes Bispos, o ser cristão implica em ser reacionário. Pelo que dizem e fazem, parecem querer retroceder para algum tempo antes da Modernidade.

Sisudos, deixam-se fotografar, com armas, ladeados por membros da Bancada da Bala. Os tais sacerdotes se posicionam nos conflitos do campo. Leem a Bíblia e a Constituição para afirmar o direito à propriedade como o “mourão” da cerca conceitual.

O Brasil rural dos latifúndios e grileiros é naturalizado nas prédicas dominicais. Evitam citar os que assumiram o lado dos oprimidos, como Amós, Dorothy Stang, Pedro Casaldáliga, dentre outros. E quando comentam o legado desses profetas é para desqualificá-los com a pecha de comunistas.

Fica muito evidente que não basta mudar o papa para que as mudanças necessárias aconteçam. A igreja não é uma conta simples de soma de pessoas. Além dos indivíduos, a igreja é também uma estrutura. Sistema complexo em que os crentes em comunhão atuam no palco histórico dentro de estruturas formais ou informais, visíveis ou invisíveis, estatutárias ou da ordem dos costumes.

Em vários espaços da Igreja Evangélica quem fala em Direitos Humanos é rotulado como comunista ateu. Quem rotula, ou não sabe o que é o comunismo ou está confuso quanto ao ser cristão. Adota a comunicação das frases curtas, soltas e certeiras. Palavras que são miradas para abater os “inimigos” imaginários.

Seja pela ignorância disfarçada com os títulos acadêmicos ou pela má fé, setores reacionários das Igrejas Evangélicas reeditam no Brasil atual o que outros grupos cristãos fizeram na Itália no tempo de Benito Mussoline (1883-1945) e na Espanha na época do Generalíssimo Francisco Franco (1892-1975). Nunca esquecer que os tais líderes fascistas foram ungidos por líderes religiosos para massacrar os inimigos internos e externos, em nome de Jesus, é claro!

Setores das Igrejas Evangélicas estão flertando com um tipo de totalitarismo político carismático que aumenta a sua visibilidade no Brasil. A linguagem é extremamente rude, raivosa, moralista e violenta. Para esses, a sociedade civil não é o locus da pluralidade em que as disputas sociais e políticas ocorrem de forma civilizada e dialogal. Por confundir fervor com violência, esses grupos atuam no sentido de eliminar as vozes destoantes.