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21 de Maio de 2012, 02h19

Uma proposta de exercício e de ética da escuta para quem não é vítima de racismo

. Este texto é dedicado à família Miguel. . À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e Twitter, algumas discussões sobre racismo brasileiro que, apesar de sempre saudáveis, com frequência repetem uma dinâmica bastante comum no país. Aprendi, com os anos, que essa dinâmica tem […]

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Este texto é dedicado à família Miguel.

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À raiz do debate de semana passada na Al Jazeera, voltaram a acontecer, no meu Facebook, email e Twitter, algumas discussões sobre racismo brasileiro que, apesar de sempre saudáveis, com frequência repetem uma dinâmica bastante comum no país. Aprendi, com os anos, que essa dinâmica tem que ser descrita com cuidado, para que a própria descrição não termine reforçando-a. Eu me refiro à dinâmica estudada pela Ana nesse texto magistral, Não é sobre você que devemos falar.

Trata-se de um dos maiores obstáculos que se enfrenta no combate ao racismo brasileiro, e ele pode ser resumido mais ou menos nos seguintes termos. Os brancos brasileiros tendemos a acreditar sinceramente, a crer piamente, a estar convictos, de que sabemos o que é o racismo sem jamais termos feito o exercício de escutar suas vítimas. A dinâmica se agrava pelo fato extraordinário e mui curioso, bastante próprio do Brasil, de que 86% dos brancos brasileiros afirmam não ter preconceito contra negros, mas nesse mesmíssimo universo, 92% reconhecem que existe racismo no Brasil.

Conclusão: o branco brasileiro se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, racismo ao qual, curiosamente, ele se crê imune.  É um caso inédito na história da sociologia. Ao mesmo tempo em que se crê imune, o branco brasileiro tende a ter, sobre o fenômeno, uma opinião bastante convicta, sem jamais ter tomado a iniciativa de tentar escutar um negro sobre o que é ser vítima de racismo. O branco não vê, nessa atitude, nenhuma herança racista.

O resultado é extraordinário: praticamente todos os brancos brasileiros reconhecem que há racismo no país, praticamente todos eles dizem que não são parte dele, e mantêm ambas opiniões sem jamais ter feito o esforço metódico, sistemático, de ouvir as vítimas do racismo. Não se costuma, no Brasil, ver a contradição entre essas três coisas. Coisa mais incrível ainda é que, ao serem perguntados se conhecem alguma pessoa racista, os entrevistados, em sua grande maioria, apontavam pais, irmãos, tios, amigos ou namorados. Ou seja, o ambiente ao redor está inteirinho contaminado de racismo, só eu que não!

O racismo brasileiro, que está em todos os lugares mas nunca em nós mesmos, produz, a partir daí, um segundo efeito bastante perverso: conversar sobre a discriminação racial, sobre a segregação e a exclusão raciais, e sobre a luta dos afrobrasileiros por cidadania tende a provocar, na maioria da população branca brasileira, um visível desconforto, um claríssimo mal estar, um mal disfarçado desejo de que a conversa termine logo. É como se o racismo não existisse até o momento em que passamos a conversar sobre ele.

No caso da discussão sobre as cotas, por exemplo, eu ouvi, algumas dezenas de vezes, a reclamação de brancos brasileiros de que não dava pra discutir aquilo porque não se sentiam confortáveis para se oporem a essas medidas de reparação sem serem chamados de racistas. A apreensão é bizarríssima, porque estou nesse debate há mais de uma década e jamais vi um ativista do movimento negro, um militante pró-cotas, um representante de organização afrobrasileira chamar alguém de racista porque se opõe às cotas. Na verdade, eu nunca vi essa acusação ser feita nesses termos “ah, se você é contra as cotas, você é racista”. Mas esse é o fantasma evocado uma e outra vez para terminar a conversa. Se algum marciano pousasse no Brasil, sem conhecimento do contexto, e escutasse tudo isso, ele provavelmente concluiria que o grande problema racial brasileiro é que muitos brancos bem-intencionados estão sendo chamados de racistas.

Vi gente de esquerda (esquerda mesmo) me escrever esta semana dizendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?” A angústia é genuína e o fato de que ela seja expressa assim, sem a menor consciência de que talvez ela tenha algo a ver com o racismo, só mostra como é longo o caminho que temos que andar. São 386 anos de escravidão. Décadas e décadas de violência policial racista e exclusão. 512 anos de discriminação. O movimento negro decidiu que queria essa vitória, essa conquista: as cotas. Elas foram implantadas. Os resultados são melhores do que os esperados: a evasão dos cotistas é menor que a dos não cotistas e suas notas são iguais ou melhores. O Supremo Tribunal Federal validou a constitucionalidade do projeto. E há branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escrevendo “será que não posso questionar se as cotas são a melhor forma de combater o racismo sem ser chamado de racista?”, como se ela fosse contraditória com outras formas, como se ela tivesse que ser a melhor para ser eficaz. Pior de tudo, o branco brasileiro esclarecido, de esquerda, escreve isso e não vê na frase nenhuma herança racista.

O remédio para se combater esse fenômeno só pode ser um: desenvolver uma ética da escuta. E é com esse chamado que eu termino, para que você realize um exercício que venho realizando há duas décadas: se você é um branco brasileiro, seja lá de que origem for, que tal tentar procurar, na sua cidade, ao longo do próximos meses, cinquenta cidadãos afrobrasileiros? Pergunte a eles sobre sua experiência. Concentre-se em ouvir. É a experiência deles que importa aqui. Não é sobre você que devemos falar. Pergunte, por exemplo, como é andar de noite por uma metrópole brasileira sendo negro. Pergunte se ele/ela já foi objeto de revista policial arbitrária. Pergunte se eles já foram agredidos com epítetos raciais. Pergunte se já foram barrados em algum lugar sem razão aparente. Pergunte se já foram interpelados ou olhados como se não tivessem o direito de estar onde estão. Pergunte se já viram parentes serem humilhados por causa da cor da pele. Faça estas e outras muitas perguntas possíveis (por exemplo, sobre a experiência de somente ver garis, porteiros e flanelinhas parecidos com você, enquanto seus amigos brancos veem médicos, advogados e engenheiros parecidos com eles). Leve em conta, neste tipo de exercício, que se você, branco, estiver conversando com um negro que lhe é subordinado, há uma possibilidade de que, dependendo de como a pergunta for feita, ele diga o que você quer ou precisa ouvir, por falta de confiança, por falta de costume, pela dor e pela humilhação envolvidas, pelos anos todos em que foi quase proibido de falar sobre o assunto (já há, inclusive, estudos acadêmicos sobre esse fenômeno). Lembre-se que o racismo é assunto delicado, mesmo no interior de famílias negras, e a conversa sobre ele, envolvendo negros e brancos, uma grande novidade no Brasil. Paute sua sensibilidade a partir desses fatos.

Ouça, ouça, ouça. Concentre-se na experiência deles, não na sua. Depois que concluir esse experimento, com cinquenta co-cidadãos seus, volte aqui e me conte. Se você estiver disposto a escrever um texto sobre a experiência, eu o publico na Revista Fórum.