14 de fevereiro de 2018, 17h31

Um novo país nasceu este ano na Marquês de Sapucaí

A desmoralização do status quo, das grandes armações e estruturas desabou na avenida. E transmitido por uma delas

O enredo da Beija Flor, que venceu o carnaval de 2018, se chama: ‘Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu’. O samba, dos compositores Di Menor BF, Kiraizinho, Diego Oliveira, Bakaninha Beija Flor, JJ Santos, Julio Assis e Diogo Rosa, diz assim:

“Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!”

Em segundo lugar, quase como uma zebra sem precedentes, a Paraíso de Tuiuti fez um desfile histórico, com direito a Temer travestido de vampiro, uma comissão de frente inesquecível e um enredo que pergunta de forma desconcertante e direta “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”

“Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social”

O carnaval de 2018 será lembrado por muitos e muitos anos como o carnaval em que o povo e suas escolas resolveram dar um basta às suas mazelas, seus governantes e todos os desmandos que têm sofrido.

Nunca antes na história deste país o carnaval brasileiro foi tão significativo. A emissora responsável pela transmissão, a Rede Globo, constrangida, não sabia onde encaixar os seus comentários. Era impossível fingir que não existiam aquelas figuras simbólicas, as sátiras, as correntes e o seu próprio papel dentro de tudo apoiando o golpe, estigmatizando políticos de esquerda, sobretudo Lula, cumprindo, enfim, o seu papel histórico.

O carnaval de 2018 foi um aviso, um alerta, uma ameaça concreta. As coisas nunca mais serão como foram até aqui. O povo, organizado e encantado, feliz e engasgado, armado até os dentes com o melhor do seu talento deixou claro a que veio.

Acabou. A desmoralização do status quo, das grandes armações e estruturas desabou na Sapucaí.

Um novo Brasil nasceu em pleno carnaval brasileiro.

Foto: Mídia NINJA