20 de fevereiro de 2018, 22h11

Um outro inferno em “O Bom Lugar”

Por Cesar Castanha Há grandes spoilers da série O Bom Lugar. Em uma cena da peça Angels in America, de Tony Kushner, Roy Cohn (Al Pacino), um ícone do conservadorismo estadunidense[1], morrendo em decorrência da Aids, pede que Belize, o enfermeiro responsável por ele, fale sobre a vida após a morte, céu ou inferno. Belize, […]

Por Cesar Castanha

Há grandes spoilers da série O Bom Lugar.

Em uma cena da peça Angels in America, de Tony Kushner, Roy Cohn (Al Pacino), um ícone do conservadorismo estadunidense[1], morrendo em decorrência da Aids, pede que Belize, o enfermeiro responsável por ele, fale sobre a vida após a morte, céu ou inferno. Belize, um homem negro e gay, que costumava performar como drag queen, descreve para Cohn um lugar como São Francisco, onde todos vestem corpetes vermelhos e há “grandes palácios de dança cheios de música e luzes e impureza racial e confusão de gênero”. Cohn então pergunta pelo céu, e Belize o responde: “Esse era o céu, Roy, e você não está lá”.

A descrição do paraíso por Belize é, para mim, uma das passagens mais bonitas da peça de Kushner. É a afirmação de uma utopia que, apesar de o personagem descrever como um espaço que supera “raça, gosto e história”, parte de um rigoroso reconhecimento racial e histórico. Afinal, se o céu é uma utopia (e o que mais seria?), ele é então necessariamente marcado pela História. Não posso crer que, em uma peça que frequentemente se volta para pensar o peso da história em nossas relações subjetivas com o mundo, isso passe despercebido.

Quando Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) é recebida ao paraíso na série O Bom Lugar, as palavras “Bem vinda! Tudo está bem” flutuam sobre a parede de uma sala de espera vazia e perfeitamente simétrica. Esse esforço tranquilizador faz parte de um tipo de segurança terapêutica com que o chamado Bom Lugar (o equivalente ao paraíso na série, para onde vão as pessoas que somaram mais “boas” que “más” ações durante sua vida) é apresentado à personagem depois de sua morte.

O espaço é marcado pela arquitetura asséptica de um subúrbio americano gentrificado. Em vários momentos, ele parece funcionar como uma caricatura da autoconsciência da classe média urbana: o ponto de encontro central da vizinhança é uma loja de frozen yogurt, as habitações variam de uma mansão organizada internamente como uma releitura do art déco a um apartamento que mistura a Nova Bauhaus com a pretensão de um gosto camp.

O Bom Lugar funciona, de modo geral, como uma sátira da realização do sonho americano: todos são juntados a uma “alma gêmea” (a compatibilidade entre os casais é rigorosamente calculada) e devem viver na companhia dela pela eternidade. As realizações que garantiram um lugar para os benfeitores geralmente oscilam entre a filantropia, o trabalho voluntário e um duro exercício de pureza espiritual. Não demora até que fique claro para Eleanor que ela não pertence àquele lugar.

Sim, esse entendimento parte da realização um tanto óbvia de que ela não é a mulher a quem todos se referem. A longo prazo, porém, isso leva a personagem a recusar aquele paraíso não só como um espaço a que ela, especificamente, não pertence,  mas também como uma farsa a ser desmascarada e revelada como o inferno. A descoberta de Eleanor se dá no último episódio da primeira temporada, que termina com ela e os outros habitantes desse inferno particular tendo a memória apagada e sendo mais uma vez recebidos ao paraíso, como no primeiro episódio da série.

A farsa do Bom Lugar, no entanto, é repetidamente denunciada. Em uma das melhores sequências da série, vemos os diversos momentos em que Eleanor se dá conta da impossibilidade de que aquele espaço seja seu paraíso ou qualquer versão do paraíso. É divertido ver como o lugar se apresenta à percepção dela, já que, em vida, Eleanor recusou o mesmo tipo de assimilação à moralidade burguesa que ele oferece: a monogamia forçada, a perpetuação de uma autoconsciência narcisista e a hipocrisia generalizada.

Por toda a série, até o momento (as suas duas temporadas estão disponíveis na Netflix, e a série já foi renovada para um terceiro ano), o verdadeiro bom lugar segue sem ser representado. O último plano dos personagens consiste em aprender a serem boas pessoas para merecer, finalmente, o paraíso. O método escolhido para a aprendizagem, contudo, parece ser a melhor piada desse falso-bom-lugar: eles terão aulas de filosofia da ética e da moral conduzidas por um deles, Chidi (William Jackson Harper), um acadêmico destinado ao inferno pela prolixidade obsessiva com que aborda seu objeto de estudo e a absoluta falta de certezas da sua relação com o mundo.

A imagem problemática do paraíso e de como deve ser uma pessoa que habita esse paraíso se apoia, como a São Francisco ideal de Belize em Angels in America,  em uma constatação social e histórica. As utopias, em O Bom Lugar, precisam ser reconsideradas à luz dos reconhecimentos de classe e raça. Essa reconsideração põe em risco o próprio lugar da utopia, mas, sem ela, o paraíso visado se revela pela violência de um destino manifesto: único, resolvido e irrevogável. Não sei por quanto tempo O bom lugar será capaz de sustentar esse tensionamento entre suas avaliações de utopia e distopia, mas tem sido (em comparação com séries que abordam isso diretamente, como Black mirror e Westworld) uma das mais interessantes a trazer isso adiante.

[1] Fora da ficção, Cohn prestou assistência ao senador Joseph McCarthy na sua perseguição aos supostos comunistas do país e foi um dos responsáveis pela condenação do casal Julius e Ethel Rosenberg à pena de morte.