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08 de janeiro de 2019, 17h14

Uma curiosa história de preconceito: a esquerda e a direita ao som do rock and roll

Raphael Silva Fagundes: “Não basta reclamar ou denunciar cada medida espúria adotada pelo novo governo. É preciso refletir sobre os aspectos que mais estão em contato com os consumidores de tecnologia e da cultura de massa”

Foto: Reprodução/YouTube

O historiador Eric Hobsbawm dá pouco destaque ao rock em sua obra “A era dos extremos”, mas reconheceu que tal gênero musical captou o idioma dos adolescentes e fato de ser “derivado do blues urbano autóctone dos guetos negros da América do Norte”.

Contudo, pouco se sabe que a origem do rock and roll foi marcada por um grande racismo. Havia uma grande preocupação por parte da elite em relação à exposição dos adolescentes brancos à música negra. A Igreja, os professores e os pais recriminavam a nova batida. Sinatra dizia que era “a música marcial para todo delinquente de costeletas”.

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As grandes gravadoras tocavam o ritmo do rock mudando as letras, para obscurecer a origem negra delas. A banda “The Chords”, por exemplo, não conseguiu entrar nas paradas de sucesso, mas o cover da banda branca “Crewcuts” fez sucesso o suficiente para tornar-se o primeiro lugar no final da primeira metade dos anos 1950.

O rock original, feito pelos negros, só conseguiu espaço porque o rádio precisava de um novo mercado, pois estava perdendo espaço para a televisão. O adolescente se tornou um consumidor promissor…

Bill Haley, Chuck Berry não foram suficientes para explodir o rock and roll. Little Richard sonhava ser o rei do rock, mas era “negro demais para conseguir a coroa que ele tão desesperadamente queria”, destaca Paul Frieflander, historiador do Rock.

O rock só explodiu quando se tornou branco. E foi com Elvis Presley. Além de branco o rock precisava se tornar conservador, porque as letras dos negros eram um tanto quanto rebeldes em pleno período reacionário marcado pelo machartismo. Por isso, Elvis dedicou-se ao amor e, mais tarde, se alistou no exército americano. Foi a estratégia de marketing adequada para transformar o rock num produto vendido em massa, um componente básico da indústria cultural, sendo consumido até  mesmo pelos pais brancos que o criticavam.

O rock seguiu com essa contradição. Um caminho para transmitir os conflitos políticos de uma época. Exemplo disto foi o que aconteceu na Londres de meados dos anos 1970. O surgimento do punk é curioso. O baixista Glen Matlock, o baterista Paul Cook e o guitarrista Steve Jones, eram ex-skinheads que se uniram a John Lydon para formar o “Sex Pistols”, uma banda que contestava o sistema a ponto de chamar a rainha de fascista.

A aliança da Frente Nacional com os skinheads, usados como tropas de lutadores de rua, promoveu o surgimento de um cenário musical neonazista. Nasce um movimento chamado “Rock contra o comunismo” em meados dos anos 1970. Eles pregavam a xenofobia. Usavam a música popular para dar “vitalidade e agressão ao movimento anteriormente apoiado por reacionários de meia-idade ou idosos”, explica Nicholas Goodrick-Clarke.

Mas esse movimento foi criado para combater os punks que organizavam shows patrocinados pelo “Rock Against Racismo” e pela Liga Antinazista. Nesses shows tocava o “The Clash”, que diferente dos “Pistols” desenvolveu uma visão mais militante. Inclusive o “Clash” tinha uma forte relação com o movimento negro e musicalmente introduzia elementos do reggae em certas músicas. Punks e rastafaris simpatizavam da repressão policial, não é à toa que em “Guns of Brixton”, com forte sonoridade reggae, se pergunta: “Quando a polícia entrar arrombando a porta, você morrerá com as mãos na sua cabeça ou com uma arma na mão?”.

Mais tarde o “Clash” iria lançar o álbum “Sandinista”, em homenagem à revolução socialista que acontecia na Nicarágua. Um disco triplo que na verdade era uma celebração à vitória dos revolucionários.

O rock, portanto, é marcado por uma história social que trafega por ideias políticas conservadoras e progressistas. A direita sempre tenta boicotar o Rock and Roll, o que deu certo com Elvis (até em relação à hipocrisia moral foi bem-sucedido), mas se frustrou na questão do punk. O disco “London Calling”, do “Clash” ganhou em 1989 o 1° lugar na revista “Rolling Stones” como o melhor álbum dos anos 80. E foi fundamental para voltar às raízes do rock, que estava sendo destruído pelo pop rock de Elton John e pelos solos de guitarra complexos.

Esses dois pequenos episódios servem para ilustrar como alguns elementos da cultura popular foram manuseados em prol de interesses políticos. O mesmo podemos ver no cinema, nas mídias em geral e em outros aspectos da manifestação humana. Acho que a crítica ao sistema deve ser feita através destas manifestações, visto que os fatos não convencem mais. Não basta reclamar ou denunciar cada medida espúria adotada pelo novo governo. É preciso refletir sobre os aspectos que mais estão em contato com os consumidores de tecnologia e da cultura de massa.

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