09 de novembro de 2018, 18h05

Universidade X Povo?

Andrea Caldas: "Ninguém avança só por méritos mas, também, por debilidades dos adversários. É sobre estas arestas que precisamos pensar"

Sim, é lamentável esta vitória dos ultraconservadores mais desqualificados da história do país.
Dá para botar a conta na mídia, no whatsapp e no escambau.
Até nos jovens de 2013, que costumam ser sempre os primeiros a ser espancados.
(Para alguns teóricos do apocalipse, tudo começou lá, com a meninada de mãos dadas na rua e os cartazes escritos com pincel!!!)

Mas, pergunto o que fizeram e fizemos os que estiveram no governo por 14 anos?
Os que fizeram e fizemos os que estamos nas escolas, universidades e espaços de cultura?

Ninguém avança só por méritos mas, também, por debilidades dos adversários.
É sobre estas arestas que precisamos pensar.
E não é exercício de automutilação, como sugerem alguns.

Mas, é como fizeram Marx, Engels, Rosa, Lenin, Trotsky, Lucács e tantos outros: autocrítica para rever e crescer.

E acho sim que a universidade precisa rever seu auto-centramento – e isto é muito sério. Há um internismo e uma soberba que precisam vir a lume e ser questionados.

Contudo,certos segmentos do campo da esquerda precisam rever seu anti-intelectualismo, também, sob pena de “jogar a criança com a água do banho”.

Muita gente boa comprou a tese, fecundada pelo pós-modernismo, de que a experiência, sem mediação é mais verdadeira de que a ciência.
Criou-se um movimento de conhecimento validado pela mera empiria, quase como uma reação contra o iluminismo e a racionalidade.

Pois bem, como efeito colateral, fecundaram-se os “lacradores” e os “talquei”. E sim, os fundamentalistas da fé.

Quantas vezes gente de esquerda acusou alguém de não poder escrever isto ou aquilo porque não tinha lugar de fala, porque não tinha experiência empírica, mesmo que tivesse estudado e investigado o tema?

Então está aí: a empiria fez com que F. Holiday possa falar por negros e gays, a Miss Veneno possa representar mulheres, os pobres possam ser representados pela vertente neopentescostal.

Ou a gente reconhece que conhecimento não é só experiência, nem tampouco retórica.
Ou a gente recupera o nexo intelectual-povo, ou vamos ficar eternamente nas mãos de quem domina os instrumentos para manipular sensações.

Com Gramsci:
O elemento popular “sente”, mas nem sempre compreende
ou sabe; o elemento intelectual “sabe”, mas nem sempre compreende e, menos ainda, “sente”. […] O erro do intelectual consiste em acreditar que se possa saber sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar apaixonado. […] [O intelectual deve sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, portanto, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, bem como relacionando-as dialeticamente com as leis da história, com uma concepção do mundo superior, científica e coerentemente elaborada, com o “saber”; não se
faz política-história sem essa paixão, isto é, sem esta conexão sentimental entre intelectuais e povo-nação. Na ausência deste nexo, as relações do intelectual com o povo-nação são, ou se reduzem, a relações de natureza puramente burocrática e formal; os intelectuais se tornam uma casta ou um sacerdócio.”
(Cadernos do Cárcere)